Migrantes que partem... Migrantes que voltam e voltam...

19 ago. 2026, 05:00

Portugal foi, e infelizmente continua a ser, um país a diversas velocidades.
Um país com costas largas para o mar e costas esquecidas para o interior.
Num país pequeno como o nosso, não devia haver filhos de primeira e filhos de segunda. Devia haver equidade. Devia haver ponte.
Mas os números não mentem.
Desde 1981, Trás-os-Montes perdeu quase 1 em cada 4 habitantes. Bragança envelhece mais depressa do que as oliveiras.
As concentrações no litoral, sobretudo Lisboa e Porto, onde vivem hoje "mais de 120 mil transmontanos", sugam como íman.
E ficamos nós, o interior nordestino, agora a nem sequer ver o comboio passar e a levar gente. Porque esse também se foi, há muito tempo, mas não voltou. Um "migrante" sem regresso.
Depois de um, de extinção, "ditator processo".
Por este e muitos outros exemplos "extrativos", somos uma região maltratada ao longo da história.
Entre 2011 e 2021, só do distrito de Bragança, partiram mais de 15 mil pessoas para fora do nosso território.
O que leva muitos daqueles que aqui nasceram a procurar outra solução. Para não serem votados à paciência, à resiliência e à resignação.
Com efeito, pelas dificuldades de empregabilidade, foram muitos os que rumaram.
Foram "obrigados" a serem "emigrantes" no seu próprio país natal.
Atravessaram a ponte de pedra sobre a ribeira e não olharam para trás. Deixaram a água a correr sozinha e a casa com a porta entreaberta.
É óbvio que, também, há os que partiram por decisão própria, "voluntária", diria. À procura de sucesso, de escola, de mundo. E muitos conseguiram lugares de vanguarda. Sem dúvida.
Levantaram edifícios, curaram, ensinaram, trabalharam. Orgulho.
Porém, há um sentimento que quase ninguém perde: O amor à terra que os viu nascer e crescer.
A identidade que moldou o ser, como a água molda a pedra da ribeira.
Chega o verão. Chegam as festas da aldeia.
Chega o cheiro a sardinha assada, o baile na praça e o fogo de artifício.
E eles vêm. Vêm matar as saudades, de alma e coração.
Em agosto, muitas aldeias triplicam de gente. Trazem os filhos que já falam diferente e os netos que perguntam "isto é Portugal a sério?". E a aldeia volta a ter vida. Volta a ter futuro, ainda que por 15 dias.
A sua presença deve ser saudada, valorizada.
Humaniza os nossos burgos. Dá cor ao meio rural. Se os emigrantes são importantes para o dinamismo local, os migrantes internos também.
Movimentam a economia, enchem cafés, pintam portas.
E, depois, há os que voltam de vez. Desde 2015, o interior tem tido saldo migratório positivo, puxado por reformados.
Regressam às origens para aqui se fixarem. Para a tranquilidade, para a horta, para o silêncio bom. Investem na habitação, na agricultura, numa loja, numa ideia.
Trazem na mala a experiência de outros mundos socioprofissionais.
E isso, numa comunidade cada vez mais envelhecida, é ouro.
Acolher estes regressos de forma tranquila, com reinclusão confortável e ativa,
é, pois, para o nosso Nordeste, cada vez mais desertificado, uma mais-valia. É como voltar a pôr água na ribeira que estava seca.
Se sempre fomos acolhedores disponíveis e ativos, também quantos nos vêm visitar, ou aqui definitivamente permanecer, merecem ser motivados para aqui vir, voltar e ficar. Porque a ponte não serve só para partir.
Serve também para voltar. E a aldeia, quando tem festa, tem que ter gente para dançar, para promover a proximidade, matando a saudade, interagir alegremente e potenciar o convívio saudavelmente.

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