Ordem pública está em ordem
A democracia não devia ter medo de uma tenda.
Há coisas verdadeiramente extraordinárias neste país. Uma delas é a capacidade de transformar um problema social numa questão de ordem pública e, depois, fingir que se resolve alguma coisa. É uma espécie de milagre da política portuguesa, não se constrói uma casa, mas consegue-se desmontar uma tenda. Prioridades.
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Em Lisboa e no Porto, durante a madrugada de domingo, a polícia voltou a fazer aquilo que aparentemente se tornou mais fácil do que encontrar soluções para a crise da habitação, retirar pessoas da rua. Bastões, detenções, feridos e tendas pelo chão. Uma operação de despejo de esperança, com direito a equipamento especial e tudo.
Há qualquer coisa de profundamente irónico em precisar de forças policiais para enfrentar pessoas que protestam por não terem casa. Aparentemente, o grande perigo para a estabilidade nacional não é uma geração inteira sem capacidade para pagar uma renda, mas meia dúzia de tendas numa praça pública.
Depois temos as explicações. A polícia cumpriu a sua missão. O Governo não deu ordens. A atuação foi operacional. Há procedimentos. Há regras. Há sempre uma explicação técnica para tudo, menos para o facto de alguém trabalhar a tempo inteiro e continuar sem conseguir pagar uma casa. Para isso ainda não inventaram nenhum procedimento.
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Não se pretende, naturalmente, que a polícia deixe de cumprir a lei. Os agentes também têm direitos, também ficam feridos e também não devem ser colocados na linha da frente de conflitos que não criaram, mas talvez convenha perguntar quem decidiu que esta era a resposta necessária e se alguém, em algum momento, se lembrou de perguntar por que razão aquelas pessoas estavam ali.
O Presidente da República pede esclarecimentos, os partidos indignam-se, os sindicatos anunciam queixas, as organizações denunciam excessos e o Governo lamenta as imagens. Portugal está, portanto, a funcionar em pleno, toda a gente reage, toda a gente comenta e, entretanto, ninguém parece ter uma casa para oferecer como solução.
No Porto voltaram a montar-se tendas. Em Lisboa, a mobilização continua. Talvez porque as pessoas ainda não perceberam que, neste país, a melhor maneira de combater a crise da habitação é não falar muito dela. Sobretudo em espaços públicos. Pode incomodar.
Senhores governantes, uma nota, uma tenda não é uma casa, mas a sua remoção também não é uma política de habitação. E uma bastonada não paga uma renda.
O problema não desapareceu na madrugada de domingo. Apenas ficou mais visível. E se isto vos parece uma vitória da autoridade, talvez seja altura de perguntar que autoridade é esta que consegue desocupar uma praça, mas não consegue devolver às pessoas a possibilidade de viverem nela, ou em qualquer outro lugar, sem hipotecarem a vida inteira.
A democracia não devia ter medo de uma tenda. Muito menos de quem está debaixo dela.
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