Da eira para a sementeira

Estamos no Outono. O verão fechou o seu livro dourado

14 out. 2026, 13:00

A época das ceifas e das malhas, com aquele rumor de suor e de cantigas, já ficou para trás, guardada na palha dos palheiros. Agora vem o outro tempo, o tempo sagrado de semear para colher. É o ciclo que recomeça, humilde e eterno.

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O trigo, nosso pão loiro, o centeio dos montes que resiste à geada, a aveia que estremece ao vento, a cevada de barbas finas e o serôdio, esse cereal quase nobre, mais fino, mais delicado, que antigamente as nossas avós guardavam com ciúme para os bolos de festa e para os folares da Páscoa, ficará para mais tarde. Cada semente tem a sua hora, como cada coração tem o seu tempo.

Mas, para que a sementeira seja a preceito, para que a terra dê o seu milagre, é preciso prepará-la com respeito e escolher o grão com arte. Uma série de requisitos antigos, para que o investimento na terra dê rendimento e não se torne tormento. Porque a terra não engana: dá-nos na medida do que lhe damos.

Embora hoje quase tudo seja feito ao ronco da máquina, antigamente era uma liturgia diferente, lenta, feita de braços e de fé.

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A preparação começava logo na Primavera, quando os lameiros ainda cheiravam a água fresca. Chamava-se a decrua, a primeira lavoura dos terrenos que tinham estado em pousio, a descansar como quem dorme. Com essa primeira mexida, a terra ficava como que a marinar, a ganhar sabor, a abrir os poros ao céu.

Vinha, uns meses depois, a vima. Voltar a lavrar, tornar a ferir o chão com carinho, para a terra ficar mais fofa, mais solta, como uma cama bem feita. Trabalhada, remexida, pronta para receber, como mãe generosa, as sementes e o adubo, quando o havia, ou o estrume curtido, para quem podia.

Chegado o grande dia da sementeira propriamente dita, a terra era dividida em embelgas, tiras de onze passos de largura, contados a pé, sensivelmente. A medida exata para que o lavrador, de saco de linhagem ao ombro esquerdo, com cerca de um alqueire de grão a pesar-lhe como ouro, pudesse alcançar com o lançamento largo da mão direita. Era uma arte, uma arte bonita de ver: o gesto ritmado, o punho que se abria e o grão que voava em leque, como uma chuva de promessas.

Depois, só depois, vinha a lavoura final para enterrar o cereal, aconchegando-o no seio da terra, juntamente com o adubo ou o estrume, como quem tapa um filho com uma manta.

Se o grão era medido em alqueires, com aquela rasa de madeira tão bem aferida, que perfazia onze quilos de semente, ou em razões, uma rasa maior e mais generosa, as terras eram, pois, divididas em embelgas. Tudo tinha a sua medida e a sua poesia.

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Mas a maior preocupação, o cuidado maior, era a escolha do grão destinado à semeadura. E essa escolha começava logo ali, na eira, no próprio dia da malha, no meio da poeira dourada. Escolhia-se o mais graúdo, o mais limpo, de uma colheita que tivesse menos impurezas, menos ervas daninhas, menos mentiras à mistura.

Colocado à parte, como se fosse gente escolhida, esse cereal era depois limpo de todas as intrusas, das sementes de rabão, como lhe chamavam na nossa terra, aquela sementinha mais pequena que tinha um pequeno rabo e queria passar por trigo sem o ser.

E como nem toda a gente tinha limpadeiras, aquelas pequenas máquinas rudimentares puxadas à manivela, com um rangido cansado, muitos agricultores optavam por "acrivar" o grão. Era tarefa sobretudo de mulheres, de mãos calejadas e paciência infinita, com crivos adequados, ao sol, a peneirar o futuro, tentando retirar todas as impurezas possíveis. Que mãos santas!

As sementes, após a limpa, eram depois metidas em sacas de serapilheira áspera ou em sacos de linho alvo, para seguirem para o campo, mas não sem antes serem desinfetadas com um produto próprio, meio azulado, se bem me lembro, como se fossem batizadas para a nova vida.

Só depois destas andanças todas, desta romaria da eira para a sementeira, é que o percurso do cereal ficava pronto, restando ao homem entregar-se à espera e a Deus, aguardando que nascesse o melhor possível, verde e forte, ao primeiro orvalho.

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Sumariamente, era assim o trabalho da nossa gente, antigamente. Simples e grande.

Mas não se pode esquecer a merenda. Ah, a merenda! Quase sempre bem acondicionada em cestas, verdadeiras obras de arte da cestaria artesanal, de verga entrançada, que cheiravam a campo. Ainda guardo religiosamente duas, com cerca de setenta anos, fruto do trabalho bendito dos meus pais. Relíquias.

E embora a merenda não se limitasse apenas a isso, quase sempre com o vinho fresco na cabaça, de onde todos bebiam pela mesma boca, sem nojo, com irmandade, não posso deixar de referir o pão de centeio, cozido no forno a lenha, com aquela côdea estaladiça, acompanhado de toucinho cozido, ou frito em rojão que chiava, ou cru, cortado à faca, e uma uva branca, de preferência formosa e doce como mel, ou preta de rei, tinta nos dedos. Era uma iguaria que sabia a glória, que regalava a alma.

Enfim, outros tempos, outras necessidades e outras realidades. Quase não havia tratores, muito menos semeadores. A força do trabalho eram as juntas de bois de olhar manso, de vacas pachorrentas, de machos teimosos ou de jumentos humildes, que lavravam a terra e a nossa história.

E hoje, quando vejo um campo lavrado, ainda ouço esse eco.

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