Quebrar os Tremoços... Arrancar os Arbanços

Há um caminho longo entre a terra, a eira e a mesa da taberna, ou do café. Um caminho de água, de tempo, de paciência.

08 set. 2026, 07:30

Há palavras que só nascem na terra. "Quebrar os tremoços"... "Arrancar os arbanços"...
Para muita gente da cidade soam a língua estrangeira. Para nós, são verbos de verão, de madrugada, de costas vergadas. Quem nasceu no meio rural, entre leiras e eiras, sabe. Sabe que colher não é só apanhar. É esperar o ponto certo, é negociar com o sol, é respeitar a vagem que se abre se for apertada.
Os tremoços são filhos do tremoceiro "Lupinus". Dão uma flor linda, roxa, que parece reza no campo. E, depois, dão semente dura, cheia de proteína e fibra, quase sem calorias. Alimento de gente que trabalha, ou usufrui de momentos de descontracção.
Mas ninguém come tremoço direto da planta.
Há um caminho longo entre a terra, a eira e a mesa da taberna, ou do café. Um caminho de água, de tempo, de paciência.
Na minha aldeia, por exemplo, a cura começava na ribeira. Numa saca de serapilheira, deixávamos o grão a correr na água fria e cristalina. Era a ribeira a lavar o amargo.
Hoje já não se pode. A água perdeu a confiança. A poluição levou-nos a perder esse "luxo". Até para curar tremoços em contexto doméstico, o mundo mudou. E para pior.
A sementeira é parecida à do trigo. Joga-se a mão e a semente cai. Mas a colheita... ah, a colheita é outra dança, outra andança.
O tremoceiro não pede muito para crescer. Mas pede respeito para ser colhido. Tem de chegar ao auge do verão com o caule estaladiço,
e a vagem seca, mas ainda fechada. É assim que deve ser para não haver desperdícios.
Se o sol a apanha aberta, perde-se tudo.
Por isso, íamos para a terra, onde os tremoços cresceram, de madrugada. Ainda de noite, com a lua a despedir-se. Eram, sobretudo, mulheres as protagonistas deste trabalho. Com um gesto seco quebravam o caule junto à terra
e faziam gabelas/molhos, como quem faz ramos, sem apertar. Tudo com cuidado. Porque cada vagem que estala no chão é pão que não chega à mesa.
Depois, sobretudo homens, colocavam com muito cuidado as gabelas nos carros de bois, machos/mulas ou burros, ou mesmo no reboque de um trator. Sem apertar muito a corda, para a carga rumar à eira.
Na eira esperava-se a "malha". Que poderia acontecer com malhos, ou com trilhos puxados
por bovinos ou asininos, em cujo estrado de madeira, os miúdos da aldeia até gostavam de andar às voltas por cima dos tremoceiros.
Posteriormente este trabalho era feito com um trator, também voltas, a triturar as plantas secas, separando as vagens dos tremoços.
Fiz esse trabalho com o trator, várias vezes.
Ainda me lembro que a poeira era de tal modo intensa, que até tapava os favos do radiador do trator e o motor aquecia mais que o normal.
O que implicava parar um pouco para refrescar
e limpar o radiador.
Bater, triturar, separar a vagem do grão, era também uma tarefa dura. Tal como, depois, a limpeza fina: engacos, espalhadouras, vassouros de grudos a juntar o que era bom e a deixar de lado o "entulho".
E, então, o momento sagrado: a brisa. Esperava-se o vento.
E com a pá de madeira atirava-se a mistura ao ar. A palha leve ia-se embora num bailado,
e o grão caía, pesado, honesto, no chão da eira.
Trabalho moroso. Trabalho de quem não tem pressa, porque sabe que a pressa estraga a colheita.
Só depois de ensacados e levados para casa,
poderia acontecer, na devida altura, a verdadeira alquimia: cozer de leve, demolhar dias, salmoura. Só depois chegavam ao balcão, no copo, com cerveja. Petisco. Conversa. Vida.
Quanto aos arbanços, o nosso grão-de-bico, era outra cantiga. Arrancavam-se pela raiz, de preferência também de madrugada, com a terra fresca a ceder. Faziam-se molhos e, depois, estendiam-se ao sol para secar e curar.
Só depois iam à malha, a pedir braço e tempo. Também eles nascem de costas. Também eles pedem gente.
Mas o tremoço não serve só para comer. Na minha aldeia, como noutras mais, e ainda hoje em lugares diversos, se semeiam com o objetivo de enterrar as erbeiras. Quando a flor roxa pinta o campo, enterra-se a planta verde.
Era e é adubo. É vida devolvida à terra. Fertilizante natural, sem químicos, sem pressa.
Os antigos já sabiam: a terra dá, mas também se dá à terra.
Por isso, valorizar o tremoço é mais do que comer um petisco na esplanada, ou o arbanço na mesa numa refeição, com variadas utilizações gastronómicas.
É lembrar quem se levantou de noite. É lembrar quem quebrou o caule, quem arrancou a raiz,
quem esperou pelo vento na eira. É ver gente onde outros só veem copo e sal.
Quebrar os tremoços. Arrancar os arbanços. São dois verbos antigos. São dois verbos que pesam nas mãos e que alimentam a alma.
Porque nada que chega à mesa caiu do céu.
Tudo tem dono. Tudo tem história. Tudo tem sol, noite e gente por trás.
Estando consciente que toda esta labuta é desconhecida da maior parte da gente, com particular destaque nos meios urbanos,
seria importante que, quem consome e se delicia com estes produtos, tivesse a mínima noção do trabalho desenvolvido até chegar à mesa, reconhecendo o valor de quem trabalha e alimenta a "cidade".

PUBLICIDADE

Do mesmo autor

As mais lidas