O cheiro a pão acabado de cozer voltou a invadir Palácios, no concelho de Bragança, com a recriação do fabrico tradicional do pão no forno comunitário da aldeia. A atividade marcou o arranque da 26.ª edição do Festival Lombada – Música e Tradição, um dos mais antigos do distrito, reunindo habitantes da aldeia e visitantes em torno de um dos saberes mais emblemáticos do mundo rural.
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À volta da masseira e do forno de lenha, várias gerações voltaram a repetir gestos que durante décadas fizeram parte do quotidiano das famílias. Hoje, já poucas pessoas recorrem a este forno comunitário, preferindo os fornos particulares, mais pequenos e mais fáceis de controlar. Ainda assim, para o festival, o desafio foi assumido por quem mantém vivo este conhecimento.
Para Fernanda Miranda, de 88 anos, participar nesta recriação foi uma viagem à infância. Contou que começou a fazer pão ainda muito pequena, quando foi criada numa casa de lavoura, tendo de subir para um banco para conseguir chegar à masseira. "Sempre vivi na vida do campo e da lavoura", recordou. Hoje continua disponível para ajudar, mas lamentou que este hábito se tenha perdido. "Devia fazer-se mais pão assim. Agora comemos pão da padaria cheio de fermento. Este pão é que nos faz bem”, defendeu.
Também Dulcineia Pires sublinhou que fazer pão era, em tempos, uma questão de sobrevivência. "Todas as raparigas aprendiam desde muito cedo. Fazia-se pão para toda a semana porque não vinha o padeiro vender à aldeia." Apesar de ainda manter esse hábito ocasionalmente, considera essencial recriar estas práticas para que as novas gerações compreendam de onde vêm os alimentos e o trabalho que lhes está associado.
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A habitante recorda ainda todo o processo, desde a lavagem do trigo, à moagem, peneirar a farinha, a preparação do fermento caseiro e amassadura, sublinhando que "a massa é que manda". "Não se pode ter pressa. Há dias em que leveda mais depressa, outros em que demora mais. Fazer pão exige tempo e conhecimento."
Mas revelou um dos segredos. “Para que o pão saia bem e que fique bom, fazemos uma reza que é: São João que faça bom pão e São Vicente que te acrescente”, contou.
Mais do que preservar uma técnica, Dulcineia acredita que esta iniciativa mantém viva uma memória coletiva. "É um momento extraordinário. Faz-nos lembrar quem já partiu, quase sentimos outra vez os cheiros e os sabores de antigamente."
Irene Roque, de 65 anos, continua a cozer pão em casa, embora em menor quantidade do que no passado. "Antes coziam-se muitas sacas de farinha. Agora somos menos e já todos temos mais idade. Mas todos suspiramos por este dia."
Na sua opinião, atividades como esta são também uma oportunidade para aproximar os mais novos das tradições. "Era bom que aprendessem. Hoje é muito telemóvel. Se soubessem fazer estas coisas, ocupavam melhor o tempo e davam mais valor ao trabalho."
O presidente da Associação Cultural, Recreativa e Ambiental de Palácios, Bruno Aliste, explicou que a atividade pretendeu proporcionar uma experiência autêntica a quem visitou a aldeia. "As pessoas têm oportunidade de experimentar, de falar com quem ainda sabe fazer estas tarefas e de ter um contacto muito próximo com as tradições. É isso que distingue o nosso festival. Não é um evento de massas, mas um festival intimista, onde quem vem consegue realmente participar."
Segundo o responsável, apesar de o forno comunitário já não ser utilizado regularmente, continua a ter um forte valor simbólico. "Em casa cada pessoa conhece o seu próprio forno, sabe avaliar a temperatura pela cor das paredes e pela experiência. Cozer aqui é sempre um desafio, porque não conhecem tão bem este forno."
Com apenas cerca de 30 habitantes permanentes, número que duplica ou triplica durante o verão, devido ao regresso dos emigrantes, Palácios preparou três dias dedicados à preservação das tradições locais. O ponto alto aconteceu no sábado, com a recriação da ceifa manual, acompanhada pelas cantigas e pelas merendas de antigamente, tradição que se juntou ao encontro de gaiteiros que esteve na origem do festival há 26 anos.






