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Editorial
Carina Alves

Diretora do Jornal Nordeste

Praia para Bragança

Bragança não precisa necessariamente de tentar criar uma atração turística gigantesca.

22 set. 2026, 10:00

A notícia de que a Agência Portuguesa do Ambiente desafiou Bragança a criar a sua primeira praia fluvial merece ser levada a sério. Não apenas porque uma praia fluvial pode ser um equipamento de lazer com impacto na qualidade de vida da população, mas porque a proposta obriga o concelho a olhar de outra forma para um dos seus recursos mais evidentes e, durante demasiado tempo, pouco valorizados: a água.

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A proposta da APA chega num momento particularmente interessante. Está em curso um processo de reabilitação do rio Fervença e existem já investimentos significativos pensados para a valorização das linhas de água do concelho. A eventual criação de uma praia fluvial poderia, nesse contexto, deixar de ser um projeto isolado e passar a integrar uma estratégia mais ampla de valorização ambiental, turística e recreativa.

É importante agora saber onde seria instalada, que condições naturais existem, que qualidade da água pode ser garantida, quais os custos de construção e manutenção, que acessibilidades seriam necessárias e, sobretudo, que impacto ambiental teria. Uma praia fluvial não é apenas areia, relva e chapéus de sol. Exige segurança, monitorização da água, infraestruturas, estacionamento, acessibilidade e manutenção permanente.

As hipóteses em cima da mesa, o rio Sabor e a barragem hidroagrícola da Castanheira, merecem ser estudadas com rigor. E talvez seja precisamente aqui que reside uma das maiores virtudes do desafio lançado pela APA, obrigar o município a olhar para o território e perceber onde existe uma oportunidade que seja simultaneamente ambientalmente responsável, financeiramente sustentável e útil para a população.

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Também não se deve perder de vista a escala do projeto. Bragança não precisa necessariamente de tentar criar uma atração turística gigantesca. Pode ganhar muito mais com uma infraestrutura de dimensão adequada, bem integrada na paisagem, acessível aos brigantinos e capaz de atrair visitantes durante os meses de verão.

Uma praia fluvial poderia significar mais do que um lugar para tomar banho. Poderia ser um espaço de convívio, desporto, lazer e contacto com a natureza. Poderia ainda contribuir para diversificar a oferta turística de um concelho que tem muito para mostrar para lá do património histórico e da gastronomia. Mas o desafio não é apenas construir uma praia. É decidir que relação queremos ter com a água.

Durante décadas, muitos rios foram tratados como elementos secundários do território, quando não como obstáculos ou simples canais de passagem. Hoje, a recuperação das frentes ribeirinhas e a valorização dos espaços naturais mostram que essa visão está ultrapassada. Um rio pode ser infraestrutura ecológica, espaço público, recurso turístico e lugar de encontro. Por isso, a proposta da APA deve ser recebida com interesse, mas também com exigência.

Bragança deve estudar a possibilidade. Deve comparar localizações. Deve ouvir técnicos, população, freguesias e utilizadores. Deve conhecer os custos e procurar financiamento.

A água está aí. O desafio agora é saber o que fazer com ela.

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