Património do Estado abandonado... Recuperar para servir as pessoas

Comprar casa tornou-se uma miragem.

28 out. 2026, 14:30

Falta habitação em Portugal. Não é uma perceção, é uma evidência dramática que condiciona a vida de milhares de famílias e hipoteca o futuro dos nossos jovens.

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Comprar casa tornou-se uma miragem. Arrendar, um luxo insuportável. Os salários, magros e estagnados, não acompanham a escalada vertiginosa dos preços. O resultado está à vista: jovens com trinta anos obrigados a viver em casa dos pais, casais adiando projetos de vida, famílias a esmagarem o orçamento só para terem um teto. As políticas públicas para a primeira habitação são manifestamente insuficientes e desfasadas da realidade dos rendimentos.

E é neste contexto de carência gritante que se torna escandaloso, revoltante até, constatar a outra face da moeda: o Estado é um dos maiores senhorios do país e, paradoxalmente, um dos piores gestores do seu próprio património.

Milhares de imóveis públicos estão devolutos, fechados, a ruir lentamente, dia após dia, de norte a sul do país. É um desperdício criminoso e uma ofensa para quem não tem onde viver.

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Falamos de um património imenso e diversificado: antigas Casas dos Cantoneiros, Casas dos Guardas Florestais, escolas primárias desativadas, postos da GNR, edifícios de serviços centrais e autárquicos. Imóveis que foram construídos com o dinheiro de todos nós e que hoje estão votados ao mais completo abandono, transformados em ruínas inúteis, por vezes antros de degradação.

E não precisamos de ir longe para encontrar um exemplo paradigmático desta incúria. Está mesmo às portas de Bragança, à vista de todos.

Refiro-me à antiga Casa dos Cantoneiros, na estrada nacional, tão bem conhecida de todos os brigantinos. Há anos, demasiados anos, que aquele edifício sólido, com terreno envolvente, permanece de portas e janelas cerradas, a degradar-se de forma deplorável. É uma imagem que corta o coração e envergonha quem por ali passa.

Quantas vezes já todos nos interrogámos: não haveria ali lugar para duas ou três famílias viverem com dignidade? Não poderia ser convertida numa residência para estudantes, tão carenciada em Bragança? Num centro de apoio social? Num qualquer serviço de utilidade pública?

A pergunta impõe-se: onde está o responsável pelo património do Estado com coragem, visão e sensibilidade para travar este delapidar de recursos? Onde está a vontade política para fazer um levantamento exaustivo, definir prioridades e avançar com programas de recuperação?

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Não podemos continuar a aceitar esta inércia. Um país que se debate com uma crise habitacional tão profunda não se pode dar ao luxo de manter milhares de casas fechadas a apodrecer. Recuperar este património não é uma despesa, é um investimento com retorno social, económico e humano incalculável.

Haja quem lhe valha. Haja quem tenha a coragem de transformar ruínas em lares.

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