Não se anuncia. Constrói-se.
Bragança precisa de uma universidade que não tenha medo de ser interior
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou a criação da Universidade de Bragança e do Norte Interior, a partir da atual Universidade Politécnica de Bragança. Para Bragança e para todo o Interior Norte, esta é uma notícia que deve ser recebida com satisfação, mas também com exigência.
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Durante décadas, falou-se da necessidade de dar ao interior instituições fortes, capazes de produzir conhecimento, fixar jovens, atrair investimento e criar oportunidades. O ensino superior foi, nesse caminho, uma das poucas grandes histórias de sucesso da região. O atual percurso do Politécnico de Bragança demonstra que é possível criar excelência longe dos grandes centros.
Agora, o Governo anuncia o passo seguinte. Uma universidade, apresentada como o culminar do processo de transformação da atual instituição. É uma mudança de nome? Não pode ser. Se for apenas uma alteração institucional ou uma operação de estatuto, terá pouco significado para a região. Se, pelo contrário, significar mais capacidade científica, mais investigação, mais autonomia, novas áreas de formação, maior capacidade para captar estudantes e investigadores e uma ligação mais forte ao tecido económico, então estaremos perante uma verdadeira mudança de paradigma.
E é aqui que começa a parte difícil. Uma universidade não se faz apenas de edifícios, cursos e cerimónias solenes. Faz-se de conhecimento, de professores e investigadores, de estudantes, de ciência capaz de responder aos problemas do território e de criar novas oportunidades.
Bragança precisa de uma universidade que não tenha medo de ser interior. Uma instituição que olhe para aquilo que a região tem, agricultura, floresta, energia, recursos naturais, turismo, património, tecnologia, saúde, envelhecimento demográfico, e transforme esses desafios em áreas de especialização e conhecimento. Uma universidade que consiga olhar para Espanha e para a Europa não como fronteiras, mas como oportunidades.
Mas há uma questão ainda mais importante. Para que serve uma universidade no interior se os jovens continuam a sair? O ensino superior pode ajudar a fixar população, mas não consegue fazê-lo sozinho. É preciso emprego qualificado, habitação, mobilidade, serviços públicos, cultura e condições para que quem estuda em Bragança possa também construir aqui a sua vida.
Por isso, a criação desta universidade deve ser encarada como uma oportunidade que ultrapassa largamente a comunidade académica. Deve ser um projeto de região.
Agora é preciso transformar a promessa em realidade.
Será necessário conhecer o calendário, o modelo de governação, o financiamento, a oferta formativa, a estratégia científica e o papel que a nova instituição terá na economia regional. Será preciso perceber de que forma a palavra “Norte Interior” será concretizada e não ficará apenas no nome.
Porque uma universidade não pode ser uma medalha atribuída a Bragança. Tem de ser uma ferramenta para transformar Bragança. E, talvez mais importante, para transformar o Interior.
O anúncio é histórico, mas a verdadeira história começa agora. Bragança não deve limitar-se a agradecer a universidade que lhe prometem. Deve exigir a universidade de que precisa. Uma universidade capaz de trazer gente, conhecimento e investimento, capaz de formar os jovens da região, mas também de convencer outros a vir para cá.
Se esse for o caminho, então o anúncio feito poderá, daqui a alguns anos, ser recordado não como mais uma promessa política, mas como o momento em que o Interior decidiu assumir o seu lugar na produção de conhecimento em Portugal.
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