Agricultores admitem abandonar a castanha devido aos ataques de veados
Estragos repetem-se há vários anos nas plantações de castanheiros em Cova de Lua, no concelho de Bragança. Produtores estão a recorrer a vedações e soluções improvisadas para travar os ataques, enquanto a Junta de Freguesia pede uma intervenção do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
Os veados voltaram a provocar estragos em plantações de castanheiros em Cova de Lua. O problema repete-se há vários anos e está a aumentar os custos de produção para os agricultores, que dizem estar a perder árvores e a investir do próprio bolso em medidas de proteção.
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José Afonso voltou a encontrar, na semana passada, castanheiros danificados pelos veados. Desta vez, contabilizou cerca de oito a dez árvores atingidas.
O produtor recorre a métodos improvisados para tentar afastar os animais, como sacos, restos de fardos e latas penduradas, que fazem barulho com o vento. “Eles à proteção não ligam. Eles têm medo é destas coisas que eu tenho colocado, às latas dos sumos penduradas, que fazem barulho ao mexer”, explica.
Sem uma vedação, diz, é obrigado a vigiar regularmente as plantações. “Tenho que andar sempre nisto. E segui-los a andar cá quase todos os dias.”
Para José Afonso, a sucessão de problemas está a levar os agricultores ao limite. “Primeiro é seca, depois é doença, depois é o veado. Isto é mesmo de enlouquecer, dá vontade de abandonar. A pessoa desanima, a pessoa nem dorme.”
Numa outra propriedade com mais de 200 castanheiros, conta ter perdido cerca de 70 árvores nos últimos dois anos, apesar dos esforços de rega. “Isto já para mim é mesmo o caos”, afirma.
O produtor de castanha, Alcino Reis, conta que enfrenta prejuízos provocados pelos veados há cerca de sete anos. No ano passado, depois do último ataque, decidiu vedar parte de uma plantação nova, numa área de cerca de dois e meio.
“Decidi meter a vedação porque uma pessoa anda sempre a repor as plantações e acaba por ter prejuízo”, explica. Os prejuízos acumulados já atingiram dezenas de árvores de cada vez. “Os prejuízos foram de uma vez 30 e de outra vez 26”, refere.
O produtor estima que cada castanheiro representa, pelo menos, 10 euros de prejuízo, sem contabilizar máquinas, mão de obra e tempo. “Cem castanheiros a dez euros cada castanheiro já é muito dinheiro”, afirma.
A vedação representou um investimento de cerca de 1600 euros só em material, ultrapassando os 2000 euros quando contabilizados os restantes custos. Até agora, garante que a medida resultou. “Com a vedação ainda não houve ataques, até ver.”
O presidente da Comunidade Local dos Baldios de Cova de Lua, David Garcia Fernandes, que tem acompanhado a situação, considera que os ataques dos veados são recorrentes e que as respostas das entidades responsáveis não têm sido suficientes. “Mais uma vez nós denunciamos aqui o ataque dos veados às plantações de castanheiros na zona de Cova de Lua. Já é constante nesta altura do ano viver este, podemos chamar mesmo um drama, que afeta aqui os produtores de castanha”, afirma.
Segundo o responsável, a zona de caça de Cova de Lua é uma zona de caça municipal cuja gestão cabe à Junta de Freguesia, enquanto a autorização para o abate de veados depende do ICNF.
David Garcia Fernandes diz ter enviado, em setembro de 2025, uma comunicação ao Ministério do Ambiente e ao Ministério da Agricultura, propondo uma intervenção conjunta. Em abril deste ano voltou a pedir uma reunião, sem que, até ao momento, tenha obtido uma resposta que permita resolver o problema.
“É necessário também reduzir muito a burocracia nestes apoios”, defende, considerando que os processos de indemnização são demasiado complexos e que os valores pagos não compensam verdadeiramente os prejuízos sofridos pelos agricultores.
Considera ainda que a responsabilidade pela gestão da população de veados não pode ser transferida para os agricultores. “Se o ICNF, o Parque Natural de Montesinho ou quem quer que seja se quer ter os veados, tem de assumir a responsabilidade por eles e por aquilo que os veados fazem”, sustenta.
David Garcia Fernandes também produtor, partilhou que contabilizou estragos em quase uma centena de árvores.
A Junta de Freguesia de Espinhosela também reconhece o problema. O presidente Octávio Reis explica que foi solicitada, há cerca de 15 dias, uma autorização para uma ação extraordinária de controlo da população. A autorização permitiu o abate de apenas um exemplar, mas a operação acabou por não acontecer.
“Só foi permitido o abate de um exemplar, que não chegou a acontecer, porque não se verificou que os veados estivessem lá”, explica.
O autarca considera que o abate de um único animal não resolveria o problema, numa zona onde terão sido avistados dezenas de veados. “Não é só com o abate de um exemplar que vamos minimizar os estragos, porque eles são dezenas”, afirma.
A Junta aguarda agora uma reunião com as entidades competentes, nomeadamente com o ICNF, para tentar encontrar uma solução. O autarca garante que a Junta de Freguesia está disponível para atuar na prevenção, mas rejeita a possibilidade de esta assumir os custos dos prejuízos.
“As responsabilidades são inteiramente do ICNF”, afirma, lembrando que se trata de animais selvagens que circulam entre diferentes áreas.
“Se não houver solução, haverá abandono”, frisa Octávio Reis, com os olhos postos no futuro da cultura do castanheiro. Isto porque as árvores atingidas podem ter três ou quatro anos e estar próximas de começar a produzir castanha. Quando são destruídas, o investimento feito pelos produtores perde-se e o ciclo de produção tem de ser reiniciado.
“Se voltam outra vez a iniciar, andamos sempre nisto e nunca vai haver rentabilidade da apanha”, alerta o presidente.
Segundo Octávio Reis, a maioria dos produtores já recorreu a vedações, mas sem apoios específicos para suportar esse investimento. O autarca defende que deverão ser estudadas outras soluções, incluindo “vedações elétricas ou outros métodos de controlo dos animais”.
O Jornal Nordeste tentou contactar o ICNF, mas ainda não obteve resposta.
Entretanto, o ICNF adiantou à Lusa, que a responsável pela zona de caça de Cova de Lua, em Bragança, pode solicitar novo abate de veados, após a destruição de mais de 100 castanheiros.
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