Feira da Maçã, do Vinho e do Azeite afirmou a força da agricultura de Carrazeda de Ansiães
Produtores apontaram custos, falta de mão de obra e necessidade de água como principais desafios
Carrazeda de Ansiães recebeu, entre 28 e 30 de agosto, a 29.ª edição da Feira da Maçã, do Vinho e do Azeite, um dos principais momentos de promoção dos produtos agrícolas do concelho. Ao longo de três dias, 120 expositores deram visibilidade à produção local.
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A maçã assumiu particular protagonismo, mas, por detrás das caixas de fruta cuidadosamente apresentadas e dos produtos que chegaram ao consumidor, estiveram produtores que são confrontados diariamente com uma atividade exigente, marcada pelo aumento dos custos de produção, necessidades de rega, fenómenos meteorológicos extremos e dificuldade crescente em encontrar trabalhadores.
José Reixelo, produtor de maçã, resumiu a realidade de uma atividade que deixou há muito de poder ser encarada como uma agricultura complementar. “Não dá para brincar com este tipo de agricultura. Fica muito caro e é desgastante. Tem de se fazer a sério”, destacou.
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Ano “excelente” para a maçã
As condições meteorológicas acabaram por permitir uma campanha positiva. José Reixelo considerou que este é “um bom ano de fruta”, depois de uma época em que as condições se enquadraram favoravelmente nas necessidades da cultura. O problema, contudo, não desapareceu. As trovoadas e o granizo continuam a representar uma ameaça séria para os pomares, obrigando os agricultores a investir em sistemas de proteção. O produtor recorre “há dois ou três anos” a canhões de proteção contra o granizo. Os equipamentos não “espantam” a chuva, como por vezes se imagina. O objetivo passava por tentar reduzir os danos provocados pelo granizo.
A necessidade de proteção foi evidente depois de anos de prejuízos. “Ou investíamos em canhões ou em redes”, explicou, acrescentando que as redes representavam um “investimento muito elevado” e que os apoios públicos não acompanham essa necessidade.
A pressão vinha também dos compradores. As grandes superfícies exigiam “fruta de qualidade” e, perante maçãs danificadas pelo granizo, “procuravam outros fornecedores”. “Se não temos produto de qualidade, chegavam e dizem que não querem e vão embora”, referiu.
Preço da maçã está longe dos custos de produção
A qualidade da fruta não resolve, por si só, o problema económico. José Reixelo apontou valores de comercialização na ordem dos 35 a 40 cêntimos por quilo, dependendo da qualidade do produto. É um preço que contrasta com os custos suportados pelos agricultores ao longo de todo o ciclo produtivo.
Tratamentos fitossanitários, rega, maquinaria e mão de obra pesam cada vez mais nas contas das explorações. Quando a margem se estreita durante vários anos consecutivos, a atividade tornava-se difícil de sustentar. “Quando o ano corre bem e há qualidade, conseguimos ter uma margem engraçada para o agricultor, mas quando há dois ou três anos de margem negativa, a atividade começava a perder a graça”, destacou José Reixelo.
O produtor chamou ainda a atenção para a diferença entre o preço pago à produção e aquele que chega ao consumidor final. Entre a exploração agrícola e a prateleira do supermercado, o valor pode “multiplicar-se várias vezes”.
Mais procura do que oferta
Apesar das dificuldades, o produtor destacou um dado particularmente revelador sobre a força da produção de Carrazeda de Ansiães, a procura continua a superar a oferta. José Reixelo admitiu que recebe “contactos frequentes” de compradores interessados em adquirir maçã. Mesmo procurando entre outros produtores da região, é difícil encontrar fruta disponível. “A nossa maçã é muito procurada. Ligam-me todos os dias a perguntar se tenho 500 toneladas, 400 toneladas. Procuram pelos meus colegas, mas toda a gente está comprometida com os seus clientes”, destacou.
A exploração do produtor atinge uma dimensão considerável, com uma produção anual que pode chegar às 800 toneladas, dependendo das condições da campanha. A escala implica também uma estrutura laboral significativa. Em média, desde a poda até à colheita, “são necessários cerca de 15 trabalhadores por mês”. Na apanha são necessários 40 ou 45”, disse ainda. Contudo, encontrar mão de obra “não é fácil”.
Água é uma questão decisiva
Se a qualidade dos solos e as condições climáticas continuam a favorecer a produção, a disponibilidade de água surge como uma das maiores limitações ao futuro da agricultura local.
As ondas de calor sentidas durante o verão provocaram situações de stress nas culturas. Na maçã, a existência de água suficiente permitiu “aumentar a rega” e reduzir os efeitos das temperaturas extremas, mas ano seco é preciso bombear água para as macieiras. Por isso, a Barragem da Veiga é encarada pelos produtores como um investimento essencial. Para José Reixelo, a sua concretização poderia “beneficiar todo o território agrícola” e permitir que novas áreas fossem aproveitadas.
Na sua perspetiva, se a infraestrutura tivesse sido construída décadas antes, o concelho poderia ter hoje uma base agrícola ainda mais ampla. “Seriam mais 20% de produtores de maçã”, assinalou.
Valor acrescentado
A feira também mostrou que a maçã pode ter uma segunda vida para além do consumo em fresco. A sidra começa a afirmar-se como uma oportunidade de valorização da produção local. Duarte Moura, ligado à produção, defendeu que Carrazeda de Ansiães tem “condições para desenvolver uma verdadeira fileira da sidra”. O produtor considerou, contudo, que o principal desafio está na capacidade empresarial para transformar conhecimento agrícola em produtos de maior valor acrescentado. “Podíamos ser uma potência da sidra. Já tínhamos uma grande base”, referiu.
A experiência da empresa a que pertence ganhou-se estudando as características das maçãs, os processos de fermentação e outros aspetos técnicos associados à produção. “Os empresários transmontanos precisavam de ir estudar, ir ao estrangeiro, aprender e depois fazer”, referiu ainda.
A aposta na transformação é vista como uma forma de aumentar o valor gerado localmente e reduzir a dependência da venda da matéria-prima em fresco.
Refira-se que o município de Carrazeda de Ansiães já integra uma rede europeia ligada às cidades da maçã e da sidra, estabelecendo contactos com regiões de Espanha, Itália, França, República Checa e Eslovénia.
Vinho entre a tradição e o aumento dos custos
Também o vinho marcou presença na feira. Entre os produtores esteve a Encostas de Tralhariz, representada por Gualter Castro.
A comercialização concentra-se sobretudo em Carrazeda de Ansiães e Macedo de Cavaleiros, embora chegue também a outros pontos.
Segundo Gualter Castro, o facto de esta ser uma empresa familiar permite controlar a produção e selecionar os lotes, mas que não elimina o peso dos custos, mas o aumento das despesas está a fazer-se sentir de forma particularmente intensa nos últimos anos. E há uma dificuldade financeira adicional: os produtores de vinho têm de pagar as uvas aos agricultores antes de conseguirem vender o vinho produzido. “Até ao final do ano ou janeiro já tínhamos de pagar as uvas ao agricultor, quando ainda não tínhamos vendido o vinho”, destacou. A situação obriga a uma “gestão financeira rigorosa” e coloca “pressão sobre pequenas empresas com menor capacidade de tesouraria”.
Calor também pressionou as vinhas
Nas zonas mais quentes, como Tralhariz, as videiras sentiram os efeitos do verão. Gualter Castro referiu que as plantas sofreram “algum stress hídrico”, embora estivessem “habituadas às condições adversas” da região.
A evolução da campanha depende, por isso, do equilíbrio meteorológico das próximas semanas . É necessário preservar a maturação e, simultaneamente, evitar condições que possam “comprometer a qualidade das uvas”.
Montra dos produtos locais
O presidente da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, João Gonçalves, considerou que a evolução da feira demonstra a importância que os produtores e expositores atribuem ao certame. A apresentação dos produtos tem-se tornado progressivamente mais cuidada, desde a maçã, mais colorida e valorizada visualmente, ao vinho e ao azeite. “É sinal de que veem neste certame muito potencial para divulgar e promover os seus produtos e, com certeza, também fazer negócio”, referiu.
Para o autarca, a feira não se limita aos três produtos que lhe dão nome. Funciona igualmente como espaço de promoção de outros produtos locais, da gastronomia e das tradições do concelho.
A programação reuniu 120 expositores, incluiu concertos, grupos locais e regionais, gastronomia, cultura e tradição. Dillaz abriu o programa musical, Mariza protagonizou o principal concerto de sábado e os Vizinhos encerraram a animação musical no domingo.
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