Sim, continuo aqui

Vou lançar aqui um desafio: conhecem alguma história de amor que tenha ficado mal resolvida? Ou será melhor perguntar antes de quantas se lembram, sem pensar muito (ou no próximo texto ainda estaremos a discutir este tema, e vamos chegar à conclusão de que é melhor escrever um livro só com estas vivências. Fica o registo para eu receber depois os devidos louros). Começo, como é lógico, eu, - e até acho que já contei isto uma outra vez - com a história de um senhor que queria pedir a mais nova de duas irmãs em casamento. Mas, com o nervosismo, atrapalhou-se tanto que o pai das moças em idade casadoira percebeu mal, e acedeu dar a mão da filha mais velha. Não foi permitido desfazer o engano, estava feito. Pelo que o jovem teve que casar com aquela que queria antes para cunhada, e que se chamava Perpétua. Já pensaram quantos amores ficaram desfeitos por mal- -entendidos, por uma carta que nunca chegou ao destino, por culpa de um preguiçoso que não foi chamar para ir ao telefone, por uma mentira maldosa de terceiros? E tudo tinha um fecho, de algum modo. Que podia ser um “e nunca mais soubemos nada um do outro”, com mais ou menos pena. Tudo mudou com as redes sociais. Podemos estar a morar noutro planeta que nos é permitido manter por perto quem nós quisermos. Ou afastar. Só que, por norma, e pelo sim pelo não, fica lá. Ou porque achamos infantil eliminar alguém só porque as coisas correram menos bem, ou porque estaríamos a dar a parte fraca e dizer que aquilo nos afectou. Ou, tanta vez, porque queremos manter uma ligação, ainda que digital, com determinada pessoa. Saber algo dela, saber que podemos conversar (ou tentar, vá) com ela ou interagir de alguma forma. Interagir é talvez a melhor expressão, porque é o que fazemos online. E há uma espécie de manual quase universal com vários passos para isto, quando se trata de “pendências” (façam vocês a piada). Podemos escolher dar “likes” depois de meses ou até anos sem trocar uma palavra. Podemos elevar o patamar e fazer isso só que em fotografias com séculos (eu estive a ver o teu perfil todo, todinho, pois foi. E como é que isso te faz sentir? Vais falar comigo? Ou começo eu? Sim, sou o amor da tua vida. Mas está tudo cego?). Podemos dar logo tudo numa piada no chat. Lançar ao mar aquilo que parece um inofensivo anzol sem isco, que acaba por ser pesca de arrasto. Estamos ávidos de informação na internet, de dar e receber. Queremos também marcar uma presença, lembrar ao outro que estamos vivos, numa publicação perto de si. E não queremos demoras nas ditas interacções, se houver lugar a elas. Para isso teríamos escolhido enviar uma carta, soubéssemos nós o raio da morada. Acho que hoje em dia só as Finanças sabem a nossa morada. Ou talvez, com a internet, saibamos é tudo e tão pouco, na verdade, sobre as pessoas a quem queremos. E sabemos que as queremos por perto, ainda que assim à moderna, onde tudo funciona à distância, sem horários e quando nos apetece. É então caso para perguntar: estamos a dar cabo do romance ou é o romance que está a dar cabo de nós?

Tânia Rei