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Dar água sem caneco

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Quão fácil é falar? Falar é algo natural ao ser humano. Comunicar, de qualquer forma. É inato. Mesmo quem se diz anti- -social e que prefere estar sozinho acaba por ter necessidade de algum contacto humano (até porque, reparem, “quem se diz”. Tiveram em algum momento que verbalizar este sentimento). No meu caso em particular, sempre tive uma propensão enorme para comunicar. Até em demasia. Que o diga a minha mãe, que teve que lidar com uma criança que só queria conversar a toda a hora, criando tópicos de conversação à velocidade da luz e testando palavras que ouvia na televisão e tentava encaixar num discurso que, achava, coerente e fluído. “Filha, vai brincar um bocadinho para outro lado, para a mãe descansar a cabeça”. Uns bons trinta segundos depois, após uma volta completa à mesa da cozinha: “Já descansaste? Já posso falar outra vez?”. De tal forma estamos habituados a interagir, sem, até, darmos muita importância, que frequentemente dizemos mesmo que “falar é fácil”. Porque, de facto, sem embaraço atiramos palavras para expressar verdades, inverdades ou raio de coisa nenhuma. Para “deitar conversa fora”, para “dar dois dedos de conversa”. Ou, em alguns casos, “dar água sem caneco”, chegamos a essa conclusão. Temos a percepção de que falar, ceder parte do nosso tempo ou da nossa atenção pode não ter grande importância. Que não belisca em nada a nossa vida. Que pode ser, até, uma espécie de caridade para com alguém que precisava mesmo daqueles minutos do nosso dia. Minutos esses que a nós nem nos fizeram diferença, nem demos pela falta deles. Conseguimos completar as nossas tarefas sem aquele bocado que atirámos fora. Ainda assim, isto não corresponde à verdade. Dar água sem caneco pode ser perigoso. Não tão perigoso como ser ajudante de um atirador de facas ou beber lixívia - porque são coisas potencialmente mortais. Mas pode deixarmos danos irreparáveis. Porque o tempo tem esta mania estranha de só andar para a frente. E ainda ninguém fez o favor de tornar um vira-tempo real (isto é uma referência à minha saga literária predilecta, mas podem trocar por máquina do tempo, que vai dar ao mesmo). Se somarmos todo o tempo perdido com conversas sobre coisa nenhuma ou que não nos levaram a uma conclusão arrebatadora, vamos chegar à conclusão que com este lero-lero perdemos, pelo menos, tempo que podia ser gasto com uma boa soneca, num passeio, numa mariscada ou, quiçá, numa prosa realmente interessante. E por que é que temos este tipo de conversas? É porque achamos que nos guiam a algum lado ou porque retiramos delas alguma satisfação pessoal momentânea, sob um ponto de vista retorcido? Há estas pessoas que teimam em conversar sobre tudo. Tudo é um possível assunto para uma conversa séria, daquelas que exigem tempo e disposição, para deixar tudo em pratos limpos. A não ser, claro, que seja mesmo necessário conversar. É que, hoje em dia, tudo é muito efémero. E é tão fácil falar, mas só se não tivermos nada de útil para dizer. Dizemos coisas da boca para fora. E, no final do dia, parece que andamos é todos a dar água sem caneco.

Tânia Rei