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Tânia Rei

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Erros de pronúncia

Se estão a ler este texto com recurso a uma ferramenta de tradução, abandonem. Não é nenhum tipo de discriminação. Só que isto só faz sentido em Português. Estou apenas a poupar-vos tempo. E “time is money”, como diz o povo.

Brincadeiras à parte, feita a depuração, ficamos a sós. De falante da língua portuguesa para falante da língua portuguesa. Pareceu-me ligeiramente romântico, posto assim. E fiquei até agoniada, com tanto mel que escorre desta relação cronista-leitor. Deve ser do raio do mês do amor, que me está a deixar avariada. Tive que parar de digitar para ir vomitar. Agora já estou bem, obrigada. Subiram-me os açúcares em demasiada, não fui capaz de me aguentar a esta bronca. Que enjoo!

É que eu sou mais das ferroadas do que dos favos. E, já que estamos a falar de insectos que picam e fazem maleita, fica mais um aviso - hoje vamos mexer num vespeiro.

O amor está a destruir-nos. A nível de ortografia e de dicção. O amor pode vir a ser, de acordo com esta especialista que vos escreve, o final do legado de Camões. Dramático? Drama são todos os diminutivos que chamam à vossa cara-metade, a maneira como os escrevem e a vozinha ridícula com que os dizem. À vossa cara-metade ou a quem dedicam a vossa maior atenção. Maior, não toda. Retenham esta ideia. Vai fazer falta mais adiante.

Porque às vezes há um ser que, quando entra no mesmo espaço onde nós estamos, faz sair o ar todo, até custa respirar. E o que importa quem mais está ali? O epicentro passa a estar mapeado. “Quando estás, não há para mais ninguém”. Já alguma vez esta frase terá sido dita. Com muito álcool à mistura, claro. Mas, quando não está... bem... Há sempre quem esteja. Temos os estrangeirismos. “Sweetie”, que podia ser só um “querido/querida”. Depois há o “love”, “baby”, “babe” e outros tantos que me fazem entrar no “Brilhantina” e libertar a Sandy que há em mim, perdida nos refegos.

Procurei uma lista destas alcunhas. Para eles, entre as mais comuns estão “Rei” (e aqui nasce uma frase de engate épica que posso usar - “se queres que te chame Rei, casa comigo”. Vou experimentar mal possa. Depois conto), “Coração”, “Sonho”, “Encantado” (presunçoso), “Pudim” (por favor, não usem esta em público). Para elas, claro, “Princesa”, “Flor”, “Gatinha”, “Boneca” ou “Pêssego” (e isto faz-me lembrar que, certa vez, me comparei a esta fruta - redondinha, fofa e com boa cor).

Dizemos estas barbaridades como se estivéssemos a dirigir-nos a uma horda de bebés de fralda ou como se tivéssemos uma deficiência na fala. E porquê escrever “lindo” quando podemos escrever “windo” e encher tudo de bonecada?

De propósito, guardei o mais comum para o fim. “Mor”. Redução de “amor”. Curioso, o que é para dar sem limite é o que encurtamos. Mor |ô|. Ajuda para saber como se pronunciar. Porque, neste idioma traiçoeiro, temos também o Mor |ó|. Redução, sim, mas de “maior”.

No outro dia vi uma publicação nas redes sociais que dizia “Parabéns, mor”. Aliás, vejo quase todos os dias. Só que nunca ninguém deixa indicação de como se lê aquilo que escreveu. Por isso, se um dia descobrirem que quem vos escrevia “mor” andava com mais 20 pessoas além da vossa “relação”, não lhe chamem nomes feios nem lhe dediquem ódio. Se calhar, foi só um erro de pronúncia, e nunca ninguém vos enganou.

E se fôssemos sinceros com base no ramo imobiliário e automóvel?

O Mundo é, claramente, de plástico. Sim, este devia ser um alerta para as alterações climáticas. E, é. Também. Sintam-se alertados. Mas estava mesmo a falar das pessoas. Tal como aquela música dos finais dos anos 90 dos Aqua (que é feito dessa malta?). Se bem que a letra do “I’m a Barbie girl, in the Barbie world/ Life in plastic, it’s fantastic” pode ter imensas interpretações. Cada um faz a sua. Assim como destas linhas. Estamos nesta época esquisita, em que vivemos mais da internet do que do cara a cara. E onde parecemos ter uma persona online e outra, mais fraquita, com forma humanóide à mistura. Na dita vida real, chamemos-lhe assim, é quase impossível arranjar disponibilidade para ir fisicamente a algum lado, nem que seja ao fundo da rua, quanto mais a qualquer actividade que implique interacção social, num horário a combinar? Quando der para comprar pão virtualmente, e que este chegue a tempo útil para o pequeno-almoço, esquece, Sociedade! Perdeste. Ainda assim, tenho tudo a favor da internet e de fazer novas ligações por essa via. Todos nós, pelo menos, diria, numa faixa etária até aos 50 anos, estamos familiarizados com aplicações para dispositivos móveis que nos dão aquilo que é uma autêntica montra de seres humanos disponíveis para dois dedos de prosa, e, quem sabe, algo mais. Nas descrições dos perfis encontramos um nome (com sorte, o verdadeiro), uma idade, uma localização e às vezes meia dúzia de coisas que pretendem ser fora da caixa para chamar a atenção ou uma lista de restrições - “não tolero se fores assim, nem sonhes se fores assado, não curto dessa forma” - mais apertada do que a dieta de um obeso. E o que acontece é que um primeiro encontro meio às cegas pode ser absolutamente desastroso. Às vezes as fotografias enganam-nos, e damos connosco a jantar com a versão em estágio daquilo que tínhamos idealizado. Sendo um borracho, são as personalidades que parecem carrinhos de choque nas feiras, sempre às turras. Ou, simplesmente, queremos coisas distintas da vida. Tenho para mim que encontrei a solução para este problema. Como pessoa atenta que sou, reparo que há todo um vocabulário com o qual até estamos à vontade e que, se usado nestas aventuras e desventuras, seria muito mais útil e daria, sem rodeios, uma descrição nossa e daquilo que procuramos. Tudo na honestidade. Exemplo do ramo imobiliário - “É pequenino, mas para uma pessoa serve bem”, “Para dividir com mais três pessoas”, “Com todos os serviços básico à mão e com estacionamento à porta”, “Com entrada imediata”. Ou então, do ramo da venda automóvel - “A precisar de algum trato de estética, mas a nível de motor está excelente!”, “Revisão geral efectuada, apto para todas as circunstâncias e tudo funcional”, “Muito económico. Apenas precisa de pintura porque tem algumas partes comidas do sol”. E, sim, são anúncios verdadeiros. A realidade supera sempre a imaginação. Agora lidem com o facto de as aplicações de encontros não serem assim, sinceras a ponto de toda a gente poder escolher de forma consciente e deliberada o rodízio em que se vai meter. Façam uma corrente e passem este texto a 10 amigos. Juntos, vamos revolucionar os encontros deste planeta! Muito ambicioso... Do país? Nah? Distrito? OK. Pelo menos lá do bairro, acham que dá?

Artistas amadores e decepções de trazer por casa

Já vos aconteceu estarem a caminhar, a conduzir, a limpar a casa ou noutro cenário em que estejam a ouvir música acima dos decibéis permitidos por lei e pelo bom senso, a pensar na vossa vida, e, de repente, tudo à vossa volta se tornar no próprio videoclip do que estão a ouvir? Uma criança que passa e vos sorri, o céu extremamente azul com um aviãozinho ali no meio, os pára-brisas frenéticos numa tempestade, como que a limpar as vossas próprias lágrimas, uma peça de roupa atirada em fúria para dentro da máquina de lavar, porque já não temos meias emparelhadas e isso não tem jeito nenhum. Tudo com uma carga simbólica fortíssima, enquanto somos actores filmados por várias câmaras, em ângulos artísticos. Podemos (e devemos) cantar a plenos pulmões, sendo até permitido assassinar a canção. Vão com tudo. Não tenham dó. Tenho ideia que isto só acontece quando estamos ou muito felizes ou muito tristes. Não há um meio termo para criar todo um guião assim. A música, de resto, é uma arte que tem este dom - realça a vida, seja o bom ou mau. Dei eu por mim a caminhar na rua, totalmente alheada da realidade por conta do que trazia nos ouvidos, a ponto de me ensurdecer (crianças, isto é perigoso, não reproduzam este comportamento irresponsável, ou podem acabar atropeladas). E, aconteceu. Um dia de sol, apesar de o Inverno estar a chegar e isso se fazer notar. Mas o céu estava limpo, brilhante. Um avião passou a baixa altitude. Outro voava mais acima, só um pequeno pontinho, lá no alto. Ouvia uma das músicas que está a bombar no momento - Love Tonight - o que nem faria muito o meu género, por norma. Bom, a música fala de duas almas que se encontram, que se sentem bem uma com a outra e que prometem que nunca vão falhar, que vão estar sempre lá quando for preciso, porque, finalmente (acrescento eu), é um alguém para a vida toda. É, pelos menos, isto que eu ouço enquanto controlo a vontade de dançar. Isto lembra-me que é mais fácil alguém nos decepcionar do que surpreender, pela positiva. Porque a decepção também pode ser uma surpresa, como levar com uma porta a grande velocidade na cara. O que se promete nesta música é idílico. E é muito mais usual decepcionar do que ser alguém fora da caixa. Porque a decepção vem associada ao corriqueiro, ao previsível. Difícil é ser diferente. Ou talvez a palavra certa seja verdadeiro. Talvez a chave seja não criar expectativas. Mas, a expectativa é humana. Assim como a tristeza de uma decepção nos torna mais humanos. Quem não quereria encontrar outra pessoa que, com a certeza absoluta do mundo, nunca nos decepcionaria? Talvez exista, algures. Talvez seja aquela pessoa com quem nunca perdemos grande tempo porque não nos chamou a atenção, ou com quem deixámos de falar porque o assunto não desenvolvia. Ou, quem sabe, esteja naquele pedido de amizade nas redes sociais que nunca aceitamos. Ou talvez esteja mesmo à nossa frente, a aguardar o momento certo. Isto, sim, é verdadeiramente idílico. Mas, deixem-me continuar a sonhar, entre videoclips caseiros.

Um mundo maior do que imaginamos

Não me apetece ir pesquisar à Internet para vos explicar direito uma coisa de que me lembrei agora. A Teoria das Cordas, que, num resumo muito resumido e sem grandes precisão, acrescenta mais mundo ao nosso mundo, com mais dimensões e coisas assim. Isto entra ali algures no domínio da Física Quântica, que teima em dividir ainda mais as coisas pequenas e afirma que, é verdade, há muito mais para além daquilo que, de alguma maneira, conseguimos ver. Desculpem, caros leitores. Sou da área das Letras e acho que acabei de explicar o pouco que sei de forma demasiado lírica. Por isso, a conter incorrecções, encarem como poesia prosaica, uma definição abstracta da vida.  Isto para dizer que, se calhar, andamos a ver o mundo com palas. Provavelmente é isto o que acontece. Só que, como achamos sempre que nada nos escapa, lá ficamos, enganadinhos mas felizes, com a ideia que o mundo é só o que está à nossa frente.  Estamos a falar de um campo espiritual? Também, se quiserem. Mas, não era esse o objectivo. O que na verdade queria dizer é que podem acontecer coisas fantásticas todos os dias, a todas as horas. Só que, como não vemos o mundo todo, esses detalhes fogem-nos. Falando em mundo, sem fugir ao tema, mas de outro ângulo, a acreditar nas teorias (há teorias para tudo. Eu própria tenho várias), haverá a possibilidade de existirem mundos paralelos, onde nós também estamos. Uma versão de nós, estilo gémeo, sei lá. E nesses outros locais, temos experiências que aqui, neste «plano» escolhemos não ter. Se calhar foi confuso, mas está ligado, algures, à dita Quântica. Bom, então, quer dizer que temos a oportunidade de viver noutras realidades com o contrário das nossas decisões na, chamemos-lhe, vida real. Se escolhemos dizer «sim», algures saberemos como seria se tivéssemos dito «não». Isto não me conforta. Não poder ver o mundo todo, não o percepcionar totalmente e sabê-lo tão grande que só nos resta que seja partido. Porque simplesmente é tudo demasiado grande e complexo para ser absorvido num trago. E é angustiante viver com a clara noção que algo, em algum momento, me vai passar completamente ao lado. Porque, é assim mesmo, o mundo é tão complexo.  No outro dia, sentada nas muralhas de um castelo, a pensar, claro está, na vida, uma senhora cantava Rui Veloso, a plenos pulmões. Como que se estivesse num mundo à parte. “Mesmo sabendo que não gostavas... “. Talvez numa outra realidade estivesse a cantar death metal. Talvez outra fosse eu que estivesse a cantar. Talvez numa outra hipótese, nem existisse música, de todo.  Talvez o que nos reste seja viver e testar a realidade que temos, da melhor forma possível.

Entre a Vida e a Morte

Quantas vezes, por pura graça, fizemos ou respondemos à pergunta "o que farias agora se morresses amanhã?". Quase sempre a resposta foi extravagante - uma festa de arromba; uma refeição com comidas exóticas; uma orgia. Viagens para sítios paradisíacos está fora de questão, ou íamos morrer dentro de um avião, uma chatice. E passar as últimas horas no check-in. Porque nos parece mais extravagante morrer do que estar vivo. É como que estar vivo seja uma coisa de menor importância e morrer algo fora da caixa. A morte é tão pouco tangível. Viver parece tão adquirido, tão normal. Mais estranho é receber a notícia da morte de alguém. Não ligamos a ninguém para dizer "olha, fulano continua vivo hoje". Mas talvez devêssemos. Já diz o saber popular que a morte é o que temos mais certo. Ainda tenho alguma esperança, confesso, de que a Morte se esqueça de mim e me conserve, por engano, jovem e com saúde. Ainda que saiba que vai acontecer, falecer não está, de todo, nos meus planos próximos. Isso é que me dá liberdade para adiar tarefas, evitar resolver problemas prementes e ignorar o que me traz sofrimento. Isto porque, à partida, haverá uma Tânia do futuro, provavelmente amanhã, que irá lidar brilhantemente com tudo o que escolho agora deixar cair. E, se não fosse assim? Iria partir para o Além com assuntos mal resolvidos, deixar um rasto entre a Vida e a Morte como quando pisamos pastilhas elásticas derretidas na rua? Sim. Vocês não? Vivemos como se fôssemos eternos. Carregamos mágoas e coisas pendentes anos e anos. Escolhemos assim. É mesmo isso. Uma escolha. Não dizemos o que queremos dizer, andamos a cozinhar tudo em banho-maria. Ignoramos sentimentos, anseios. Deixamos tudo para "um dia", seja lá quando isso for. Porque nos fitamos nas estatísticas da esperança média de vida, o que, a correr bem, ainda dá uma folga para sermos politicamente correctos e agir sempre de acordo com a razão e o que é "melhor assim". Ou acham que, havendo algo do lado de lá do véu, nos podemos juntar, ocasionalmente, pelo menos, para tratar do que não tratamos em vida? Vão ficar no ver para crer, não é? A Humanidade tem reflectido muito pouco sobre esta questão, de que a distância entre a Vida e a Morte pode ser mais curta do que o que supúnhamos. Tempo extra para viver poucos terão. Investimos mais frases feitas: "Vive cada dia como se fosse o último". A sério? Foi o que pensaram ontem, enquanto viam séries que nem gostam na Netflix, só para passar (desperdiçar?) o tempo? Também por graça, já pensei bastante no que quero que diga o meu epitáfio. Desde as brincadeiras "Eu avisei que estava doente", "Não deixem flores, sou alérgica", "Morri, a sério?", "Finalmente, vou poder dormir mais de 8 horas", entre outras que, se escrevesse aqui, me iam proibir de continuar a escrever para o Jornal, a algo mais sério como "Aqui jaz Tânia Rei, uma pessoa feliz". Se pudesse pedir para escrever isso, sem mentir, sem ressentimentos e com todos os meus assuntos resolvidos, então a passagem por aqui teria valido a pena e estava, de facto, na hora de partir.

Alegadamente

De agora em diante, até acabarem de ler, p r e p a r e m - s e para o uso do advérbio "alegadamente". De acordo com o dicionário online Priberam (meu fiel amigo há alguns anos),"De maneira que carece de comprovação ou confirmação". A verdade é que estamos habituados a ouvir ou ler "alegadamente " nas notícias no bloco dos casos de polícia, nos tribunais e pouco mais. Quase nada parece ser passível de precisar de comprovação ou de confirmação. Alegadamente, as pessoas casam porque gostam uma da outra. Gostam, não! Costumam usar aquele verbo que expressa afeição, mas a um nível transcendente - amar. Amam-se, então. Essa devia ser a prova - casam-se porque se amam. Muitas destas pessoas escolheram entrar de mãos dadas no copo d'água ao som de "Just give me a reason", da Pink com o Nate Ruess. O que devia deixar logo uma pulga muito inquieta atrás da orelha. Ou lembra a importância de ver a tradução das letras. Ou então, não, e era mesmo assim. Alegadamente, o matrimónio é contraído de livre e espontânea vontade. Até perguntam isso mesmo nas cerimónias religiosas. Ouvi certa vez num espectáculo humorístico que, além de doenças, o casamento é a única coisa que se contrai. Isso ou dívidas ou empréstimos. E nada disto é muito bom. Alegadamente, os casamentos devem ser cedo. Concordo que deve ser com imensa felicidade que se acorda às 5h da manhã para "o dia mais feliz das nossas vidas". Eu, levantada a essa hora, nem sei dizer o meu nome. Mas também dizer "sim" parece mais fácil do que dizer "Tânia". Então, penso que seja exequível. Alegadamente, o dia do enlace passa muito rápido e os noivos nem conseguem aproveitar. Isto não funciona assim da óptica do convidado. Espera-se horas para haver alguma coisa de comer, entre cerimónias e viagens. Quando há finalmente algo para morfar, estamos roxos de fome e comemos como alarves. Meia horita e estamos redondos. Depois, entramos no horror infindável que vai desde as entradas até à continuação da comida. São horas em que devíamos estar a degustar os alimentos (deve ser essa a lógica, para nos entreter enquanto há uma sessão fotográfica em paralelo) que aspirámos em quantidades industriais em tempo recorde. Por isso é que as pessoas se alcoolizam. Não é só alegria de celebrar o amor alheio. É tédio. Alegadamente, há sempre um pedido de casamento fora da caixa e romântico. Isto acontece porque se encontrou a alma gémea. E, como todos sabemos, quando isso acontece não convém perder muito tempo até lhe meter uma argola de um metal precioso pelo dedo anelar abaixo. Há esse desejo incontrolável. Curiosamente, mais vezes ouvi a justificação do "porque está na hora", "porque ele/ela quer", "a mim tanto me dá, ter papel ou não". E somos arrastados para estas comemorações cheias de logística. Para sermos testemunhas de todo este amor orgânico. Alegadamente, há pessoas que se amam a vida toda. Algumas amam-se uma vida inteira nem nunca casar. Algumas amam uma pessoa mas casam com uma terceira. Algumas vêem o amor da sua vida casar com outro marmelo e ficam tão tristes que ficam sozinhas o resto da vida. Alegadamente, o amor é a melhor coisa do mundo. Isso e as crianças. As crianças são feitas, muitas vezes, porque há amor. Ou transformam o amor. Enfim, alegadamente, não podemos viver a vida toda sem dizer "sim" ao amor. Por mais esquisito que isso seja.

“Quem és tu, ó Mascarado?“

Todos passamos tempos estranhos com isto das máscaras. Da novidade, veio a adaptação inevitável. Do desespero por encontrar qualquer uma, nem que fosse para trabalhos de serralharia e, de preferência, mantendo os dois rins, passando pelas de pano “que sempre seriam melhor do que nada”, aos especialistas em TNT (que antes era só AC/DC), às cirúrgicas e Ffp2 (isso soa nome de avião), até aos tutoriais para um simpático home made com resguardos de ensinar os cães a não fazer xixi pelos cantos da casa e meia dúzia de agrafos, qual MacGyver pandémico. Depois de tudo mais ou menos normalizado, começamos a ter as nossas preferências. As que encaixam melhor no nariz para não embaciar os óculos, as que não nos fazem sentir elfos, as que se mantêm efectivamente no sítio e, por fim, as que ficam melhor com a roupa que temos vestida. E passaram a fazer mesmo parte da indumentária, a ponto de nos sentirmos esquisitos sem ela. Como o slogan do Pessoa para a Coca-Cola. “Primeiro estranha-se... “. No início, pensava que o uso de máscaras nos dava um certo anonimato. “Ai, isto agora com as máscaras”, que, além de nos ensurdecer, nos poderia tornar também menos reconhecíveis. Isto a juntar a uns óculos escuros e a uma gabardina, poderíamos ser verdadeiros 007, agentes secretos prontos a não fazer nunca mais conversa de ocasião. Sonho pessoal. “Vi-te no outro dia”. “A sério? Isto agora com as máscaras... “. Remate perfeito. Acontece que agora já todos nos reconhecemos com máscara. E o mais certo é mesmo ter conhecido pessoas no entretanto (parece um paradoxo) que nunca vimos sem a dita. Por isso o mais difícil era mesmo reconhecer sem a máscara. Fizeram um estudo, se calhar também se cruzaram com ele, em que se chegou à conclusão que ficamos mais atraentes com máscara. Isto porque o cérebro preenche o que não se vê com características que agradam. No caso mais extremo, uma mulher foi considerada 70% mais bonita pelos participantes com máscara do que sem. Dá que pensar. Àquele flirt gostoso com alguém de máscara, quantas vezes se seguiu a conversa “agora vamos ver no - inserir nome da rede social - para ver o resto da cara”. Só para ter a certeza. Se pensarmos em exemplos semelhantes famosos, como o Clark Kent, o Zoro ou a Hannah Montana, chegaremos à conclusão que os pequenos pormenores talvez façam mesmo a diferença. E ficaremos confusos com assaltantes que usam meias de vidro cabeça abaixo ou passa-montanhas. Sem necessidade alguma, afinal. Ou isso ou a população tem só, no geral, um défice grave de atenção. O meu exemplo preferido é o Mascarado, do desenho animado Navegantes da Lua. Uns fantásticos óculos brancos design olho de gato, que não são para qualquer um. Além do toque fashion, ocultavam a identidade na perfeição. Não impediu que a Bunny se apaixonasse perdidamente pelo suposto estranho. Só que na verdade conhecia-o e nem se davam assim tão bem. Enfim, quem nunca? Lá mais para a frente, os óculos deixam de ter lentes que parecem espelhadas, passam a ser meias transparentes ou até inexistentes. Há alturas em que se fica na dúvida se é só uma máscara kinky, e afinal nem são óculos nenhuns. O que não muda nada em efeitos práticos. Bom, e sem outros pormenores a que se agarrar, há que fazer a conversa de ocasião possível: “Qual é o teu hobby, Mascarado? Diz-me. Tu gostas de...feijoada, por exemplo?” Em boa verdade, as Navegantes da Lua não usam máscara, só aquelas farpelas reduzidas e lycradas, com saias plissadas. E nem por isso são identificadas. Então se calhar vou aceitar que as máscaras não são o Manto da Invisibilidade, que pode antes ser obtido com um cocktail de adereços. Sejam quais forem os argumentos, neste novo mundo, que fica dentro do nosso planeta, na impossibilidade de castigar em nome da Lua e salvarmos o universo, presente e futuro, continuamos a ser, pelo menos, heróis à escala local se continuarmos a cumprir as regras. É só mais um bocadinho. Citando o Luna, “coitadinhos”. Mas lá terá que ser.

O normal é ser diferente

Às vezes, percebemos que, para podermos andar descansados, temos que andar ao contrário de toda a gente. Por norma, se estamos a fazer algo diferente de todos os restantes, leva-nos a crer que algo está errado. Como quando caminhamos da direcção oposta dos restantes, que se deslocam em manada (tempos A.C. - Antes da Covid-19) . “Ou somos muito espertos, ou então muito burros”. Quem nunca?

Bom, a verdade é que o que neste momento em que vos escrevo me está a permitir usufruir de alguma calma e normalidade é ter vindo tomar o pequeno-almoço fora... Quase ao meio-dia e meia hora. Ora, ao passo que muitos se preparam para o almoço, eu vim, poderão dizer, com algumas horas de atraso. Para mim, cheguei no momento certo. Evitei filas, confusões, pessoas em geral. Não evitei o ar reprovador e algo confuso da senhora que me atendeu, e que perguntou duas vezes para confirmar o meu pedido, que lhe pareceu tão desajustado. Agora estão provavelmente sentados a mirar uma ementa de pratos do dia, ou a espreitar pela esquina do olho para um qualquer programa da manhã enquanto tentam não deixar queimar o estrugido do arroz. E eu, aqui estou, a beber uma meia de leite, sem pressas.

São pequenos luxos que nos permitem manter a sanidade mental. Andar como queremos, sem querer saber o que pensam sobre nós. Isto quer dizer que nem sempre o mais sensato, o mais “normal” é o melhor para nós? Acho que, no fundo, quer dizer isso mesmo. Quantas vezes dizemos que “não” a querer dizer “sim”?

Quantas vezes dizemos que “não” porque é mais fácil, mais ajuizado, e outras tantas damos um “sim” para não levantar ondas (a ordem dos “nãos” e “sins” podem decidir vocês, sintam-se à vontade para trocar. Este é um texto totalmente livre de regras, por isso, força!).

E, pior, por cada vez que nós dizemos “não” alguém diz “sim” em nosso lugar (mantenhamos a regra do parágrafo acima, caro leitor). Por cada vez que adiamos a vida, por tantos motivos que não passam de desculpas, de facilitismos, ela continua a avançar, sem nós, noutros sentidos onde não estamos. Se isto nos deve preocupar? Claro. Se devemos fazer algo para mudar isto? Certamente.

No meu caso, hoje não, que ainda tenho uma meia de leite e estas linhas para acabar, e estão ambas a saber-me bem. E vocês, do que é que estão à espera?

As mudanças começam em nós. Esta frase não é minha, logicamente, ainda que não cite autores porque não sei se há mesmo um ou se é a sabedoria popular ou, talvez, tenha lido num livro de auto-ajuda qualquer na prateleira de um supermercado. As mudanças são enormes. Outras são um pequeno passo. Um ato de coragem, de ousadia, um efeito borboleta Hoje, a minha mudança, a minha revolução, foi tomar o pequeno-almoço à hora do almoço e contrariar do resto do mundo (neste fuso horário, pelo menos). Remar contra a maré e ser diferente pode mesmo ser uma “estranha forma de vida”, como cantava a Amália (eu por acaso gosto mais da música dos caracóis, mas não se adequava aqui). É, afinal, o que há de mal em ser estranho, certo? De revolução em revolução, um dia vamos acabar felizes e descansados com a vida que escolhemos. Mesmo que seja o contrário do resto do mundo.

Sim, continuo aqui

Vou lançar aqui um desafio: conhecem alguma história de amor que tenha ficado mal resolvida? Ou será melhor perguntar antes de quantas se lembram, sem pensar muito (ou no próximo texto ainda estaremos a discutir este tema, e vamos chegar à conclusão de que é melhor escrever um livro só com estas vivências. Fica o registo para eu receber depois os devidos louros). Começo, como é lógico, eu, - e até acho que já contei isto uma outra vez - com a história de um senhor que queria pedir a mais nova de duas irmãs em casamento. Mas, com o nervosismo, atrapalhou-se tanto que o pai das moças em idade casadoira percebeu mal, e acedeu dar a mão da filha mais velha. Não foi permitido desfazer o engano, estava feito. Pelo que o jovem teve que casar com aquela que queria antes para cunhada, e que se chamava Perpétua. Já pensaram quantos amores ficaram desfeitos por mal- -entendidos, por uma carta que nunca chegou ao destino, por culpa de um preguiçoso que não foi chamar para ir ao telefone, por uma mentira maldosa de terceiros? E tudo tinha um fecho, de algum modo. Que podia ser um “e nunca mais soubemos nada um do outro”, com mais ou menos pena. Tudo mudou com as redes sociais. Podemos estar a morar noutro planeta que nos é permitido manter por perto quem nós quisermos. Ou afastar. Só que, por norma, e pelo sim pelo não, fica lá. Ou porque achamos infantil eliminar alguém só porque as coisas correram menos bem, ou porque estaríamos a dar a parte fraca e dizer que aquilo nos afectou. Ou, tanta vez, porque queremos manter uma ligação, ainda que digital, com determinada pessoa. Saber algo dela, saber que podemos conversar (ou tentar, vá) com ela ou interagir de alguma forma. Interagir é talvez a melhor expressão, porque é o que fazemos online. E há uma espécie de manual quase universal com vários passos para isto, quando se trata de “pendências” (façam vocês a piada). Podemos escolher dar “likes” depois de meses ou até anos sem trocar uma palavra. Podemos elevar o patamar e fazer isso só que em fotografias com séculos (eu estive a ver o teu perfil todo, todinho, pois foi. E como é que isso te faz sentir? Vais falar comigo? Ou começo eu? Sim, sou o amor da tua vida. Mas está tudo cego?). Podemos dar logo tudo numa piada no chat. Lançar ao mar aquilo que parece um inofensivo anzol sem isco, que acaba por ser pesca de arrasto. Estamos ávidos de informação na internet, de dar e receber. Queremos também marcar uma presença, lembrar ao outro que estamos vivos, numa publicação perto de si. E não queremos demoras nas ditas interacções, se houver lugar a elas. Para isso teríamos escolhido enviar uma carta, soubéssemos nós o raio da morada. Acho que hoje em dia só as Finanças sabem a nossa morada. Ou talvez, com a internet, saibamos é tudo e tão pouco, na verdade, sobre as pessoas a quem queremos. E sabemos que as queremos por perto, ainda que assim à moderna, onde tudo funciona à distância, sem horários e quando nos apetece. É então caso para perguntar: estamos a dar cabo do romance ou é o romance que está a dar cabo de nós?

Dar água sem caneco

Quão fácil é falar? Falar é algo natural ao ser humano. Comunicar, de qualquer forma. É inato. Mesmo quem se diz anti- -social e que prefere estar sozinho acaba por ter necessidade de algum contacto humano (até porque, reparem, “quem se diz”. Tiveram em algum momento que verbalizar este sentimento). No meu caso em particular, sempre tive uma propensão enorme para comunicar. Até em demasia. Que o diga a minha mãe, que teve que lidar com uma criança que só queria conversar a toda a hora, criando tópicos de conversação à velocidade da luz e testando palavras que ouvia na televisão e tentava encaixar num discurso que, achava, coerente e fluído. “Filha, vai brincar um bocadinho para outro lado, para a mãe descansar a cabeça”. Uns bons trinta segundos depois, após uma volta completa à mesa da cozinha: “Já descansaste? Já posso falar outra vez?”. De tal forma estamos habituados a interagir, sem, até, darmos muita importância, que frequentemente dizemos mesmo que “falar é fácil”. Porque, de facto, sem embaraço atiramos palavras para expressar verdades, inverdades ou raio de coisa nenhuma. Para “deitar conversa fora”, para “dar dois dedos de conversa”. Ou, em alguns casos, “dar água sem caneco”, chegamos a essa conclusão. Temos a percepção de que falar, ceder parte do nosso tempo ou da nossa atenção pode não ter grande importância. Que não belisca em nada a nossa vida. Que pode ser, até, uma espécie de caridade para com alguém que precisava mesmo daqueles minutos do nosso dia. Minutos esses que a nós nem nos fizeram diferença, nem demos pela falta deles. Conseguimos completar as nossas tarefas sem aquele bocado que atirámos fora. Ainda assim, isto não corresponde à verdade. Dar água sem caneco pode ser perigoso. Não tão perigoso como ser ajudante de um atirador de facas ou beber lixívia - porque são coisas potencialmente mortais. Mas pode deixarmos danos irreparáveis. Porque o tempo tem esta mania estranha de só andar para a frente. E ainda ninguém fez o favor de tornar um vira-tempo real (isto é uma referência à minha saga literária predilecta, mas podem trocar por máquina do tempo, que vai dar ao mesmo). Se somarmos todo o tempo perdido com conversas sobre coisa nenhuma ou que não nos levaram a uma conclusão arrebatadora, vamos chegar à conclusão que com este lero-lero perdemos, pelo menos, tempo que podia ser gasto com uma boa soneca, num passeio, numa mariscada ou, quiçá, numa prosa realmente interessante. E por que é que temos este tipo de conversas? É porque achamos que nos guiam a algum lado ou porque retiramos delas alguma satisfação pessoal momentânea, sob um ponto de vista retorcido? Há estas pessoas que teimam em conversar sobre tudo. Tudo é um possível assunto para uma conversa séria, daquelas que exigem tempo e disposição, para deixar tudo em pratos limpos. A não ser, claro, que seja mesmo necessário conversar. É que, hoje em dia, tudo é muito efémero. E é tão fácil falar, mas só se não tivermos nada de útil para dizer. Dizemos coisas da boca para fora. E, no final do dia, parece que andamos é todos a dar água sem caneco.