O Canto que Ficou Sozinho
Elegia a uma ribeira do interior
Há aldeias onde o tempo não passa, pois há. Há aldeias onde o tempo se senta à sombra a ver a vida passar, devagar, como quem conta as contas de um terço. A minha é assim.
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Nasci e cresci numa pequena aldeia do concelho de Bragança, metida nas dobras fundas de um interior que continua esquecido, só que agora com outro esquecimento. Já teve foral de vila, e ainda se lhe nota a nobreza antiga no porte: um pelourinho aprumado que resiste como um velho senhor, uma ponte românica de pedra cansada mas firme, com a sua calçada ainda a cheirar a passos de séculos, um cruzeiro a abençoar o largo e um moinho recuperado que range memórias quando o vento lhe toca. Pelo meio, a atravessar tudo, a minha ribeira.
Digo minha, porque há ribeiras que são nossas como o sangue. Nela bebi de bruços, com as mãos em concha e o coração aos saltos. Nela aprendi a nadar à força de sustos, pesquei bogas de escama a luzir, lavei o centeio e o trigo antes de irem para a mó, e vi o verão a espelhar-se inteiro na água límpida e fresca.
Hoje, como tantas veias de água do interior, leva na corrente diminuta, quase inexistente no verão quente, o peso de uma poluição distraída e muda. Mas o cordão umbilical não se corta. Continua a ser a minha ribeira.
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Impossível contar a minha vida sem contar a dela. Foi ali a minha primeira escola sem paredes. Aprendi a regar e a ver regar, pelo pé e com o velho motor de rega, as hortas ao entardecer, com a água a abrir regos como se abrisse caminhos. Espreitei os peixes a riscar a água clara, os patos-bravos a levantar voo em sobressalto, as galinhas-de-água a esconderem-se nos juncais, e as vacas e as ovelhas ou cabras, a descerem mansas, de focinho baixo, para beber no leito.
Era ali também o parlamento das mulheres, de joelhos na pedra lisa, a bater a roupa da família, a rir e a lamentar a vida, transformando aquele pedaço de natureza numa praça viva, num centro de vida comunitária onde tudo se sabia e tudo se perdoava.
Crescemos assim, em liberdade de pés descalços e joelhos esfolados. As brincadeiras não se compravam, nasciam do chão, do pau, da pedra, da água. Nada era artificial. Crescer era aprender a respeitar a natureza sem nunca lhe chamar natureza. Era só a vida.
Talvez por isso, ainda hoje, a viver na cidade de Bragança, preciso de voltar quase todas as semanas. Como quem vai regar a raiz. Volto à aldeia que agora está quase oca, tão diferente daquele formigueiro de gente, de carros de bois, de sachas e de vozes que eu conheci.
E sempre que volto e me sento na varanda, ao cair da tarde, com os olhos postos na ribeira e na ponte velha, dou comigo a ouvir o que já não se ouve. Uma ausência que coaxa baixinho. A solidão das rãs.
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Pode parecer coisa pouca a quem nunca viveu no campo. Mas para mim é um pranto inteiro.
Houve um tempo em que as noites de primavera e verão não eram silêncio. Eram orquestra. Era impossível atravessar o largo da ponte sem parar. O coaxar das rãs subia da água como um coro afinado pela própria terra, uma litania húmida, funda, que dava alma à noite. Cada macho a chamar, cada fêmea a responder, num namoro antigo como o mundo.
Aquele canto tinha um quê de romântico, de serenata brava. Acompanhava o correr manso da água e ajudava o corpo a descansar depois da jorna dura nos campos crestados de agosto. Era o adormecer da aldeia com música própria.
Havia toda uma companhia de vida em redor, os cães a ladrar, os galos a cantar, as andorinhas a riscar o céu, os grilos a serrar o escuro, as corujas a perguntar na distância, as rolas a arrulhar no pombal, e as cegonhas a bater as castanholas nos ninhos altos. Tudo vivia em harmonia, num equilíbrio que não precisava de decretos.
Hoje, em pleno verão, quando me sento ali, ainda ouço uma ou outra. Uma, duas. Três, quando muito. Vozes soltas, sem resposta. Como um padre a rezar sem fiéis.
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Falta qualquer coisa. Falta o coro. Falta vida, falta alegria, falta companhia.
E a verdade é que companhia humana também falta. Às rãs, a mim, quando ali estou sozinho com a noite, e aos poucos teimosos que ainda resistem a fechar a porta.
A aldeia, como tantas irmãs do Nordeste Transmontano, vai-se esvaziando como uma eira varrida. As casas fecharam os olhos. As ruas são compridas de silêncio. O país inteiro acotovelou-se no litoral, em caixas de fósforos onde um mês de renda pagava um ano inteiro de casa na minha aldeia.
Por isso digo, talvez em metáfora, que as rãs da minha ribeira também sentem a falta da gente que animava as margens. Talvez coaxem menos porque já quase ninguém se debruça no parapeito da ponte para as procurar, como fazíamos em miúdos.
Mas continuam ali. Resilientes. Teimosas como as pedras da ponte e como as poucas almas que ainda ficam.
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E penso: como se encantariam as crianças das cidades grandes se pudessem, por uma tarde que fosse, meter os pés naquela água, ouvir aquele coaxar ao vivo, pegar numa rã com as mãos trémulas e rir daquele salto desajeitado.
Se um dia experimentassem essa liberdade simples, essa riqueza silenciosa feita de água, de memória e de verdade, talvez entendessem porque é que eu volto sempre.
Porque enquanto houver uma rã a cantar sozinha na minha ribeira, há uma aldeia à espera que voltemos a fazer coro com ela.
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