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Editorial
Carina Alves

Diretora do Jornal Nordeste

Abandonar o território

Abandonar a agricultura é abandonar o território. É contribuir para a desertificação, para a perda de atividade económica e para o enfraquecimento de comunidades que há gerações mantêm vivas as nossas aldeias.

13 out. 2026, 15:30

A agricultura em Trás-os-Montes chegou a um ponto em que produzir começou a ser sinónimo de ter uma corda ao pescoço. O aumento dos combustíveis, dos fertilizantes, dos adubos e dos restantes custos de produção está a asfixiar agricultores e criadores de gado, que veem as despesas aumentar sem conseguirem vender os seus produtos a preços que lhes garantam uma margem de rendimento.

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Esta realidade não surgiu de um dia para o outro. É consequência de anos de falta de investimento, de políticas desajustadas às necessidades do território e de uma insuficiente valorização do setor primário. Em Trás-os-Montes, onde, como em qualquer outro lugar, há especificidades, as condições de produção colocam dificuldades acrescidas e não se pode continuar a aplicar medidas generalistas, como se produzir em Trás-os-Montes fosse o mesmo que produzir noutras regiões do país.

Ao longo dos anos, sucessivos governos têm falhado na valorização da agricultura, tratando-a demasiadas vezes como um setor secundário, em vez de a reconhecerem como um pilar estratégico da economia nacional. Basta olhar para as grandes economias europeias, onde a indústria e os serviços têm um peso determinante, mas a agricultura continua a merecer investimento, proteção e uma aposta política consistente. A competitividade não se constrói deixando os produtores entregues a si próprios, mas criando condições para produzir mais e melhor, modernizar as explorações e garantir rendimentos dignos. Se Portugal quer competir com os países mais desenvolvidos da Europa, não pode continuar a virar as costas a quem produz. Não há competitividade sem uma agricultura forte, nem desenvolvimento equilibrado sem investimento no setor primário.

O Governo não pode continuar a olhar para a agricultura apenas quando os protestos chegam à rua. É preciso agir sobre os custos de produção, criar apoios diretos e eficazes e garantir que os fundos chegam a quem trabalha a terra. A exigência de 140 milhões de euros em compensações, defendida pela Confederação dos Agricultores de Portugal, é mais um sinal de que o setor precisa de respostas concretas e urgentes, não de anúncios que pouco ou nada mudam a vida de quem produz.

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A falta de aposta na agricultura tem também consequências no futuro. Com os rendimentos cada vez mais incertos, os jovens não encontram razões para investir numa atividade exigente, de enorme responsabilidade e, tantas vezes, sem retorno económico. Os agricultores envelhecem, as explorações ficam sem sucessores e as raças autóctones, a produção nacional e a própria sobrevivência do mundo rural ficam em risco.

Abandonar a agricultura é abandonar o território. É contribuir para a desertificação, para a perda de atividade económica e para o enfraquecimento de comunidades que há gerações mantêm vivas as nossas aldeias.

O setor primário não pode continuar a ser tratado como o parente pobre da economia. Sem agricultores não há produção alimentar. Sem condições para produzir não há renovação geracional. Sem uma agricultura sustentável o interior perde mais uma razão para resistir.

Trás-os-Montes não precisa de promessas adiadas. Precisa de uma política agrícola que reconheça as suas dificuldades, invista no seu potencial e garanta condições para que produzir continue a ser uma atividade com futuro. O Governo tem de agir. Agora! Quando a agricultura desaparecer, recuperar aquilo que se perdeu poderá já não ser possível.

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