Uma placa ridícula e o que ela diz sobre o nosso Estado
Opinião

Uma placa ridícula e o que ela diz sobre o nosso Estado

  • 11 de Junho de 2026, 06:56

“NÃO PISE A RELVA” lê-se preto no branco com uma inscrição muito mais fininha em baixo “OBRIGADO”, em cima um sinal de proibição contrasta em vermelho e, para finalizar e lhe dar alguma credibilidade, assina-se com a marca comercial do município. Talvez pareça estranho um título tão opinado sobre tão simples placa. Mas, por de traz da sua simplicidade esta placa demonstra muito de como o Estado Português pensa entre gabinetes de burocratas que para eles trabalham.

Esta placa está erguida num dos pequenos relvados da Praça Cavaleiro Ferreira, o centro da cidade de Bragança. Não está solitária, é acompanhada por pelo menos outras três irmãs gémeas, mais quatro do outro lado da praça. Foram aqui colocadas aquando da remodelação das artérias principais da cidade há um par de anos. São de resto talvez uma das poucas mudanças efetivas dessa remodelação * já que a criatividade, o conhecimento de cidades modernas e a coragem política não deram para muito mais do que já estava.

Aos dias de hoje a placa parece talvez um simples excesso de zelo, nada de mais. O relvado está em perfeitas condições e não seria o ocasional sapato de uma criança a brincar ou de algum peão distraído que afetaria a sua condição. Mas aqueles que têm memória daquele sítio antes da remodelação sabem o porquê da placa.

A placa está colocada mesmo em frente a uma passadeira. Para quem a atravessa e quer continuar em direção ao Shopping, o relvado decorativo obrigaria o peão a contornar a praça pelo lado esquerdo ou contornar a árvore do lado direito. Como nem todos os que se deslocam a pé estão a ver as vistas e por vezes o tempo corre contra nós foi-se desenvolvendo um trilho de terra batida neste local.

Aqui chegamos à hora do crime. Confrontados com este trilho que se afigura como uma expressão física da necessidade de muitos peões os técnicos que desenharam a remodelação tinham uma escolha a fazer. Podiam oficializar o trilho colocando facilmente umas pedras que indicassem o caminho e protegessem a estética do espaço. Ou podiam simplesmente… proibir. Duvido que sequer tenham pensado na primeira alternativa.

Ao contrário de uma empresa que compete a todos os níveis com outras empresas, nestes pequenos detalhes o Estado não compete com ninguém nem está sujeito ao escrutínio democrático que fica reservado para questões de maior relevância. Os técnicos que decidiram comprar estas placas não tinham qualquer incentivo a redesenhar uma praça que melhor servisse as necessidades dos peões.

Esta é uma pequena questão que não mudou a vida a ninguém para além de fazer perder uns segundos de vida a quem atravessa esta praça. Mas o que revela é uma forma de estar do nosso Estado. Para quem ocupa os lugares do pequeno poder é mais fácil proibir do que trabalhar em prol do cidadão. Aqueles que o fazem (porque também existem) fazem-no por mero brio profissional, a recompensa é exatamente o mesmo que todos os seus colegas que tomaram o caminho mais fácil e nos impediram de o fazer.

Não há área em que uma verdadeira obsessão pelas necessidades intuitivas do cidadão seja mais necessária do que o urbanismo. Bragança precisa de uma revolução neste ciclo autárquico que a aproxime da visão de uma cidade europeia moderna. Espero que este executivo consiga incutir esse princípio em todos os técnicos do município; para que, da próxima vez que um trilho arruinar um estimado e belo relvado, não se levantem muros nem se decretem proibições, mas se encontre a solução que sirva quem ali quer passar.

* – Excetuando, claro, o granito, que certamente crescerá numa árvore no viveiro municipal e que, devido ao excesso de produção, a Câmara Municipal vê-se obrigada a cobrir cada centímetro quadrado dos nossos espaços públicos com ele. Uma obsessão para grande conveniência e deleite dos munícipes que podem no verão estrelar um ovo em praticamente qualquer praça da cidade.


Ouça o Diogo no Parlamento Jovem todas as sextas às 21:00 na Rádio Brigantia

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