Carris que vivem em discursos
Opinião

Carris que vivem em discursos

  • 9 de Junho de 2026, 13:21

A ferrovia voltou a ocupar o centro do debate político em Trás-os-Montes. Desta vez, pela voz do PCP, que reafirmou, em Mirandela, a defesa de uma CP integralmente pública, a reativação das linhas do Tua e do Sabor e a construção da ligação ferroviária entre o Porto e Bragança.

Não é uma reivindicação nova. Pelo contrário. Trata-se de uma luta antiga, tantas vezes repetida quanto adiada. O encerramento das linhas ferroviárias da região deixou marcas profundas na mobilidade das populações e na capacidade de afirmação económica de um território que continua a enfrentar os efeitos da interioridade.

As declarações de Alfredo Maia surgem numa altura em que persistem mais dúvidas do que certezas sobre o futuro da ferrovia transmontana. O deputado comunista questiona o atraso na implementação do Plano de Mobilidade do Tua e promete insistir junto do Governo para obter respostas. É uma exigência legítima. Afinal, os sucessivos anúncios e intenções políticas têm produzido poucos resultados visíveis no terreno.

Importa recordar que, há precisamente um ano, o ministro das Infraestruturas classificava como prioritários os estudos de viabilidade para uma futura ligação ferroviária de alta velocidade entre o Porto, Vila Real, Bragança e a fronteira espanhola. Na altura, o Governo apresentava o projeto como uma aposta estratégica para corrigir uma das mais evidentes lacunas da rede ferroviária nacional.

Passados doze meses, continuam por conhecer conclusões, calendários ou compromissos concretos que permitam avaliar a evolução desse processo. A prudência aconselha a não confundir estudos com obra feita. Trás-os-Montes conhece demasiado bem a distância que muitas vezes separa os anúncios das realizações.

A insistência do PCP tem, por isso, um mérito inegável, manter viva uma discussão que não pode desaparecer da agenda pública. Independentemente das soluções defendidas por cada força política, existe um facto difícil de contestar. Uma vasta região do país continua privada de uma infraestrutura que noutras zonas é considerada essencial para o desenvolvimento e para a coesão territorial.

A ferrovia não resolverá, por si só, todos os problemas do interior, mas dificilmente haverá uma estratégia séria de desenvolvimento para Trás-os-Montes que continue a ignorar a importância das ligações ferroviárias. O desafio permanece o mesmo de há décadas, transformar intenções em decisões e projetos em realidade.
Enquanto isso não acontecer, continuará a haver razões para reclamar. E continuará a haver carris que existem apenas nos discursos políticos.

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Written By
Carina Alves