“Mesmo com dois empregos, não tenho liberdade financeira”: a crise da habitação em Bragança
Segundo o INE o valor mediano das casas vendidas em Bragança aumentou para mais 17,3% do que no ano anterior. É o primeiro valor mais alto entre os 12 concelhos do distrito de Bragança.
Numa altura em que a crise na habitação continua a marcar o debate público, os dados relativos aos mercado imobiliário em Bragança têm registado uma subida expressiva.
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De acordo com o mais recente relatório do Instituto Nacional de Estatísticas (INE), o valor mediano das casas vendidas em Bragança foi de 1.199 € por metro quadrado no 2.º trimestre de 2026, o equivalente a mais 17,3% do que no ano anterior. Está 47% abaixo da mediana nacional (2.264 €/m²) e o primeiro valor mais alto entre os 12 concelhos do distrito de Bragança.
Em Bragança, o metro quadrado de uma casa nova custou 1.445 €/m², ou seja, 34% acima do de uma casa existente, que é de 1.076 €/m².
Quanto às rendas, o valor mediano dos novos contratos de arrendamento foi de 5,00 €/m² por mês.
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"Mesmo tendo dois empregos, eu não tenho liberdade financeira"
No âmbito da preocupação crescente entre a população de Bragança, foi organizada uma Assembleia Popular em que todos puderam dar a conhecer a sua história.
Lara Loura é de Sever de Vouga, distrito de Aveiro. Tem 22 anos, veio para Bragança para estudar mas acabou por ficar. Atualmente tem dois empregos e diz que, mesmo assim, com os custos de vida e com a renda que paga não consegue ter a liberdade financeira que gostava de ter.
“Eu vou dar um exemplo muito prático, estou agora a tirar a carta. Eu recebi hoje às 9h da manhã, chegamos às 18h e tenho 200 euros na conta. Porque paguei a renda, paguei um bocado da minha carta, paguei as contas. E a verdade é só uma, mesmo tendo dois empregos, eu não tenho liberdade financeira para poder fazer o que eu quero e não tenho tempo de ir ter com a minha família, que é o que me custa mais”, contou, acrescentando que quando chegou a Bragança, pagava 135 euros por um quarto, “hoje em dia os quartos estão a 250, é um absurdo”.
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A jovem vive, atualmente com o namorado, num apartamento no Eixo Atlântico, paga 500 euros de renda, fora as despesas. Emocionada contou que não tem a liberdade financeira que gostaria de ter para poder a casa e passar o natal com os pais.
“Ou eu tenho tempo de ir ter com a minha família, ou tenho que trabalhar para pagar as contas. Tenho direito ao 24 de dezembro à tarde e ao 25, mas eu não tenho simplesmente dinheiro para pôr combustível e poder fazer uma viagem de três, quatro horas até Severo de Vouga. Então vai ser o meu primeiro Natal sem a minha família porque as possibilidades financeiras e de tempo não são as melhores por causa da crise que passamos hoje em dia”, rematou.
Para Lara Loura apesar da crise na habitação ainda não se sentir como nos grandes centros urbanos, como Porto e Lisboa, também está a chegar a Bragança, “ainda que mais lentamente”.
Ana Lopes tem 38 anos, é de Bragança e ainda vive na casa da mãe. Decidiu juntar-se à assembleia popular organizada em Bragança, na passada sexta-feira, por considerar que ser detentora de um curso superior “ já não é sinónimo de se ganhar bem nem de se conseguir sair da casa dos pais.”
“Tenho um curso superior, um ordenado que não é mau, mas não dá para pagar uma casa para eu viver sozinha. Se eu estou nesta situação com alguns anos de experiência, e já fui aumentada várias vezes, imagino que para quem entra agora no mercado de trabalho seja ainda pior. Não quero necessariamente comprar casa, mas é uma prioridade para mim sair de casa da minha mãe. É poder ter a minha liberdade, ter a minha independência”, concluiu.
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Paulo Lopes foi um dos responsáveis pela Assembleia popular. Explicou que o objetivo da assembleia foi ouvir as pessoas que quisessem contar a sua história. Acredita que os problemas da região são próprios ao território e esperam que, apesar de Bragança ser longe de Lisboa, possam ser ouvidos pelo poder autárquico e pelo Poder Central.
“O objetivo é que o movimento não pare. Isto é uma junção dos movimentos ‘Já Não Dá Mais’ e do ‘Interior à Resistência’, nós vamos continuar aqui todas as semanas até que saibamos que há um senhorio com uma casa por habitar cujo IMI já tenha sido triplicado”, defendeu.
Paulo Lopes deu ainda como exemplo a sua situação para destacar que existe demasiada burocracia para se ter onde viver.
“Eu e a minha namorada para podermos partilhar um apartamento pelo qual pagamos 600 euros de renda. É uma casa boa e num sítio bom. Quando foi para ir para lá, pediram três rendas de caução, dois fiadores, a declaração de rendimentos dos dois e declaração de não dívida ao Estado. Eu acho que não há ninguém que não acha isto exagerado.”
Paulo Lopes não entende o receio dos senhorios e frisa que se o senhorio olhar para o inquilino com confiança, o mesmo vai zelar pela casa como se fosse sua. “ Eu vou cuidar melhor da casa do meu senhorio se o senhorio for um gajo porreiro comigo”, disse.
O responsável concluiu dizendo que o intuito destas iniciativas não é “de estar contra o sistema. Pelo contrário, nós queremos é que a lei seja de facto cumprida.”
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