“Deixaram arder”: revolta em Vilarinho da Castanheira após incêndio que destruiu milhares de hectares

Populares acusam a Proteção Civil de falta de coordenação e reclamam medidas compensatórias pelos prejuízos provocados pelo fogo, que terá atingido cerca de cinco mil hectares. Já circula um abaixo-assinado online que reúne quase 400 assinaturas.

25 ago. 2026, 08:30

A população de Vilarinho da Castanheira e de Pinhal do Douro, no concelho de Carrazeda de Ansiães, está revoltada com a forma como foi conduzido o combate ao incêndio que atingiu a freguesia entre 15 e 19 de agosto. O fogo teve início em Torre de Moncorvo, mas acabou por alastrar ao concelho vizinho, deixando um rasto de destruição que, segundo os populares, atingiu cerca de cinco mil hectares.

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Perante o cenário de destruição, está a decorrer uma petição online para exigir esclarecimentos às entidades responsáveis pelo combate ao incêndio e reclamar medidas de apoio e compensação pelos prejuízos causados.

O porta-voz da iniciativa, Pedro Correia, acusa a Proteção Civil, nomeadamente o Comando Sub-Regional do Douro, de falta de coordenação e de desconhecimento do território.

“Assistimos a uma falta de coordenação por parte da Proteção Civil do Comando Sub-Regional do Douro e estamos revoltados e indignados com tudo o que foi feito”, afirma. O objetivo, acrescenta, é conseguir “medidas compensatórias não só para os agricultores, mas para a freguesia”, que, na sua perspetiva, “perdeu tudo”.

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Entre as principais críticas está precisamente a alegada falta de conhecimento das características do terreno. Pedro Correia garante que, numa primeira fase do incêndio, existiam acessos que permitiam uma intervenção mais eficaz e considera que a frente que acabou por atingir Vilarinho da Castanheira e Pinhal do Douro foi abandonada.

O porta-voz da iniciativa diz ter alertado pessoalmente a sala de comando para a necessidade de proteger os moinhos de água, que considera uma das principais riquezas patrimoniais da região. “A sugestão que eu dei para fazerem um corta-fogo depois da zona dos moinhos foi ignorada”, relata.

A população contesta também a forma como os meios operacionais foram utilizados. Pedro Correia afirma ter encontrado viaturas paradas enquanto o fogo permanecia ativo e conta que, num dos momentos, tentou encaminhar um autotanque para uma das zonas ameaçadas. “O bombeiro disse-me que não podia porque vinham em coluna e estavam a aguardar missão”, recorda.

Para os populares, esta situação demonstra uma falha na estratégia de combate. “O fogo ativo e estarem parados na estrada a aguardar missão e não poderem combater a frente que destruiu tudo, isto é revoltante”, considera.

Outra das reivindicações passa por uma maior participação das populações locais no combate aos incêndios. Os habitantes defendem que o conhecimento do território poderia ter sido utilizado para orientar os operacionais, indicar acessos e identificar zonas estratégicas.

“Os populares têm que ser fundamentais no combate ao incêndio”, defende Pedro Correia, que acusa as autoridades de terem mantido os habitantes afastados das zonas de fogo. “Eles não acreditaram que nós conhecíamos o terreno. A estratégia deles foi manter-nos longe do incêndio. Isso não pode ser.”

Agricultura destruída e prejuízos para os próximos anos

Os efeitos do incêndio não se limitam às áreas ardidas. A população alerta para perdas agrícolas que vão prolongar-se durante anos, sobretudo devido à destruição de olivais e sobreiros.

Pedro Correia explica que a cortiça queimada não poderá ser retirada já este ano e que será necessário esperar “mais dois ou três anos”, seguindo-se depois um novo período de crescimento até que seja possível voltar a explorar a cortiça. Alguns sobreiros, admite, poderão nunca recuperar.

Também as oliveiras centenárias foram severamente atingidas. “São património”, sublinha, considerando impossível calcular o valor económico de árvores que representam o trabalho acumulado de várias gerações.

O próprio porta-voz estima ter perdido cerca de 100 oliveiras, mas considera-se “dos menos afetados” perante a dimensão dos prejuízos de outros agricultores.

O incêndio está igualmente a ter consequências no turismo. Pedro Correia, que é proprietário de um alojamento local, revela que já recebeu o cancelamento de uma reserva prevista para outubro, depois de o visitante ter manifestado não querer deslocar-se para uma zona queimada. “Para já, com as reservas que foram canceladas, foram 4000 euros”, afirma.

“As ovelhas não vão comer carvão”

Pedro Moutinho, agricultor e habitante de Vilarinho da Castanheira, destaca também os efeitos sobre a atividade pecuária. A destruição das pastagens deixou os produtores sem alimento para os animais.

“Eles não têm alimento. Esperamos apoio, das Câmara e do Poder Central”, afirma.

O agricultor estima que entre 85 e 90% do território da freguesia tenha sido atingido pelas chamas. “As ovelhas não vão comer carvão”, lamenta, referindo-se à perda das pastagens.

Para Pedro Moutinho, a estratégia de proteger prioritariamente as habitações não pode ignorar as famílias que dependem da agricultura para sobreviver. “Nós não vivemos só das casas. Há famílias que vivem só da agricultura. Ao perderem tudo, o que é que eles vão fazer?”, questiona.

O habitante considera igualmente revoltante que os populares tenham sido impedidos de chegar a determinadas zonas para proteger os próprios bens. Ainda assim, muitos acabaram por atuar por iniciativa própria, utilizando os meios que tinham disponíveis.

Populares combateram com tratores e motores de rega

Daniel Vieira, popular e agricultor, descreve dias e noites de combate em que, segundo afirma, a população teve de assumir um papel ativo na defesa dos seus terrenos.

“O combate foi duro porque não tínhamos ajuda. Solicitávamos apoio e não vinha nada”, conta.

Perante a ausência de meios suficientes, os habitantes recorreram a “carrinhos com água, motores de rega e tratores”, segundo o agricultor. “Toda a noite tratores a lavrar, a tentar proteger antes de chegarem as chamas. Foi assim”, relata.

Daniel Vieira afirma ainda que os populares chegaram a ser perseguidos pelas equipas de emergência quando tentavam regressar às zonas ameaçadas. “A gente fugia como moradores para defender aquilo que é nosso”, descreve.

Petição pretende obrigar entidades a dar respostas

A petição que está a decorrer online pretende dar voz à revolta da população e pressionar as entidades responsáveis a esclarecerem as decisões tomadas durante o incêndio. Os promotores reclamam igualmente apoios concretos para agricultores, produtores pecuários e para a própria freguesia, tendo em conta a destruição do património agrícola, paisagístico e turístico.

Para Pedro Correia, é necessário repensar a estratégia nacional de combate aos incêndios. “Esta estratégia de não morrerem pessoas e deixar arder não funciona”, afirma, defendendo que a experiência vivida em Vilarinho da Castanheira deve servir para alterar procedimentos no futuro.

“Não vamos baixar os braços. Isto não fica assim”, garante o porta-voz.

A petição conta já com quase 400 assinaturas.