Desportivamente falando...

Sementes antes dos troféus

12 ago. 2026, 13:00

O futuro de um clube não se joga ao domingo, ou no dia do desafio para cumprir o calendário competitivo oficial. Semeia-se às terças, às quintas, ou noutros dias, debaixo de chuva, ao vento, ao sol, num campo vazio, com 10 miúdos e um treinador cansado e, por vezes, mal preparado até no que toca à formação pedagógica.

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A qualquer nível, em qualquer setor, é na formação que assenta a sustentabilidade.

No desporto isso é lei. Escrita, mas que deve ser lida, cumprida e nunca esquecida.

Escrever sobre formação é pisar terreno minado. Porque é nela que assenta a maior parte dos subsídios institucionais. Os das câmaras, os das federações.

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Dinheiro público que devia virar relva, bolas e sonhos. Mas que nem sempre é devidamente supervisionado com os olhos que mereceria.

Mesmo que nenhum miúdo venha a ser campeão, investir na formação devia ser a primeira linha do orçamento de qualquer coletividade. Sobretudo nos tempos que correm.

Vivemos num período em que os valores éticos, sociais e morais andam um pouco ao sabor do vento. Em que, tantas vezes, a saúde se trata em comprimidos e não em movimento.

E é aqui que o desporto entra como remédio antigo e eficaz.

A prática desportiva regular, desde cedo, não forma só atletas. Forma gente. Na adolescência e na juventude, o corpo cresce e a alma escolhe caminhos.

E o desporto, bem orientado, dá-lhe bússola: disciplina, respeito, trabalho de equipa, queda e levantar.

Os efeitos não ficam no campo. Espalham-se.

Atravessam a vida como rio que rega tudo.

Infelizmente, hoje em dia, um considerável número de coletividades viraram as costas às idades de crescimento. Há desleixo. Há pressa. Há míopia.

E há uma certa política de subsídios que premiará mais a camisola sénior do que a escola de formação. Conta-se o resultado. Não se contam os miúdos.

Basta olhar: quantos clubes se apresentam a competir com seniores sem nunca terem formado um único atleta? Sem nunca terem plantado uma única semente?

Assim sendo, algo estará podre na estrutura.

Esteve no passado. E continuará no futuro, se ninguém ousar podar.

As câmaras municipais têm aqui uma responsabilidade enorme. As associações também.

Apresentar uma equipa sénior devia vir com uma condição à porta: Mostrar o que cada clube faz no domínio da formação.

Os subsídios deviam depender disso. Dos projetos reais. Dos números reais. Não do golo de domingo.

Na nossa região, a situação deixa muito a desejar. Haverá projetos/escolas de formação que só existem no papel. Cumprem formalidades para justificar processos.

O departamento de formação é o parente "pobre". O primo que aparece nas fotos, mas não come à mesa. A única urgência é ter 11 em campo à hora do jogo. Ganhe-se ou perca-se. O resto logo se vê.

Um clube só tem futuro se investir primeiro na terra. Em material, em técnicos, em logística, em gente. Mas tudo isso tem de recair primeiro na formação.

Sem formação não há clube. Há montra. Sem jovens não há história. Há só o eco de um resultado.

E o desporto, esse, merece mais do que palmas de um dia. Merece raízes.

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