O último fumo do Outono... O pote a chorar aguardente

Na minha infância ainda havia o aguardenteiro. Era uma figura quase mítica.

01 out. 2026, 08:30

Há cheiros que não se apagam. Por mais que a vida nos leve para a cidade, para o ruído, para a pressa dos dias de hoje, há memórias que ficam entranhadas na roupa da alma. O cheiro a fumo de lenha húmida, o vapor quente do bagaço a ferver e aquele primeiro pingo cristalino a cair no funil ou no embude, após passar pela espiga de centeio, em direção ao cântaro ou garrafão forrado, artesanalmente, a verga, são uma delas. Por vezes, há, ainda, um paninho de linho branco pelo caminho.

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Quem viveu a terra de dentro, com as mãos, com o corpo inteiro, com aquela ligação umbilical que só quem nasceu no meio rural entende, sabe do que falo. Eu sei. Tendo crescido numa casa onde a agricultura era o pão de todos os dias, participei em tudo o que havia para fazer. Algumas tarefas custavam, outras sabiam a festa. E entre as que me deixaram a marca mais doce, estão as vindimas, o pisar do mosto na lagareta como lhe chamávamos na aldeia, o lavar das pipas e, claro, o fazer da aguardente. Era o último ritual do tempo quente. O fecho de um ciclo.

Adorava o dia de fazer a aguardente e o borralho onde se assavam as batatas, rachadas, com sal por dentro, ou mesmo ovos protegidos pela cinza. Verdadeiros petiscos, que só quem experimenta e aprecia reconhece.

Na minha primeira infância ainda havia o aguardenteiro. Era uma figura quase mítica. Um homem que andava de porta em porta, com os seus potes de cobre, já negros de tanto uso, e que era chamado para fazer o serviço. Não era dono de nada, mas sabia tudo. Com o tempo, as coisas mudaram e quase todas as casas passaram a ter o seu próprio pote, ainda que partilhado entre vizinhos e compadres, como era costume.

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O ritual começava muito antes de acender o lume. Primeiro, era preciso ir ao lagar buscar o bagaço. Depois, construir ou compor a fornalha. Tinha de ser num canto abrigado, onde o vento não atrapalhasse e onde fosse fácil carregar e descarregar todo o peso. E carregar o pote era uma arte. No fundo, bem espalhada, levava uma camada de palha de centeio ou de colmo para o bagaço não se pegar ao cobre. Era o segredo. Quando se pegava, e acontecia muitas vezes, era uma desgraça. Uma trabalheira dobrada para limpar tudo.

Depois vinha o grande lume. Forte, vivo, para pôr o pote a ferver a sério. O sinal de que estava pronto era inconfundível: a grande rolha de cortiça saltava da boca com um estouro seco. Era a deixa. Colocava-se a cabeça, o capacete de cobre, e selava-se a união com massa de farinha e água para nem um sopro de vapor se perder. Em cima, a caldeira com água fria para condensar. E na ponta do tubo de saída, o pormenor que eu nunca esqueci: uma pequena palhinha de centeio, como um filtro, por onde iria correr, a pingar, a aguardente quente e transparente.

Quando o primeiro fio começava a cair, fazia-se silêncio. Era a prova. O dono da casa chegava o copinho, provava, e todos à volta provavam também. E invariavelmente, vinha a frase sacramental, com um sorriso: "Que boa está!".

Daí para a frente era manter. Manter a chama certa, sem altos e baixos, para a fervura ser constante e o pote não bufar de raiva. A qualidade da aguardente media-se na boca, mas também no fogo. Um pouco de aguardente deitada na brasa e a cor da labareda dizia tudo.

E era aí, nesse compasso de espera quente, que a magia acontecia. As pessoas chegavam. Sentavam-se em bancos improvisados, em pedras, em tudo o que servisse. Começavam os petiscos assados no borralho da própria fornalha: batatas a estalar, ovos, pão com nozes, marmelos, peras, um frango que aparecia. Comia-se, bebia-se, contavam-se histórias. O pote, ali no meio, a chorar devagar, parecia um altar e todos à volta, a adorá-lo, em convívio são, numa partilha que hoje quase já não existe.

No fim, todos ajudavam a descarregar. E ficava o cheiro no ar, e ficava a casa abastecida, e ficava a memória.

Eram outros tempos, sim. Mas que boa memória que fica.

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