O que não se vê quando se vai ver arte

Centro de Arte Contemporânea Graça Morais

22 out. 2026, 13:00

Quem entra no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais vai, naturalmente, para ver arte. Vai ver a nossa Graça Morais, de Vieiro, Vila Flor, referência maior da pintura em Portugal e no mundo.

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E faz muito bem. Mas arrisca-se a passar ao lado de outra obra de arte: o próprio edifício.

Ali, bem no centro da cidade, na zona histórica, na Rua Abílio Beça, na mesma rua do Museu do Abade de Baçal, dentro de um contexto urbano em que a história e a cidade falam por si, está um solar setecentista, o Solar dos Veiga Cabral, conhecido como Solar dos Vargas. Imponente, de paredes grossas e de estrutura sólida. Singular construção do género na cidade.

A partir de 1947 funcionou ali, durante quase meio século, a agência do Banco de Portugal. Foi adaptado para resistir, para guardar o vil metal e a gente. Ainda hoje, quem repara nas espessuras e na solidez, percebe isso. Com o fim da atividade do Banco na capital nordestina, impunha-se dar uma utilização digna ao histórico e imponente edifício.

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Em 2001 a Câmara adquiriu-o e entregou-o ao génio de Eduardo Souto de Moura, Prémio Pritzker. Inaugurado em 2008, o Centro é uma lição de como se preserva. Souto de Moura não demoliu. Dialogou. Manteve a fachada nobre e acrescentou um volume novo, branco e luminoso, em perfeita sintonia com o velho solar.

Fez muito bem quem o mandou preservar. Está bem cuidado, como seria de esperar. Mas será que está bem contado?

Numa próxima visita, para além das telas, antes de entrar, olhem para a fachada principal: desde o beiral, às varandas e às janelas de guilhotina, com as imponentes grades de segurança, também elas uma obra de arte em ferro. E, como é óbvio, ao entrar, não passará despercebida a robusta e majestosa porta principal.

Já no interior, as portas e os postigos merecem um olhar delicado. Podem até passar despercebidos, mas têm muito de particular e histórias para contar. Os postigos, em particular, são singularmente lindos e funcionais. De noite fecham-se, de dia deixam entrar a luz. É com as portas fechadas que a sua função exerce mais autonomia.

Olhem para os tetos, com toda a sua simbologia. Para a luz, para o jardim.

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O edifício não é só um contentor de arte. É, ele próprio, arte e história. De solar nobre a cofre do Estado, a casa da nossa maior pintora.

Falta-nos, talvez, uma pequena memória descritiva à entrada. Uma placa que conte esta história. Preservar é muito bom. Explicar o que se preservou é ainda melhor.

De referir ainda que os visitantes têm ao seu dispor um aprazível espaço de cafetaria, com um serviço de acordo com o contexto, e que passar uns momentos de relaxamento no acolhedor jardim, para ler ou conversar, será também uma boa opção.

Tudo isto sob a direção do dedicado António Meireles, sem esquecer a simpatia e cordialidade que se respira na receção.

Por último, terá lugar no próximo dia 22 deste mês de outubro, às 18h00, a abertura da exposição "Graça Morais - Doações ao CACGM". Mais uma a não perder.

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