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Editorial
Carina Alves

Diretora do Jornal Nordeste

O lobo e os homens

É fácil defender o lobo a partir da cidade.

08 set. 2026, 09:30

Há uma ironia amarga no debate sobre o lobo no Planalto Mirandês: quanto mais se protege o animal, mais desprotegemos aqueles que vivem no território onde ele habita. É preciso dizê-lo sem equívocos: o lobo merece ser protegido. Uma sociedade que destrói tudo o que incomoda acaba por destruir também aquilo que a torna civilizada. O problema começa quando a conservação da natureza é pensada como uma abstração e não como um compromisso com as pessoas que vivem dentro dessa natureza.

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Para um gabinete, um ataque de lobo é um processo. Para um pastor, é um animal morto. É rendimento perdido, trabalho desperdiçado, património destruído. E quando a compensação chega muitos meses depois, quando chega, o Estado já cumpriu a sua burocracia, mas o pastor continua a carregar o prejuízo.

É fácil defender o lobo a partir da cidade. É mais difícil defendê-lo ao lado de um curral aberto, depois de uma noite de ataques.

É precisamente por isso que não devemos aceitar a falsa escolha entre o lobo e a pecuária. O verdadeiro teste de uma política ambiental está na sua capacidade de conciliar aquilo que, à primeira vista, parece inconciliável. Se queremos lobos no território, temos de querer também pastores. Se queremos preservar a biodiversidade, temos de preservar as comunidades que durante séculos moldaram essa paisagem.

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O Planalto Mirandês não é apenas um espaço onde o lobo sobrevive. É também um território construído por homens e mulheres, por rebanhos, cães. Retirar os pastores dessa equação em nome da conservação seria uma forma particularmente míope de conservar a natureza.

O Estado pode pedir aos produtores que adotem cercas, cães e novas formas de proteção. Pode aumentar indemnizações. Pode criar programas e anunciar milhões. Mas há uma coisa que não pode pedir indefinidamente, que aceitem a incerteza como modo de vida. A coexistência não se decreta. Paga-se, organiza-se e, sobretudo, pratica-se.

O lobo não tem culpa de ser lobo. O pastor também não tem culpa de ser pastor. A inteligência de uma política pública mede-se justamente pela capacidade de não obrigar nenhum dos dois a pagar sozinho o preço da existência do outro.

E talvez seja esta a pergunta que importa fazer: que espécie de país queremos ser, um país que protege a natureza nos documentos ou um país capaz de a proteger sem abandonar quem vive dentro dela?

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