Quando a ponte chora... Porque a água foi embora.
A minha ponte. Românica. De calçada de seixo branco, que faísca com uma lapada.
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Um pavimento raro, destas terras nordestinas, colocado à mão, sem máquinas, pedra a pedra, engenho de gente antiga e paciente. Linda como nenhuma outra. Tantas vezes a calcorreei. Até de socos, de noite, a arrancar faíscas das brochas, como se a ponte me respondesse em estrelas miúdas. Mil vezes a olhei da varanda. Não com olhar vulgar.
Com o olhar de quem contempla algo sobrenatural. Algo que resiste há centenas de anos às ribeiradas, às fúrias, às intempéries sem nome.
Uma ponte assim tem estatuto diferente. Para mim. Para a aldeia. Para quem ali passou a vida inteira a atravessar. Para toda a gente. Muita que a vida e fotografa, frequentemente.
Cresci com ela. E nela. Foi companheira de meninice, de infância, de juventude. Faz parte da minha vida na sua plenitude.
Imóvel. Serena. Nada a faz tremer. Nem os bolhos (troncos velhos) arrastados pelas enxurradas, que tapam os olhais quando a ribeira, zangada, decide contorná-la pelas margens, em dias tormentas ou chuvas anormais.
Mas este verão sinto-a triste. Cabisbaixa. Desanimada. Sozinha, diria.
Até parece zangada com as rãs. Porque, este ano, elas já não cuaxam como dantes, a ecoar pelo burgo com os seus cânticos suaves e harmoniosos, como se entre elas houvesse românticos casos amorosos.
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É a verdade é crua: Pela primeira vez, que me lembre, a água desertou. Por baixo da ponte, nem uma gota passa, onde já muita passou.
E ela pergunta, em silêncio:
- Que faço aqui, se já ninguém precisa de mim?
- Se a ribeira deixou de correr, quem há-de usar a minha calçada, mesmo para lazer?
Algo de confrangedor se apoderou desta ponte, que também chamaria do amor. Pois já muitos casais de namorados e passarinhos encantados, ao seu redor, deram asas ao encanto e afetuoso fervor, sempre com muita vida, entusiasmo, alegria e muita cor.
Já não lavam roupa as mulheres nos lavadouros das suas margens. Já não bebem os animais, nem as crianças ou adultos, de bruços, como antigamente, em que a água fluia alegre, limpa e cristalina, livremente, e não havia poluição, certamente. Parecia vidrada, via-se o leito, olhava-se o seu chão. Nas suas águas correntes, até se lavava o pão.
Já não há peixe nos olhais. Já não armam tenda os ciganos, como ali pernoitavam sem enganos.
Os olmos já não lhe fazem sombra. O linho já não amolece junto aos pilares. O colmo já não ali não se demolha para fazer as bancelhas.
Os miúdos já não tomam banho. Os motores de rega já não dormem à sua sombra.
E o fogueteiro, esse também já partiu, já não escolhe a ponte para lançar a festa ao céu.
Triste sina. Solitária, mas firme. Resistente e resiliente. Ficou adorno histórico para regalo dos olhos, quando antes era caminho, era vida, era ofício de utilidade permanente.
Agora até tem luz à noite. Para ficar mais visível e apelativa em ambiente noturno.
Mas já nem as Bandas de Latos, no Carnaval,
a animam, como quem trata gente de bem.
Minha querida ponte. Minha companheira de vida. Não fiques triste. Não te sintas perdida.
Os tempos mudaram. O tempo também. Dizem ser as alterações climáticas, mas tu não tens culpa da natureza ser tratada com desdém.
Acabaram as regras das hortas. E o ruído dos motores deixou de se ouvir. E sei lá porquê, até as águas do verão te abandonaram e deixaram de vir
Cá virei eu, de vez em quando, para matar saudades. Minhas e tuas. E outros, poucos, mais, também não te esquecerão, no bater do coração.
Nós vamos morrer. Mas tu, mesmo sem água, mesmo sem a utilidade de outrora, não morrerás, por agora. Ficarás para a vida e para a história da vida cumprida.
E aqui ficas tranquila, uns dias triste, outros com entusiasmo e alegria. Mas daqui ninguém te leva, como já levaram muita coisa da nossa terra. És monumento classificado e não podes ir para outro lado. E assim te devem tratar, sem que o teu esqueleto fique sujo e danificado.
Estaremos juntos enquanto eu por cá andar.
Venho-te visitar, olhar, sentir e amar, para sempre de ambos me recordar.
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