Quando a terra brota no meio do betão...

As Hortas do Politécnico. E outras hortas...

06 ago. 2026, 04:00

Falar de hortas para quem é oriundo do meio rural é falar de casa. É falar de cheiro a terra molhada, de mãos calejadas e de tempo que cura.

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Ter uma horta e cultivá-la a jeito, com entrega, carinho e dedicação, é terapia a preceito. É onde o coração sossega, onde o afeto brota e onde a alma faz compostagem das angústias.

A identidade com a “sua” horta é mais do que canteiros. É pertença. É refúgio. É ginásio para o corpo e bálsamo para o espírito. É ver crescer o que se planta e colher do próprio suor o pão que alimenta corpo e alma. E ainda sobra para pôr na mesa com independência e orgulho.

Ora, se no meio rural esta ligação é quase tão natural como respirar, no meio urbano ela torna-se ainda mais preciosa. Porque ali, entre o betão e a pressa, um pedaço de terra é um milagre. É um bálsamo para o sossego.

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Foi assim que nasceram as hortas comunitárias. Pequenos retalhos de terra onde cabem alfaces, tomates, couves, espinafres, alhos, cenouras, batatas, plantas medicinais e aromáticas. Podem seguir a cartilha da agricultura biológica ou não. O que importa é que ali se semeia/planta mais do que legumes.

Semeia-se convívio. Semeia-se troca de saberes, de sementes e de receitas. Semeia-se comunidade.

E nesse ponto, o valor económico junta-se ao valor humano e cria um bem ímpar no coração das cidades.

Na cidade de Bragança, esse milagre tem morada e nome: "as Hortas do Politécnico".

O terreno foi cedido pelo Instituto Politécnico. E foi um gesto bonito. Porque esta casa do Ensino Superior, reconhecida a nível nacional e internacional pela ciência e pela academia, ganhou também um novo cartão de visita: o verde das hortas, para além dos lameiros, nas margens do Fervença.

As hortas do Politécnico brigantino tornaram-se uma “maravilha”. Para os seus "donos", que tratam cada canteiro como filho. E para os olhos de quem passa na ciclovia ou de carro, e vê ali a vida a pulsar da vida agrícola, em pleno meio urbano.

Pessoalmente, gosto imenso de presenciar essa dinâmica. Ver a terra revirada, a água a correr para regar, e até os ensaios da Escola Superior Agrária a acontecerem ali mesmo. É ciência com as mãos na terra.

E faz todo o sentido. A maior parte da estrutura do Politécnico assenta numa antiga quinta agrícola: a "Quinta de Santa Apolónia". O passado rural abraçou o presente urbano e deu frutos.

Ora, se este é um exemplo para valorizar, porque há tantos outros espaços públicos adormecidos?

Terrenos ao abandono, cobertos de erva seca e mato, que só gastam recursos a limpar e não dão nada em troca.

Poderiam ser hortas. Poderiam alimentar famílias. Poderiam ser escolas ao ar livre.

Penso logo na antiga Quinta da Tereijinha, a que, indevidamente, chamam de Trajinha, agora propriedade da Câmara Municipal.

Penso na Quinta do Antigo Albergue, onde funciona um Departamento de Psiquiatria da ULSNE.

São dois pulmões verdes na envolvência urbana. Com água. Com sol. Com potencial para criar dezenas de hortas.

Ou então, que se lhes dê outro destino útil. Porque abandonados/improdutivos, não servem ninguém. E eu falo com conhecimento de causa. Nos meus tempos de estudante calcorreei aqueles hectares. Até os lavrei, várias vezes e sei da qualidade e capacidade da terra.

Se é justo exigir que os particulares limpem e cultivem os seus terrenos, as instituições públicas têm a obrigação maior: dar o exemplo.

Porque uma cidade que cultiva, é uma cidade que cuida. E um país a necessitar de rentabilizar o que é público, não deve deixar património ao "abandono", sem rentabilidade.

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