O pão tem costas

Importa valorizar o PÃO que nos chega à mesa. Para além do trabalho e das canseiras que a colheita implica, que muitos desconhecem e outros esquecem.

03 set. 2026, 08:00

Talvez por ter nascido e crescido entre leiras, eiras e silêncios, tenho pelo campo, pela vida rural, uma atenção que não se explica, sente-se, de forma emergente e sentimental. É uma interatividade antiga. É respeito. É memória no corpo.
Também por isso, admiro, sobretudo, os jovens que hoje ousam voltar ou ficar na terra. Os que levam a peito o risco de semear quando ninguém garante a colheita. Os que escolhem a enxada num tempo que só fala de ecrãs.
Porque a agricultura não é só produção. É vigília. É reza sem palavras ao amanhecer. É olhar para o céu e negociar com as nuvens. É aceitar que o trabalho é exigente, o risco é permanente, e que a terra responde, mas não promete.
Os agricultores são, para mim, referências maiores. Não só pela labuta que põe comida na mesa, mas pela inegável contribuição para a sustentabilidade ambiental. Acabam por ser os verdadeiros jardineiros da natureza.
Apararam as encostas, travaram a erosão, deram forma à paisagem que hoje vendemos como turismo e contamos como cultura tradicional.
E, contudo, nem sempre a sua atividade é tida em conta desta forma. Raramente se valoriza o fruto que o seu labor transforma. Come-se o pão, bebe-se o vinho, usa-se o azeite, mas esquece-se a canseira que vem antes.
Por isso entendo que toda a gente deveria saber quanto custa produzir o pão, as batatas, o azeite, o vinho e todos os demais produtos que nascem da terra.
Deveria saber quanto pesa um dia de sol na cabeça, quanto arde uma geada na madrugada, quanto vale uma chuva a tempo.
Escrevo sobre o meio rural porque ele me chegou primeiro. Chegou-me em cheiro, em calo, em história contada à lareira. E as reações não me deixam mentir. Chegam-me comentários, mensagens, recordações.
Confesso, com algum orgulho não pecador, que isso me deixa satisfeito e motivado. Nalguns casos o assunto até fica mais esclarecido, mais completo.
Foi assim com um texto anterior sobre as Segadas.
A izedense da diáspora, Deolinda Remondes, deixou-me este comentário na minha página do Facebook: “Desde épocas imemoriais que o pão é o alimento sempre presente nas mesas de todos os povos. Talvez seja o alimento com mais ancestralidade. Creio que os egípcios já o utilizavam há mais ou menos 4000 anos A.C.
As segadas fazem parte das recordações da minha infância. Assistia, com grande interesse, à faina da ceifa e via, embora não avaliasse, o trabalho árduo de todos.
O que me fazia mais confusão era o trabalho dos malhadores, que batiam no cereal com malhos, paus articulados com tiras de cabedal.
Admirava-os porque exigia muita força e muito tempo.
Depois vinha a limpa. E o vento tinha um papel sagrado: o cereal já malhado, separada a palha do grão, era passado em crivos e as cascas mais leves o vento levava num bailado muito bonito. Mais tarde apareceram as debulhadoras, as malhadeiras, que facilitaram a vida. Para mim, era uma festa assistir a tudo isto, sem avaliar ainda quanto custava ter na mesa o alimento essencial: o 'Pão-nosso de cada dia'.
Importa, pois, valorizar o PÃO que nos chega à mesa. Para além do trabalho e das canseiras que a colheita implica, que muitos desconhecem e outros esquecem, devemos ter em conta a quantidade que tantas vezes desperdiçamos, ao mesmo tempo que milhões de seres humanos nem uma migalha têm para se alimentarem.”
O comentário da Deolinda é um sermão sem púlpito. É a eira a falar. É o vento a ensinar.
O pão não nasce na prateleira. Nasce na costa de quem semeia, de quem ceifa, de quem malha, de quem amassa. Tem costas. Tem história. Tem sol e tem noite. E tem, também, símbolo.
É "Pão-nosso de cada dia". É partilha. É comunidade. É o que nos iguala à mesa e nos lembra que nada é garantido.
Com efeito, valorizar o pão é mais do que não desperdiçar. É reconhecer quem o faz nascer.
É olhar para o campo e ver gente, não cenário.
É perceber que semeadores também sustentam cidades. Que semeadores também seguram o clima, a água, a paisagem. Se o mundo esquece, nós lembramos. Se o tempo apressa, nós abrandamos na eira. Porque há coisas que não se medem em produtividade.
Medem-se em dignidade. E o pão, esse, mede-se nas costas de quem o trouxe até nós.

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