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Tânia Rei

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O fim do mundo

Assim de repente, contei cinco. Vinham a subir umas escadas de cimento quando os comecei a ver. Acho que estavam a sair de um parque de estacionamento subterrâneo. À frente vinha uma mulher loira. Calças de lycra pretas. Um top justo, algures entre o rosa e o vermelho. Por cima, um casaco fino largueirão exactamente da mesma cor, descaído casualmente, a condizer com toda a indumentária, no ombro direito. As sapatilhas de corrida deram mais jeito do que o previsto, uma vez que estavam a tentar escapar de uma invasão de extraterrestres. Uma das mulheres do grupo foi apanhada, entretanto, por entre gritos e correrias. Era uma espécie de polvo, mas biónico, que emitia sons que faziam lembrar morsas. Mas também ela estava impecavelmente vestida. Calças de ganga e um blusão de cabedal castanho. O resto não vi muito bem, porque rapidamente foi sugada pelo ser biónico de outro mundo. Nunca entendi muito bem esta fixação dos aliens em matar os terráqueos. A não ser no Marte Ataca!, porque aí é claro que os marcianos têm só um sentido de humor retorcido (talvez não fosse a melhor altura para vos lembrar disto, mas agora já está). Voltando ao que vos estava a contar, os restantes safaram-se. Entraram, por uma unha negra, num prédio. Foram para um apartamento. E lá deu para ver que a loiraça tinha o cabelo imaculado, mesmo tudo indicando que estava a fazer a sua corrida matinal antes, e a maquilhagem incrivelmente no sítio. Isto, sim, era um anúncio para vender cosméticos - aqueles que sobrevivem, até, ao apocalipse. Acho que o final do filme não é muito feliz. Mas também essa não é a questão. A questão verdadeira é: estamos prontos para saber o que vestir, quando chegar o fim do mundo? A sério. Quando tivermos que fugir, levar só o indispensável (que é esse belo couro e pouco mais). Saberemos nós estar à altura de todas as películas que vimos, onde toda a gente aparece com aquele look casual-chic-super-confortável-para-lutar-pela-vida? Ou, mesmo que não seja, rapidamente se converte. Rasga aqui, corta ali, atira fora os sapatos de festa de salto agulha e calça umas botas da tropa arrancadas a um cadáver, que calha ser o nosso número. E faz envergonhar muitos designers ou costureiras mais habilidosas. Mais do que saber que é preciso assaltar uma farmácia, para roubar antibióticos, ou que a água que fica no autoclismo é boa para beber, é importante pensar na indumentária. É melhor levar um casaquinho para a noite, mesmo se for Agosto? As nossas mães diriam que sim. Cabedal é sempre bom, dá um ar de durão, mais uns óculos de sol marotos. Mas, se for Verão, é capaz de fazer transpirar. E a moça desse filme que vi não se safou nada bem, mesmo com a coberta janota. E, se o fim do mundo demorar muito a passar, como vamos fazer com depilações, unhas ou raízes descobertas? Ou barbas e cabelos à náufrago? E onde vamos arranjar espaço para a maquilhagem, cremes e produtos de higiene no meio da mochila ridícula onde só já há latas de comida de gato, frascos de feijão manteiga e meia dúzia de antibióticos fora de prazo? Sabem? Acho que não estou preparada, ainda, para o fim do mundo. Mas, se tiver mesmo que ser, pelo menos que não me apanhe com o pijama enfiado.

Futurologia

A conjuntura actual tem-nos obrigado a viver no futuro. O agora é como viver no suspenso, à espera. É viver da melhor forma possível, da mais responsável, da mais restrita. Uma espécie de garantia para chegarmos ao tal futuro. Há quase um ano que as conversas são dominadas pelo futuro: “quando isto melhor”, “assim que der”, “quando tudo passar”, “não vejo a hora”. Nunca vivemos o presente com tanta pressa, porque o que interessa é, na verdade, o futuro. Queremos lá chegar com a máxima brevidade possível, mesmo sem saber quando isso será. Numa actualidade repleta de incertezas e provações, é- -nos permitido este escape - viver no futuro, onde a nossa vida voltará a ser como antes. Ainda que nem saibamos, talvez, o que é esse “antes”. Porque nunca nos tínhamos encontrado em tamanha situação, em que o mundo tal como o conhecíamos ficou virado do avesso. O que nos vale é poder sonhar com o futuro, fazer planos para ele. Idealizar os sítios onde iremos, as pessoas com quem estaremos, o que faremos. São mesmo as pessoas e a liberdade de ir onde queremos e fazer o que queremos que mais passam a importar. É o que domina o tal futuro. NinFuturologia guém quer estar no futuro sozinho. O futuro deixa de ser a resposta a uma pergunta clichê, de onde nos vemos daqui a uns anos, rodeamos de bens materiais. Passa a ser uma mesa com a família e os amigos. Talvez até desconhecidos ou recém-conhecidos. Passa à frente o contacto humano. Passam à frente os risos e as conversas. Os beijos que queremos trocar. Os abraços, dos quais estamos destreinados. Fazer futurologia passou a ser uma forma de viver, de ser abduzido por um mundo paralelo. Estamos fartos do raio das provações, e, ainda assim, não as podemos ignorar. Provavelmente, quando tudo ficar bem, já teremos planos para as próximas décadas, de tanto almejar o futuro.  Algumas pessoas ficaram mais perto, mesmo estando longe. Outras, ficaram cada dia mais longe, e é OK. Percebemos que, afinal, sempre tivemos tempo, somente não tínhamos a disposição. Ou tínhamos disposição a mais para o que era um vazio, e isso obriga-nos a reflectir. Ainda assim, são mesmo os outros que mais nos fazem falta. Talvez, no tal futuro, aprendamos a gerir melhor o relógio. Deixaremos as pressas, os afazeres que, se calhar, nem são assim tão importantes. Talvez no futuro se queira estar presente. Mal posso esperar pelo futuro, esse malandro fugidio. Até lá, ainda falta uma grande corrida de obstáculos. O futuro é a luz ao fundo do túnel, a réstia de esperança. É como naquelas séries televisivas, com muitas temporadas, em que a derradeira demanda vai ficando adiada, porque, entretanto, surgem outros problema s prement e s que não podem ignorar, sob pena de hipotecar o propósito final. Contudo, está sempre no pensamento, no foco. Nunca fui adepta de futurolo - gia. Agora sou. Vivo a adivinhar, a desenhar o porvir. Porque o presente não me serve. O presente vai, um dia, ficar num passado doloroso. Uma aprendizagem à bruta, que nunca pensámos ter. E, quando dermos por ela, já é o amanhã pelo qual tanto esperamos. Nesse dia, quero ser mais feliz do que alguma vez fui, aproveitar melhor o tempo, a liberdade e as pessoas. Porque, como todos, saberei o quão foi difícil viver num agora que não queria, obrigada a viver no futuro.

Mensagens escritas e beijos

Há cerca de duas décadas as mensagens escritas tornaram-se corriqueiras. Primeiro, nos telemóveis. Tínhamos que gerir bem quanto escrevíamos, para só pagar uma mensagem, e a quem a  enviávamos.  Uma mensagem escrita era um evento controlado. E tínhamos que ter um motivo válido para as receber ou enviar. Aprendemos a escrever telegraficamente, por causa dos tais caracteres contados. Usávamos abreviaturas manhosas, onde reinavam letras como o k. Infelizmente, há quem tenha ficado preso nos anos 2000, e essa forma de assassinar a língua materna permanece viva. Era entendimento geral que não era suposto manter uma conversa longa pela via escrita, no telemóvel. Por norma, havia um propósito, um objectivo. Se fosse só para chamar a atenção, dávamos «um toque». Havia quem tivesse códigos, qual jogo do copo, mas com o telemóvel e pessoas vivas. «Um toque sim, dois não». «Manda toque ao saíres de casa». Hoje em dia, isto seria um «olá», assim, à paposeco, em qualquer plataforma de conversa online. Para delongas, tínhamos a internet. Primeiro, o mIRC. Sou mais do tempo do Messenger, com aqueles dois bonequinhos, um verde e outro azul. Entretanto, veio o Facebook, e depois passámos a ter um Messenger lá. Não sei a ordem correcta dos eventos, mas o velhinho Messenger desapareceu por esta altura. Mudanças que tivemos que acompanhar, e que o fizemos de forma muito natural. Por esta altura, já a internet era mais acessível, a todos os níveis. Chegou a todo o lado, aos telemóveis sem teclas também. Tudo a uma velocidade (mais ou menos) galopante. Agora, quem não está disponível online é como que se não existisse. Está fora de mão. Estamos todos habituados a falar por escrito, online. Não me lembro a última vez que escrevi, à mão, uma carta inteira para ir aos Correios. Quanto muito, escrevo no envelope. E até isso estamos a perder. Hoje, é quase obrigatório usar bonequinhos para exprimir sentimentos. É possível fazer frases só com estes amigos coloridos. Completa a parte escrita, como uma bengala, para conseguirmos transmitir correctamente as nossas emoções. É que escrever é sempre um exercício individual, mesmo com a tecnologia. Podemos escrever, saber o que queremos dizer, achar que é entendível da maneira como o concretizámos. Mas ser imperceptível para o receptor, porque criámos um “ruído”, algo que impede a t ra nsmissão do que queremos dizer. Outras vezes, somos só mal interpretados. Até escrevemos bem as nossas ideias, só que ler também é um exercício pessoal. E nem sempre se entende o que o emissário quis, de facto, dizer. Uma interpretação deficiente, ou personalizada, se preferirem, não é incomum. Uma das coisas mais dúbias para mim nas conversas online são os «beijos», «um beijo» e «beijinhos», nas despedidas. Deve ser por isso que raramente, nestas interações, cumprimento ou me despeço, a não ser que saiba o que é seguro. É seguro mandar “beijinhos” a toda a gente. “Beijos” também é mais ou menos seguro. Mas “um beijo” é diferente. Parece demasiado pessoal. É só um. Repenicado. “Um beijo”. Claro que tudo depende de quem o diz e para quem se diz. Não teremos dúvida que há “um beijo” equivalente a “beijinhos”, e vice-versa. Contudo, “um beijo” parece criar proximidade, mesmo virtual. Ficam dúvidas, que podem provocar ruído e causar uma impressão equivocada, para o bem e para o mal. E é por isso que, para deixar tudo em pratos limpos, às vezes temos mesmo que optar por fazer as coisas à antiga. Cara a cara. Viver de verdade, por esse mundo afora. Como antes das mensagens escritas. E como deve ser.

Pelo orgulho de gostar de música duvidosa

Quando as redes sociais começaram a ser uma constante nas nossas vidas, era muito comum partilharmos músicas. Agora, já é mais raro. E acho uma pena, porque as músicas de que gostamos dizem muito de nós. Mentira, não acho nada disso. Acho apenas que a música é uma arte que não se explica muito bem. Nem a música em si, nem o efeito que tem em nós. Já vos aconteceu estar a trautear uma música e pensar: “Porquê? Odeio-a, mas não me sai da cabeça”. Uma relação amor-ódio que não temos como evitar. É o mesmo sentimento de querer amar uma pessoa para sempre, mas, ao mesmo tempo, jurar nunca mais na vida lhe falar. Tenho imensas dessas na minha playlist. Neste momento em que escrevo estou a ouvir uma música que queria odiar. Só que tudo o que sinto por ela é um carinho indecente, que não consigo explicar. “Burbujas de amor”, do Juan Luis Guerra. Uma letra que foi escrita, claramente, depois de uma noite regada a álcool e produtos estupefacientes. Já a altas horas da madrugada, naqueles momentos de reflexão de “e se...” com os amigos, em que se acha que se vai descobrir a cura para o cancro e a fórmula para fabricar comida em cápsulas, um olha para o aquário ao fundo da sala e declara: “Meu, queria ser um peixe, para fazer bolhinhas de amor”. E aplaudiram todos os presentes. É, apesar da sonoridade de balada romântica, a letra faz tanto sentido como barrarem-se com mel e irem procurar um urso-pardo para Montesinho. Se, numa fase inicial, pensámos que o cantor está com os problemas cardíacos normais de alguém apaixonado, com sentimentos contraditórios - “Tengo un corazón/ Mutilado de esperanza y de razón” -, rapidamente caímos num non sense delicioso, para o qual somos mais ou menos avisados nos versos anteriores. Algo do género: “Ok, malta, estou mesmo apaixonado e isto vai ficar esquisito”. Chegando o refrão, Juan Luis Guerra atira, sem pudor, que quer ser um peixe...para tocar com o nariz dele no aquário do objecto da sua paixão e fazer, obviamente, bolhas de amor. Há grande possibilidade de, na verdade, esta música ter uma carga sexual muito forte. E aí, esta coisa de ser um peixe, das “burbujas de amor” e passar a noite “mojado en ti” passam a ser um piropo seriamente candidato ao posto de mais insólito do século. Daqueles que se fica na dúvida se tem algo de elogio ou se é só um insulto. Mas Juan Luis Guerra não quer fazer só “burbujas de amor”. Também quer decorar com corais a cintura da pessoa amada. E, mais tarde, troca-os por malaguetas, o malandro. Dos corais, ainda vá. Mas não sei onde um peixe (sim, ele ainda é um peixe) de aquário iria encontrar malaguetas. Nem outro qualquer. Ainda assim, de tão bizarro chega a ser romântico. Bom, agora é provável que daqui a uns dias acorde antes a cantar “Taras e Manias”, do Marco Paulo, à qual também não consigo ficar indiferente. A letra é mais fácil de entender, tirando a parte de tratar a moça por “você”. É sensualão? Tudo isto para vos dizer que a música é, de facto, uma arte. Podemos sentir-nos, por vezes, envergonhados pelo tipo de arte que nos desperta interesse. Mas, é uma arte que nos faz sentir felizes. E não me importo mesmo nada de ser feliz a cantar “você não tem um pingo de vergoooonha...”, agarrada ao cabo de uma vassoura, num mega- -concerto privado, com coreografia a condizer. Em público, vou continuar a fingir que não sei a letra toda de cor.

Me, myself and I

Quanto mais tempo passamos sozinhos, mais tempo achamos que conseguimos passar sozinhos. É uma espécie de ciclo vicioso. Ou viciado. E não parece que faça mal. Estar sozinho, tendo como definição estar, de facto, sem companhia, a não ser nós mesmos. E não outra definição qualquer de “estar sozinho”, como que se de um eufemismo se tratasse para outros assuntos, nomeadamente do coração. Quando estamos sozinhos, temos que arranjar com que nos entreter, se não tivermos o que fazer. Mas, há sempre o que fazer, se pensarmos bem. Ou trabalho, ou lides domésticas, ler livros, ouvir música, ver televisão. Televisão, genericamente, não. Conteúdos em plataformas para o efeito, não é? Já ninguém vê outra coisa. Já ninguém liga à hora das notícias nem espera para ver determinado programa. É a era moderna. Mas pode, simplesmente, não apetecer fazer nada, a não ser procrastinar. E não faz mal, porque estamos sozinhos e ninguém vê a nossa preguiça. Estar sozinho implica que a pessoa que conhecemos melhor somos nós próprios. Mesmo que passemos grande parte do tempo acompanhados, não há como negar que é connosco que passamos a maior parte da nossa vida. Porque nós nunca vamos a lado nenhum, estamos sempre na nossa própria companhia. Há quem diga que não saiba estar sozinho. Isto já deve entrar nas definições dos eufemismos que falámos há bocado. Claro que sabemos estar sozinhos. E, às vezes, até queremos. E já pedimos, em algum momento, para que nos deixassem sozinhos (nem que fosse para mudar de roupa ou ir à casa de banho em paz). É quando estamos sozinhos que podemos ser nós mesmos, sem receio. Podemos tirar macacos do nariz, espremer borbulhas com caras estranhíssimas em frente ao espelho, esperar que o creme depilatório faça efeito, enquanto andamos pela casa a fazer outras coisas, sem que tenhamos de nos preocupar se parecemos saídos de um filme de terror. Podemos chorar a ver filmes com cãezinhos que falam, cantar alto (e mal) ou andar todos nus, só de meias. E reparem que, invariavelmente, acabo por referir “a casa”. Uma casa, a nossa casa. Como se fosse um escudo protector. Há quem, por exemplo, tire macacos do nariz no carro, como se fosse invisível aos olhos alheios, mas não é. Ainda assim, pode ser considerada outra bolha. A verdadeira intimidade é quando podemos fazer tudo o que queiramos, ou que necessitarmos, em frente a outra pessoa, sem que nos preocupe se nos vai passar a odiar a partir daquele momento, ou a sentir asco de nós. Como que se estivéssemos a partilhar, naquele exacto instante, que somos meros humanos, esquisitos como todos os outros. Que fazem coisas estranhíssimas dentro da sua bolha, da redoma de segurança, onde os olhos alheios não chegam. A não ser se lhes dermos acesso. O acesso privilegiado ao nosso íntimo, como um reality show, mas a sério. É nesse momento que deixamos de ser sozinhos, mas que podemos continuar a ser nós próprios, como se estivéssemos sozinhos. Ou talvez não, e continuaremos a precisar de passar o nosso tempo completamente sozinhos. Porque o tempo gasto com o nosso eu nunca será mal empregue.

Morrer de amor (?)

Acho que é seguro afirmar que todos já tivemos o coração partido. Todos pensámos, em algum momento, que íamos morrer, literalmente, de amor. Ou melhor, pela ausência de um amor em específico, materializada numa pessoa. Pensámos que nenhuma alma seria capaz de suplantar o que estávamos a sentir, tamanha a dor. E pensámos no que iríamos nós fazer nesta mísera vida sem o nosso amor, que nunca o mundo viu outro igual. É uma espécie de dor fininha, que parece que faz doer até os ossos. Alguns choram. Outros bebem. Outros procuram conforto imediato noutros braços. Depende também em que época da nossa vida é que o desgosto amoroso nos apanha, e, obviamente, da disponibilidade de terceiros, se considerarmos a última opção. Há quem goste de aturar as desgraças alheias nesses termos, e fazer de ama seca, porque ali não há um amor igual ao que, infortunadamente, perdemos para sempre. A verdade é que, não descurando que, se calhar, alguns morreram mesmo com o coração partido, a esmagadora maioria consegue, surpreendentemente, sobreviver. Só que é mais inato ao ser humano querer sofrer do que querer ser feliz. Ver o copo meio vazio, ser um mártir. Temos uma atracção natural para o fundo do poço. E parece que nunca estamos suficientemente no fundo. É isso que os corações partidos fazem (nesta parte, ainda não sabemos que vamos, de facto, sobreviver). Somos feios, maus, pouco interessantes, nem tomamos banho, se for preciso. Nunca fizemos nada de jeito na vida. E todos à nossa volta passam a parecer fadas encantadas, cheiinhos de virtudes. Mas, nenhuma dessas pessoas nos interessa, só nos deprimem. Primeiro, porque temos a nossa candeia apagada, e o escuro nem nos deixa ver. E depois porque estamos muito ocupados a sofrer, a rever tudo o que correu mal na relação que terminou, ao ínfimo detalhe, como se estivéssemos a estudar para um teste. É difícil perceber quando é que o coração partido sara. É quando já não pensamos nos ex? É quando passamos a ter outra pessoa? É quando vemos os ex e conseguimos dizer “olá, tudo bem?” com um tom indiferente, sem espumar da boca ou desatar em prantos? Simplesmente, deve ser quando já nem nos lembramos da dor fininha, até aos ossos. Quando, feitos malucos, começamos a olhar para alguém, que novamente traz a sensação de borboletas no estômago. É quando passamos a ser, outra vez, fadas pimpilantes, a espalhar charme por tudo quanto é lado, todos namoradeiros. E vamos ao ginásio, fazemos uma coisa diferente ao cabelo, vamos comprar umas farpelas novas, vamos a sítios novos. Há sempre aquele amigo que, farto de nos ver na depressão, até é capaz de arranjar um date a quatro, que, regra geral, corre mal, mas que não deixa de ser engraçado, porque é uma experiência diferente. E, quando vamos a dar por nós, já trepámos o poço. Estamos cá acima, qual Samara, que se recusa a ficar dentro de água. Cá estamos nós, prontinhos para outra! O mais inacreditável não é como superamos o fim de um amor, que achámos eterno. O mais inacreditável é como podemos voltar a cair na esparrela, mesmo sabendo que, muito provavelmente, dali a algum tempo estaremos outra vez na fase em que é mais certo morrer de amor do que outra coisa.

Rotinas de um gato cor de laranja

Ao final da tarde, tenho reparado que há um gato cor de laranja que vai dormir nas escadas de uma casa desabitada, aqui em frente ao prédio. Esperto, depois de o sol ter aquecido durante todo o dia os degraus de cimento. Penso que não tem dono, e ser um gato abandonado deve ser muito stressante, porque, além do mais, os felinos são animais assustadiços. E na rua há perigos constantes. No caso do gato cor de laranja, acho que encontrou um local onde se sente realmente seguro. Em frente às escadas há um muro também de cimento, inteiro. Há um portão de acesso, que está aberto, mas cresceu muita vegetação que ninguém corta, como silvas. Fica tudo no caminho até chegar ao degrau preferido do bichano. Além disso, as escadas têm um corrimão no mesmo cimento, que o deixa invisível do passeio. Ou seja, é praticamente impossível aceder àquele trono improvisado sem ser detectado. Se calhar é por isso que se sente tão seguro. Porque avaliou todos os riscos antes de criar esta rotina de aproveitar os finais de tarde para dormir numa escada quente pelo sol. Ao mesmo tempo, um dos meus gatos veio miar-me junto às pernas, altivo, como sempre, para me lembrar que tinha fome. Também já esteve na rua, mas era muito pequenino quando foi recolhido, e por isso está habituado a ter comida, casa, carinho e muita margem para fazer asneiras. São rotinas completamente diferentes, e nenhuma estará necessariamente errada. Rotinas são hábitos, não é? Coisas que nos habituamos a fazer em loop, de forma quase mecânica, onde já sabemos como vai começar, o que vai acontecer a seguir e qual o desfecho. Basta falhar um dente desta roda para arruinar o dia. Atira-nos para fora da nossa zona de conforto. Criar hábitos não é mau, de todo. Faz parte da vida, parece-me. É também isso que nos permite, tal como o gato que dorme no degrau quente pelo sol, estar em alguns momentos mais tranquilos, sem estar em constante sobressalto. Ainda que o factor surpresa faça falta, para nos sacudir e colocar alerta, também é reconfortante poder planear a curto prazo. Muito curto. Tendemos muitas vezes, por outro lado, a criar hábitos menos saudáveis. Ficamos presos a algumas rotinas que nada auguram de bom. O ser humano é um animal de hábitos, como os gatos. Mas o que no início pode ser desafiante, num instante pode tornar-se desgastante. E ficamos presos porque achamos que não podemos nem sabemos fazer de outra maneira. É como aquela célebre frase que afirma que não podemos fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes. E nós bem sabemos que nada vai ser diferente. Só que teimamos em insistir. Resumindo numa expressão que adoro: “dar murros em ponta de faca”. Acho que é bastante descritiva. No fundo, as boas rotinas serão aquelas que facilitam o nosso dia-a-dia. As más são aquelas que nos fazem cair sempre no mesmo dia-a-dia. Acho que durante largo tempo irei ver o gato cor de laranja a dormir ao final da tarde no seu degrau preferido de cimento, quente pelo sol. Contudo, aposto que quando chegar o rigor do Inverno, ele vai arranjar outro sítio para as sestas, porque ali vai deixar de ser bom. Sejamos todos como o gato cor de laranja.

Ouvir a música e viver a vida

No meio de um restaurante, um grupo que não devia exceder os dez elementos (até porque isso tudo está proibido) almoçava e ria. De repente, passa um bolo com duas velas espetadas, vi eu da minha mesa. Um dos elementos fazia anos. Em poucos segundos, o grupo entoou o “parabéns a você” com vontade, e, para meu espanto, afinadinhos e com alguns bons cantores. Foi bonito de ouvir. Logicamente, como em todos os grupos de amigos, há sempre um ou dois engrançadinhos que cantam propositadamente fora de tempo e de forma estranha. É isto a vida, no fundo - tudo afinado, mas, de repente, há algo que estraga aquilo que, hipoteticamente, poderia ser a perfeição. Há quem defenda, certamente, que é impossível atingir a tal perfeição. Porque nunca nada é perfeito. Porque ninguém é perfeito. Eu cá acho que estão é a levar demasiado à risca a definição de “perfeição”. O problema, tenho chegado à conclusão, é que na vida é tudo circunstancial. Durante anos quis acreditar que não. Que era sempre possível adaptar, contornar o que seria mais fácil, mais óbvio. E viver aquilo que realmente nos faz felizes, dando chances ao que, por força das circunstâncias, acabamos por deixar passar. Parece que já ninguém luta contra as circunstâncias. Que, simplesmente, se fica rendido ao que está à frente do nosso nariz e se ignora todo o mundo à volta. Estamos a caminhar pelos trilhos da cobardia, do mais fácil e, muitas vezes, da hipocrisia. Batemos no peito, dizemos que somos frontais, boas pessoas. Mas, será? Em tempos de ghosting, hauting e benching, diria só que somos egoístas. Voltando à analogia com os cantores no restaurante, ninguém espera para ouvir a música até ao fim. “Ah, estão a cantar os parabéns. Sei de cor. “, e seguimos, sem sequer olhar para trás. Dizemos que vamos estar sempre lá, para o que for preciso. Será que vamos honrar? Se pedirem para nos descrevermos, diremos maravilhas de nós. Parecemos unicórnios - seres que não existem. Tão bons, com tantos feitos alcançados, sempre sofridos e à espera de poder dar o nosso melhor ao outro. É mentira. Estamos só à procura de validação e de bajulação. De uma massagem no ego. Até que deixa de dar adrenalina (o que passa muito rápido) e vamos à procura da próxima injeção, sem pensar no caos que criámos, qual elefante a andar numa loja de cristais. Afinal de contas, quem quer saber? Não é problema nosso, nunca prometemos nada. Nunca levámos a sério. Por toda a gente que deixa as canções a meio e anda sempre a saltar as faixas da playlist porque já conhece tudo, apreciei aquele momento dos parabéns afinadinhos, e dos amigos a fazer piadolas. E foi divertido. Mais pessoas aplaudiram o momento no final, endereçando felicidades ao senhor Adérito (o aniversariante). Foi bonito, também. E, lá no fundo, fiquei a pensar que a vida seria perfeita se deixasse de ser circunstancial, baça, previsível. E passasse a ser aquilo que nós quiséssemos, ao som da música que nós próprios escolhêssemos trautear.

Em quanto tempo chega a desilusão?

Quanto tempo demoramos a desiludir alguém? E a ficar desiludidos? Há algum tempo tabelado, para sabermos o que é normal? Para sabermos se ainda é muito cedo para ser considerada desilusão, ou se, por outro lado, ainda está dentro do expectável e estamos só a empolar as circunstâncias? São perguntas pertinentes, que tivermos em conta que, hoje em dia, tudo parece descartável. Até as relações interpessoais. É tudo à velocidade da luz, num antigo “vai ser bom, não foi?”. De repente, parece que tudo já aconteceu, porque havia algum prazo de validade invisível. E nem sempre nos apercebemos disso. Vivemos na poesia de Álvaro de Campos, num “sentir tudo de todas as maneiras”. Mas só se for nos próximos cinco minutos, porque depois tenho mais o que fazer. Ou já passou a vontade. Ou era só mesmo isto, obrigada. Ou, se calhar, nem era bem isto que eu idealizava, agora que tirei os tais cinco minutos para pensar sobre o assunto. Quanto tempo é preciso para saber que desiludimos alguém? Talvez nem nunca saibamos, porque isso requer que a outra parte tenha o tal tempo e, claro, a disposição para nos dizer. E, sem dons de adivinhação, poderemos ficar para sempre na ignorância. Em boa verdade, às tantas queremos lá saber disso! Num momento, estamos muito próximos. No momento seguinte, somos completos estranhos. Mesmo sem dar muita importância, o que é certo é que é difícil não sentir a tal pontada de desilusão. “Ah, afinal era só isto!”, num anticlímax extremamente desagradável. Parece-me que não há muito tempo para ficar, simplesmente. Para ser, fazer, sentir. Sem grandes preocupações. Há sempre mais para além do momento que vivemos no presente, numa ânsia de agarrar o futuro, que ainda se está a desenhar. Ou melhor, que estamos somente a rabiscar. Porque é difícil fazer uma obra-prima quando se está com pressa. No máximo, dá para safar. O ideal seria termos tempo, paciência e um sorriso no rosto para aqueles que escolhemos ter na nossa vida. Que escolhemos, sim. Porque, mesmo quando dizemos que foi tudo um mero acaso (talvez tenha sido, quem sabe?), tivemos sempre a opção de dizer “sim” ou “não”. De dar um passo em frente ou de virar as costas. Mesmo quando a opção era caminhar a passo firme para o abismo, a escolha foi, em última análise, pessoal. Mas, tudo tem dois lados. Todas as histórias, melhor dizendo, têm dois lados. E nem sempre no final do abismo temos um trampolim ou uns braços abertos para nos receber. Às vezes, temos somente rocha à nossa espera, tão dura e fria como seria de esperar. Contudo, em boa verdade, apenas julgamos os nossos próprios abismos, sem saber quais são os lugares negros por onde pisam os outros. A tendência é, logicamente, para olhar para o nosso umbigo, e lamentar tudo que não nos corre de feição. Quanto tempo demoramos a ficar desiludidos? E a desiludir alguém? Será o tempo de chegar ao final de um abismo? De perceber se há almofadas fofas ou se há apenas calhaus? Bem, se assim for, então o melhor é aproveitar a queda.

Uma história de amor

Um dos trabalhos jornalísticos que mais me marcou foi sobre um casal. E por bons motivos. Era Dia de São Valentim, e pedia-se uma reportagem cheia de amor. Foi precisamente o que encontrei, com aquele casal de idosos, juntos há tantos anos que nem consigo precisar. Anos multiplicados por décadas de coisas em conjunto. E ainda assim, não deixaram de segurar a mão um do outro enquanto partilhavam a história deles. E os olhos brilharam com as memórias. Ele subia a uma árvore, só para a poder ver passar na rua, de longe, porque os tempos eram outros. As famílias eram contra, e no dia em que noivaram, ninguém apareceu para comemorar. Ficaram só os dois, no local combinado. Ele teve que ir para o estrangeiro, saber de melhor vida, e ela aguentou os pilares da casa. Nunca sequer pestanejaram, porque era aquele amor que sabiam que nunca ia morrer. Com uma paciência de santo, e com bastante gosto, acrescentaria eu, deram beijinhos repenicados para a câmara, vezes sem conta. O truque, partilharam, é nunca ir dormir de costas voltadas, e dar, precisamente, um beijinho antes de fechar os olhos até ao dia seguinte. E depois tudo vai parecer melhor, ao acordar. É um caso de amor e de resiliência. Terminou com os dois a desejarem-me que, um dia, pudesse encontrar o mesmo. E agradeci, genuinamente, percebendo que lhes ganhei a simpatia, pois desejavam-me algo igual ao que de mais valioso tinham. No outro dia, fui almoçar com uma cara amiga. E o amor veio à baila. Falar de amor, quem nunca? Afinal, o amor faz parte da nossa vida, de tantas maneiras. E ocorreu-nos esta reflexão: nestes tempos modernos, da internet, da vida à velocidade da luz, que histórias de amor se vão contar daqui a algumas décadas? Será que ainda alguém vai querer ficar com a mesma pessoa para toda a vida, como os cisnes? “Começámos a falar nas redes sociais. Ele costumava pôr “adoro” nas minhas publicações. Depois, um dia, enviou-me uma mão a acenar e perguntou o que estava a fazer”. Ok, pode ser realístico, mas não tem a mesma pujança de subir a uma árvore só para ver passar, ao longe, a pessoa amada. “Gostava das fotografias que ela postava nas redes sociais. Parecia bonita, mas claro que sabia que tinha alguns filtros e poses à mistura. Mesmo assim, resolvi convidá-la para um café, num sítio bem público, para que ela não achasse que era um tarado, daqueles que enviam mensagens aleatórias a dizer “és linda” ou “desejo-te”, com smiles a mandar beijinhos. Ou nudes não solicitados”. Para quase todos nós, pelo menos numa determinada faixa etária, tudo isto será um lugar-comum. E a internet trouxe, de facto, tanta coisa boa, também às relações. Deixa-nos matar saudades, falar de tudo e de nada, combinar encontros futuros e trocar impressões. Mas o que é certo é que nunca nada vai superar aquilo que dizemos cara a cara, olhos nos olhos e, para os mais atrevidos, de mão dada e tudo. Porque afinal, o amor continua a ter que preencher um forte requisito em todas as gerações – o amor quer tocar, mexer e estar próximo. E isso, as redes sociais (ainda) não conseguem contornar.