A aldeia de Cidões, no concelho de Vinhais, volta a celebrar a Festa da Cabra e do Canhoto no próximo dia 31 de outubro. A iniciativa, que junta rituais ancestrais, música, dança e uma grande fogueira, promete transformar a aldeia numa celebração marcada pela luz, pelo fogo e pela preservação das tradições populares do Nordeste Transmontano.
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Para Luís Castanheira, presidente da Associação Raízes de Cidões, a escolha da data não é uma coincidência nem está relacionada com o Halloween. A festa estará ligada a práticas antigas que assinalavam a passagem da estação clara para a estação escura, preparando as comunidades para a chegada do inverno.
“Há 2000 anos, entrar no inverno e sobreviver ao inverno rigoroso europeu, sem condições, não seria fácil”, recorda o responsável, que associa a celebração ao Samhain, uma festividade tradicionalmente relacionada com o calendário celta e a transição entre estações.
Segundo Luís Castanheira, a tradição sobreviveu ao longo dos séculos graças à transmissão de costumes entre gerações. Durante muito tempo, a celebração era sobretudo da população local, que se reunia para recolher lenha, acender uma grande fogueira, queimar um boneco de palha e partilhar comida e bebida.
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A partir da década de 1990, a divulgação nos meios de comunicação social contribuiu para aumentar a notoriedade do evento, que passou a atrair visitantes de várias regiões. Hoje, a afluência é tão significativa que a dimensão da aldeia representa um desafio à capacidade de acolhimento.
“Já não podemos fazer muita publicidade porque aquilo efetivamente é pequenino para tanta gente”, admite o presidente da associação.
Uma fogueira para afastar o azar
Um dos momentos centrais da festa é a queima do canhoto, um enorme tronco de castanheiro que, de acordo com a organização, pode pesar entre cinco a 10 toneladas. O fogo assume um significado simbólico de purificação, associado à expulsão dos maus espíritos e ao desejo de atrair sorte para o ano que se aproxima.
“Vamos lá queimar a má sorte, os maus espíritos, o mau azar”, explica Luís Castanheira, sublinhando que a luz da fogueira ocupa um lugar central na tradição.
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O nome da celebração está também ligado aos seus elementos simbólicos. A cabra é representada através de um prato tradicional confecionado com cabra machorra, enquanto o canhoto remete para o tronco que alimenta a fogueira e, no sentido simbólico evocado pelo responsável, para o diabo.
A figura do bode, construída com a participação da comunidade educativa e de outros colaboradores, é outro dos elementos marcantes da noite.
Do carro de bois à luta entre o bem e o mal
A programação integra vários momentos que procuram preservar a identidade da celebração. Entre os mais aguardados está o acendimento da grande fogueira, acompanhado por uma explosão de luz e som.
Por volta das 23h30, a chegada de um carro de bois com a figura do diabo constitui outro dos pontos altos. Segue-se a entrada do grande bode na fogueira, num ritual acompanhado por música celta e pelos sons dos gaiteiros.
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A festa culmina com a representação da luta entre o bem e o mal, protagonizada pelo druida e pelo diabo. O desfecho pretendido é a vitória do druida, que simboliza a expulsão do diabo até à celebração do ano seguinte.
“Nunca entregámos a empresas para trabalhar a festa”, salienta Luís Castanheira, destacando o papel do grupo de voluntários e da Associação Raízes de Cidões na continuidade do evento, com a colaboração do município de Vinhais e da Junta de Freguesia de Vilar de Peregrinos.
A recolha de lenha é outro costume que permanece associado à celebração. Antigamente, os habitantes percorriam a aldeia e os terrenos próximos à procura de madeira para alimentar a fogueira. Segundo o responsável, a prática mantém-se num espírito de participação comunitária e com o consentimento de quem disponibiliza a lenha.
Mais do que um espetáculo, a Festa da Cabra e do Canhoto procura preservar uma herança cultural que, segundo Luís Castanheira, também existiu noutras aldeias da região.
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