Dez cêntimos não chegam
O Governo diz que está a mitigar os efeitos da crise. E esta medida, embora limitada, representa algum alívio. Mas aliviar não é resolver. Portugal precisa de garantir condições para que os seus agricultores possam competir.
O Governo anunciou a extensão, até ao final do ano, do apoio de 10 cêntimos por litro de gasóleo para a agricultura e a floresta. É uma ajuda, sem dúvida, mas, perante a dimensão da crise energética, a pergunta impõe-se: é suficiente?
A Confederação dos Agricultores de Portugal diz que não. E alerta, mais uma vez, para o risco de a agricultura portuguesa ser engolida pela espanhola, onde os produtores enfrentam uma realidade de custos diferente. Não é um aviso que possa ser desvalorizado.
O combustível não é uma despesa secundária para quem trabalha a terra. Está presente na preparação dos terrenos, nas máquinas, na rega, nas colheitas e no transporte. Quando o gasóleo sobe, sobe o custo de toda a produção. E quando o agricultor português produz mais caro do que o seu concorrente espanhol, a consequência acaba por chegar ao consumidor e ao próprio mercado nacional.
No Interior, esta realidade é ainda mais dura. As distâncias são maiores, as alternativas de transporte são menores e o combustível é indispensável para trabalhar, transportar e viver.
É por isso que o buzinão que aconteceu em Bragança, no próprio dia do Conselho de Ministros, não deve ser visto apenas como mais um protesto. É um sinal de insatisfação de quem sente que o Interior continua a pagar mais para produzir, trabalhar e sobreviver.
O Governo diz que está a mitigar os efeitos da crise. E esta medida, embora limitada, representa algum alívio. Mas aliviar não é resolver.
Portugal precisa de garantir condições para que os seus agricultores possam competir. Precisa de olhar para o que acontece do outro lado da fronteira e perceber que não podemos exigir aos produtores nacionais que sejam competitivos quando partem para a corrida em desvantagem.
Porque o risco não é apenas pagar mais pelo gasóleo. O risco é perder produção, perder agricultores e tornar Portugal cada vez mais dependente do exterior.
Dez cêntimos podem ajudar a resistir, mas estão longe de chegar para garantir o futuro da agricultura portuguesa.
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