Cortam-nos as Asas...

Mas não nos tirarão a raiz

05 nov. 2026, 06:30

Eles levam tudo... e não nos deixam voar! A frase vem-me à cabeça sempre que o interior volta a ser notícia pela negativa.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

"Sevenair tem 900 mil euros por receber e volta a reduzir voos na linha regional". Foi com este título que o Jornal Nordeste abriu a sua última edição. Mais uma vez, Bragança-Lisboa com menos ligações, mais uma vez problemas de pagamentos, mais uma vez o interior a pagar a fatura. Já perdemos a conta às suspensões, aos adiamentos, às promessas de ministros. E, não obstante a divulgação recente de um vídeo por parte do Ministro das Infraestruturas a enaltecer e valorizar a carreira aérea, garantindo a coesão, agora surge a notícia de constrangimentos na carreira.

Esta notícia não é só sobre aviões. É sobre um padrão. E quem é de Bragança conhece-o de cor.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Lembro-me, ainda jovem, da desativação do Quartel da Tropa. Uma cidade de fronteira, estratégica, a ver os seus militares partir em retirada para Vila Real e Chaves. Houve manifestações, houve até quem hasteasse a bandeira espanhola de tão grande ser a revolta. Os brigantinos barafustaram, mas, mesmo assim, levaram tudo. Só deixaram as paredes onde hoje funciona a Câmara, porque essas não cabiam nos camiões. Foi a primeira grande amputação de que me lembro. E nunca foi reparada.

Depois veio a Linha do Tua. Assisti, noite dentro, ao aparato para levarem o comboio de Bragança, pela calada, como se fosse contrabando. Um espetáculo triste e desumano para quem, como eu, é brigantino de gema. Foi uma ferida incurável na nossa mobilidade, na nossa autoestima. E lembro-me da coragem de alguns, como Fernando Guilherme, então presidente do NERBA, que ousou contestar e pagou o preço da sua ousadia.

Desde então, o filme repete-se: encerram serviços de saúde, concentram urgências, fecham balcões, esvaziam escolas, tornam os transportes interurbanos numa aventura. Fala-se de inteligência artificial, de transição digital, de fundos europeus para a coesão, mas continuamos sem médicos de família e de especialidade, sem comboio e agora, novamente, sem avião com regularidade.

O problema não é o custo. Nunca foi. Se fosse por custos, que contas faríamos ao despesismo subsidiado do Metro de Lisboa, dos barcos do Tejo, das ligações aéreas para as ilhas, todas justíssimas, mas nunca questionadas? Porque é que o interior tem sempre de provar que dá lucro para ter direito ao básico? A Constituição fala em coesão territorial, mas o que vemos é uma interioridade cada vez mais interiorizada, mais envelhecida, mais sozinha.

As justas reivindicações não são esmola. São direitos. Queremos um IP2 em condições, sem ser estrada da morte. Queremos a ligação ferroviária estudada a sério. Queremos que o Aeródromo de Bragança deixe de ser visto como luxo e passe a ser encarado como o que é: uma porta de emergência, de investimento e de dignidade. Queremos que as Câmaras de Bragança e Vila Real não encolham os ombros, que a CIM, que os deputados, que as forças vivas façam frente comum. Não basta um comunicado de circunstância.

Podem levar-nos os quartéis, o comboio, os voos. Podem continuar a esvaziar-nos, de forma camuflada, com relatórios técnicos que ninguém lê. O que não nos levam é a raiz. A dignidade de quem fica, de quem resiste, de quem ainda acredita que viver aqui não é teimosia, é amor à terra.

Mas que fique claro: a paciência tem limites. E por este andar, como canta o nosso Zé Ferreira, qualquer dia ainda nos levam o Castelo.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Do mesmo autor

As mais lidas