Abandono alimenta incêndios
O Interior de Portugal não pode continuar a ser tratado como uma nota de rodapé das prioridades nacionais.
Há incêndios que consomem floresta. Outros consomem a confiança de um país inteiro. O fogo que deixou um rasto de destruição em Valpaços, Mirandela, Vinhais e Macedo de Cavaleiros não queimou apenas milhares de hectares. Queimou explorações agrícolas, empresas, habitações, anos de trabalho e o futuro de muitas famílias.Mas há uma imagem que permanece ainda mais difícil de apagar, a sensação de que o Estado chegou sempre um passo atrás da tragédia.
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Todos os anos ouvimos o mesmo discurso. E todos os anos vemos o mesmo filme. Enquanto as chamas avançam, sucedem-se conferências de imprensa, promessas de avaliação, reuniões e declarações de solidariedade. Quando o incêndio termina, chega a fase dos anúncios e das promessas de reconstrução, com avisos de reposição que, muitas vezes, não se ajustam à realidade de quem perdeu tudo o que tinha.
O Interior de Portugal não pode continuar a ser tratado como uma nota de rodapé das prioridades nacionais. Produz alimentos, vinho, azeite, castanha, amêndoa, riqueza e identidade. Mantém vivo um território que combate diariamente o despovoamento. Mas basta uma tragédia para perceber que continua longe do centro das decisões ou que, pelo menos, parece condenado a ajudas pensadas por quem não o vive.
Perante uma catástrofe desta dimensão, seria legítimo esperar mais. A declaração do Estado de Calamidade, defendida por autarquias e por milhares de cidadãos através de uma petição pública, não deveria transformar-se numa discussão burocrática quando o que está em causa é a sobrevivência económica de uma região inteira.
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O Governo tem naturalmente o dever de agir com base nos critérios legais, mas também tem o dever político de reconhecer quando uma resposta normal já não é suficiente. E este incêndio ultrapassou, desde cedo, a dimensão do habitual.
Os bombeiros fizeram o que lhes competia. As forças de segurança fizeram o que lhes competia. Os autarcas e as populações fizeram muito mais do que lhes competia. Quem fica, normalmente, a dever maior demonstração de urgência é o poder político.
Mais preocupante do que apagar incêndios é continuar sem apagar as causas estruturais que fazem do Interior um território vulnerável. Décadas de abandono, despovoamento, fragmentação da propriedade, insuficiente gestão florestal e falta de investimento tornam inevitável que cada verão se transforme numa nova emergência nacional.
Não basta elogiar a coragem de quem combate o fogo. É preciso criar condições para que esses incêndios sejam menos devastadores. Não basta indemnizar prejuízos. É preciso evitar que eles aconteçam com esta dimensão.
Portugal não pode aceitar que haja cidadãos de primeira e de segunda consoante o código postal. Quando Lisboa enfrenta uma crise, o país mobiliza-se. Quando arde o Interior, demasiadas vezes espera-se que o Interior resolva sozinho o impossível.
As chamas acabam por desaparecer, mas as cicatrizes ficam durante décadas.








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