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Editorial
Carina Alves

Diretora do Jornal Nordeste

Winter Is Coming

“Leave one wolf alive and the sheep are never safe".

27 out. 2026, 10:00

O presidente do Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana, Benjamim Pereira, falando acerca das manifestações pela habitação que têm ocorrido no Porto e em Lisboa, disse não saber se a sociedade atual está disponível para o "nível de sacrifício" da anterior, recordando que os seus próprios avós emigraram "para poderem ter uma casa". O Governo, pela voz do ministro com a tutela da Habitação, admitiu, quase de imediato, que não se revê nas declarações do presidente do IHRU e o próprio Benjamim Pereira veio, depois, retratar-se, afirmando que "em momento algum disse que os jovens não tinham dificuldades ou que não estavam a sofrer". Aos jornalistas disse ser até mesmo ser "mentira" que tenha sugerido a emigração e blá blá blá. De pouco serve. Palavras são como flechas. Atirou está atirado. Não volta para trás.

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Senhor Benjamim, você calado era poeta. Aplausos pela sua coragem, porque noção não tem. Para mim, e creio que para a maior parte do pessoal que tem mais ou menos a minha idade e os meus problemas, e não são muitos, nem são poucos, são bastantes até, as suas declarações e compreensão foram um verdadeiro miminho.

Talvez no mundo em que você vive não haja sacrifício nem esforço. Eu, no seu lugar, a ganhar mais de 7 mil euros por mês, segundo dizem por aí, também não estaria muito importada com martírios e sofrimentos por causa de uma casa. Só é pena que nesse mundo, onde você e mais alguns vivem, não se encaixe quem anda na rua a lutar por algo básico.

Sacrifícios? Mais? Mas quais? Deixar de respirar? Não é sacrifício suficiente trabalhar diariamente e ganhar um ordenado que dá para pagar habitação, contas de telefone, água e eletricidade, alimentação e combustível? E olhe que já é uma habilidade dos diabos dar para tanto.

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Quantas e quantas almas haverá neste país que têm de deixar alguma destas despesas para trás? Quantas haverá a ter de voltar a casa dos pais ou a choramingar porque acabou a massa e o arroz e sobrou o mês?

Não é penoso o suficiente, quando chegarmos a velhos e estivermos com os pés para a cova, perceber que as férias mais luxuosas que tivemos foi ir ver a tia Maria a França? Que faltámos a festas de anos porque os 10 euros que íamos dar por uma prenda faziam falta para pagar a água? Que recusámos ir jantar com amigos porque a gasolina tinha subido outra vez naquela semana? Isto não são luxos. É viver. E viver não devia ser algo exclusivo para abastados.

Estamos entregues à nossa sorte. Como dizia o outro, em Game of Thrones, aquela série que tantos jovens viram quando ainda estávamos no tempo das vacas mais ou menos nutridas e achávamos, por isso, que a vida ainda ia ser porreira q.b., "winter is coming". Mas cuidado. "Leave one wolf alive and the sheep are never safe".

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