Trás-os-Montes prepara uma campanha agrícola favorável

Amêndoa, maçã e vinha destacam-se entre as culturas com melhores perspetivas na região. Registos do INE apontam para uma evolução positiva, mas alertam para os efeitos do calor e do stress hídrico

28 ago. 2026, 07:30

Trás-os-Montes entra na reta final do verão com perspetivas globalmente favoráveis para várias das suas principais culturas agrícolas. As previsões do Boletim Mensal da Agricultura e Pescas de agosto de 2026, elaborado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) com informação disponível até 15 de agosto, destacam particularmente a amêndoa, a maçã e a vinha transmontanas.

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O cenário, contudo, é marcado por um contraste, se, por um lado, a disponibilidade de água permitiu manter condições adequadas para a rega e apoiar o desenvolvimento das culturas, por outro, as temperaturas muito elevadas registadas em junho e julho provocaram situações localizadas de escaldão e stress hídrico.

 

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Amêndoa transmontana com boa carga produtiva

A amêndoa surge como uma das principais notas positivas para Trás-os-Montes, a principal região de produção tradicional de amêndoa. Segundo o INE, e conforme as observações realizadas até ao final de julho, os amendoais apresentam uma boa carga produtiva e um desenvolvimento adequado dos frutos.

As perspetivas para a campanha são, por isso, consideradas favoráveis, numa altura em que a amêndoa se encontrava já em fase de maturação e se aproximava o início da colheita nas zonas mais adiantadas.

A previsão nacional reforça a dimensão positiva deste cenário. A produtividade deverá rondar 1,55 toneladas por hectare, valor que representa um aumento de 40% face a 2025 e de 63% relativamente à média do último quinquénio. O boletim, no entanto, não apresenta neste capítulo uma estimativa específica de produtividade exclusivamente para Trás-os-Montes.

Amendoais apresentam uma boa carga produtiva e um desenvolvimento adequado dos frutos

Maçã resiste melhor ao calor no Norte

Também na produção de maçã, Trás-os-Montes apresenta um comportamento mais favorável do que outras zonas do país.

As temperaturas muito elevadas de julho condicionaram o crescimento dos frutos em algumas regiões, provocando situações de escaldão solar e calibres inferiores ao habitual. No entanto, o INE faz uma referência específica ao Norte e, em particular, a Trás-os-Montes, onde o desenvolvimento dos frutos tem decorrido com maior normalidade.

De acordo com o boletim, este desempenho está associado à possibilidade de recurso à rega e às operações de monda, utilizadas para favorecer o calibre dos frutos.

A previsão nacional para a produtividade da maçã mantém-se semelhante à registada em 2025. Embora este dado seja relativo ao conjunto do território continental, a situação descrita para Trás-os-Montes deixa uma indicação particularmente relevante para os produtores da região, apesar do calor excecional, os pomares transmontanos conseguiram, até ao momento considerado pelo INE, manter uma evolução mais regular.

Vinha transmontana entre as regiões onde se espera maior recuperação

A vinha é outra das culturas que poderá ter uma evolução particularmente positiva em Trás-os-Montes.

O INE prevê para 2026 um aumento de cerca de 12% da produtividade da uva para vinho face à campanha anterior. A vinha apresenta, de forma geral, um bom estado vegetativo e sanitário, embora o ciclo esteja algo adiantado relativamente a 2025. Entre as regiões onde são esperados os maiores acréscimos de produtividade está precisamente Trás-os-Montes.

A perspetiva de recuperação não significa, porém, uma campanha sem dificuldades. O calor intenso de junho e julho provocou episódios localizados de escaldão e stress hídrico, sobretudo nas parcelas mais expostas. Foram ainda registados danos pontuais provocados por granizo e doenças.

Apesar destes problemas, o INE considera que os constrangimentos identificados não deverão comprometer a expectativa de recuperação da produção, mantendo-se boas perspetivas qualitativas para a vindima.

 

Água continua a ser fator decisivo

O desempenho das culturas transmontanas está também diretamente relacionado com a gestão da água num verão marcado pelo calor e pela ausência de precipitação.

O mês de julho foi classificado pelo INE como muito quente e extremamente seco. A nível nacional, a precipitação foi de apenas 0,8 milímetros, correspondendo a uma redução de 92% face à normal de 1991-2020 e fazendo de julho de 2026 o julho mais seco dos últimos 40 anos.

Apesar destas condições meteorológicas adversas, as disponibilidades hídricas existentes permitiram assegurar as necessidades de rega das culturas em várias regiões. No caso transmontano, esta realidade é especialmente importante para culturas como a maçã, cujo desenvolvimento, segundo o INE, beneficiou diretamente da rega.

No conjunto das principais albufeiras com aproveitamento hidroagrícola do continente, o armazenamento encontrava-se, em 31 de julho, em 82% da capacidade total, acima da média de julho do período 1991-2025, que era de 72%. A diminuição relativamente a junho, quando o armazenamento estava em 87%, é considerada normal durante a campanha de rega, perante temperaturas elevadas e precipitação praticamente nula.

 

Um verão de contrastes para a agricultura transmontana

Os dados do boletim traçam um retrato de Trás-os-Montes marcado por algum otimismo, mas também pela crescente dependência de uma boa gestão dos recursos hídricos.

Na amêndoa, a região mantém uma boa carga produtiva e perspetivas favoráveis para a campanha. Na maçã, os frutos têm apresentado um desenvolvimento mais normal do que noutras regiões, beneficiando da rega e da monda. Na vinha, Trás-os-Montes está entre as regiões onde o INE espera maiores aumentos de produtividade, apesar dos efeitos localizados do calor extremo.

O cenário descrito pelo INE mostra, portanto, uma agricultura transmontana que consegue manter boas perspetivas mesmo perante condições meteorológicas particularmente exigentes. A capacidade de rega, o acompanhamento das culturas e as operações realizadas nos pomares e vinhas assumem um papel determinante na proteção da produção.

Os próximos meses, sobretudo a evolução das temperaturas e a disponibilidade de água até às colheitas, serão decisivos para confirmar estas previsões.