Castanha, entre a esperança e a incerteza
A XXI Rural Castanea – Festa da Castanha Longal voltou a reunir, durante três dias, produtores e visitantes em torno de uma das culturas mais importantes de Vinhais, mas, por detrás da festa, há uma realidade que inquieta quem vive dos soutos: castanheiros a secar, frutos sem qualidade comercial, custos de produção elevados e um clima cada vez mais imprevisível.
A castanha continua a ser uma das maiores riquezas de Vinhais, mas os seus produtores sabem que, hoje, plantar um castanheiro é também aprender a conviver com a incerteza. Há árvores que não resistem aos primeiros anos, frutos que secam antes de chegar ao chão e colheitas que acabam por não compensar o trabalho de meses.
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Na XXI Rural Castanea – Festa da Castanha Longal, que decorreu de sexta-feira a domingo, a celebração do produto fez-se lado a lado com as preocupações de quem o produz. Entre os expositores, as conversas regressavam às doenças, ao calor, à falta de apoios e à dificuldade de transformar uma boa parte da colheita em rendimento.
Vinhais tem atualmente cerca de 10 mil hectares de castanheiro, face aos aproximadamente sete mil hectares de há três ou quatro anos. A expansão da área plantada mostra que continua a haver quem acredite nesta cultura. Num ano de boa produção, a castanha pode representar entre 15 e 20 milhões de euros para a economia do concelho, mas a dimensão deste potencial contrasta com a fragilidade de muitas explorações.
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Castanheiros secam e investimentos perdem-se
Irene Pires, da Gestosa de Lomba, conhece o esforço que está por detrás de um souto. Herdou castanheiros, comprou outros e decidiu fazer novas plantações. Só as árvores que plantou por iniciativa própria já ultrapassam um milhar. Ainda assim, há locais onde o trabalho parece nunca chegar ao fim, já que “as árvores secam e é preciso voltar a plantar”. “A castanha é uma mais-valia, caso não secassem os castanheiros”, lamentou. Segundo explicou, nos últimos tempos, as árvores começam a desenvolver-se e, quando chegam aos dois ou três anos, “acabam por morrer”. Na origem do problema estão as “doenças, falta de humidade e danos provocados por animais”. “Tenho uma plantação em que investi 1200 euros e sobreviveram apenas dez castanheiros”, vincou, sublinhando que anda há mais de três anos a repor o mesmo souto e “nada”.
Mais do que um apoio financeiro para plantar de novo, defende que os agricultores precisam de “ajuda técnica” para identificar as causas. “Gostaria que analisassem os solos e as árvores, para perceber se o problema está na terra, na falta de água ou numa doença. Uma pessoa não sabe. Já por isso há engenheiros para tudo”, admitiu.
A preocupação com a sobrevivência dos castanheiros é também sentida por Alice Fernandes, de Nuzedo de Cima, que tem cerca de mil árvores, entre as herdadas e plantações feitas pela família. “Temos feito novas plantações, mas antigamente ainda valia a pena. Hoje não, porque estão a secar todos”, referiu, dizendo que “as doenças são uma das principais dificuldades” e que “no passado era possível ganhar mais dinheiro com menos castanheiros” porque “não se via nada disto”.
Ainda assim, a produtora reconheceu que o esforço desenvolvido no concelho para combater as doenças, mas considera que os resultados continuam aquém das necessidades. “É uma mais-valia, mas, mesmo assim, não estão a conseguir. Também não é culpa deles, é o clima, sei lá, é calor a mais”, referiu.
Se as doenças preocupam os produtores durante todo o ano, o estado da castanha à chegada da colheita é uma das maiores inquietações desta campanha. Segundo Alice Fernandes, este ano as castanhas “caem já secas e com pouco peso”. “A castanha queria frio e chuva, não era este grande calor”, explicou.
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O problema reflete-se diretamente na comercialização. “Uma castanha com pouco peso perde valor e deixam de a comprar”, disse a produtora.
As alterações climáticas, que também estão a prejudicar o investimento de um agricultor de Nunes, são, hoje, uma das grandes ameaças à viabilidade da cultura. Ou seja, Rui Gonçalves, que decidiu apostar na castanha há seis anos, tem dez hectares de castanheiros, plantados de raiz, e conhece bem a distância que pode existir entre o investimento inicial e o rendimento efetivo de uma exploração. “Decidi investir nisto. Foi uma iniciativa assim um pouco louca”, referiu, reconhecendo que as doenças e a instabilidade do clima tornam a atividade “mais complicada do que esperava”. Para este produtor, este ano há castanha em quantidade, mas o calibre “é irregular”. “Em 50 aparecem dez boas, grandes”, vincou.
Apanhar para depois deitar fora
É na hora de vender que muitos destes problemas se transformam em prejuízos concretos. Irene Pires viveu essa situação com as primeiras variedades a cair nesta campanha, “a castanha estava seca, os compradores e acabou por ser aproveitada para alimentar os porcos”. “Foi dinheiro que se perdeu”, lamentou.
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Segundo a produtora, a castanha chegou a estar a 2,50 euros por quilo, mas o preço deixou de ter significado quando o fruto não encontrou saída comercial. A apanha exigiu mão de obra, os trabalhos no souto tiveram custos e, no final, uma parte da produção não gerou qualquer receita. “Uma pessoa anda todo o ano a trabalhar, gasta dinheiro e, quando chega a altura da castanha, pensa que vai buscar algum. Em vez de termos lucro, ainda ficamos com prejuízo”, destacou.
Já Rui Gonçalves vendeu castanha a 3,50 euros por quilo, na feira, um valor que considerou elevado do ponto de vista de quem compra. Ainda assim, entende que “o preço tem de refletir a escassez e as dificuldades da produção”, porque “o agricultor ganha muito pouco e a percentagem do agricultor é muito pequena”.
“Empobrecer alegremente”
Para Irene Pires, o problema ultrapassa a campanha deste ano. A agricultura, assim como tantos outros, enfrenta dificuldades que afastam os mais novos e colocam em causa a continuidade de uma atividade que durante gerações sustentou muitas famílias transmontanas. “Está tudo a fugir da agricultura porque isto está um caos, não dá. Ser agricultor é uma maneira de empobrecer alegremente”, afirmou, destacando que “há muita falta de apoios” e que “ninguém quer saber dos agricultores”.
Alice Fernandes partilha a crítica. Segundo disse, “toda a gente tem apoios, o agricultor não tem nada”.
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O sentimento de desamparo convive, contudo, com a vontade de continuar. Rui Gonçalves ainda não está arrependido do investimento, embora admita que o futuro é incerto. “Temos de continuar a apostar”, assinalou.
Água chega à mesa do ministro
Na inauguração da feira, o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, ouviu o presidente da Câmara Municipal de Vinhais, Luís Fernandes, destacar a importância económica da castanha e os principais desafios que o setor enfrenta. A falta de água esteve no centro das preocupações apresentadas pelo autarca, que defendeu a necessidade de reforçar a capacidade de armazenamento e de criar condições para que os agricultores consigam responder a períodos de maior escassez. Para Luís Fernandes, o problema não é apenas do presente, “no futuro ainda será mais”.
O autarca considerou, por isso, importante que as câmaras municipais e as juntas de freguesia possam candidatar-se a apoios para a construção de charcas, uma possibilidade que não está atualmente acessível nos mesmos moldes previstos para os agricultores.
Na resposta, José Manuel Fernandes afirmou que já foram aprovadas mais de 100 charcas no distrito de Bragança, num total nacional de 333, números que, segundo o ministro, demonstram o peso da região neste tipo de investimento. O governante explicou, contudo, que a Política Agrícola Comum não permite apoiar diretamente a construção de charcas por câmaras municipais ou juntas de freguesia nos mesmos termos previstos para os agricultores. Existem, ainda assim, outros instrumentos financeiros que poderão ser mobilizados, nomeadamente através dos fundos da Política de Coesão, como o programa Norte 2030.
O ministro apontou também para o PTRR, no qual estão previstas mais 400 charcas, defendendo que estas estruturas devem, sempre que possível, assumir uma função multifuncional. Além de servirem a agricultura, poderão contribuir para a proteção civil e para a resposta a incêndios, bem como para a retenção de água em situações extremas. Em determinados contextos, poderão ainda constituir uma reserva para consumo humano, desde que a água seja devidamente tratada.
Questionado ainda sobre a reivindicação de alterar a classificação da castanha, de fruto seco para fruto fresco, José Manuel Fernandes evitou entrar na discussão europeia sobre a designação do produto. Para o governante, a prioridade deve ser “assegurar que a cultura dispõe dos instrumentos necessários para continuar a gerar riqueza e a fixar população”.
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