PUB.

Futurologia

PUB.

A conjuntura actual tem-nos obrigado a viver no futuro. O agora é como viver no suspenso, à espera. É viver da melhor forma possível, da mais responsável, da mais restrita. Uma espécie de garantia para chegarmos ao tal futuro. Há quase um ano que as conversas são dominadas pelo futuro: “quando isto melhor”, “assim que der”, “quando tudo passar”, “não vejo a hora”. Nunca vivemos o presente com tanta pressa, porque o que interessa é, na verdade, o futuro. Queremos lá chegar com a máxima brevidade possível, mesmo sem saber quando isso será. Numa actualidade repleta de incertezas e provações, é- -nos permitido este escape - viver no futuro, onde a nossa vida voltará a ser como antes. Ainda que nem saibamos, talvez, o que é esse “antes”. Porque nunca nos tínhamos encontrado em tamanha situação, em que o mundo tal como o conhecíamos ficou virado do avesso. O que nos vale é poder sonhar com o futuro, fazer planos para ele. Idealizar os sítios onde iremos, as pessoas com quem estaremos, o que faremos. São mesmo as pessoas e a liberdade de ir onde queremos e fazer o que queremos que mais passam a importar. É o que domina o tal futuro. NinFuturologia guém quer estar no futuro sozinho. O futuro deixa de ser a resposta a uma pergunta clichê, de onde nos vemos daqui a uns anos, rodeamos de bens materiais. Passa a ser uma mesa com a família e os amigos. Talvez até desconhecidos ou recém-conhecidos. Passa à frente o contacto humano. Passam à frente os risos e as conversas. Os beijos que queremos trocar. Os abraços, dos quais estamos destreinados. Fazer futurologia passou a ser uma forma de viver, de ser abduzido por um mundo paralelo. Estamos fartos do raio das provações, e, ainda assim, não as podemos ignorar. Provavelmente, quando tudo ficar bem, já teremos planos para as próximas décadas, de tanto almejar o futuro.  Algumas pessoas ficaram mais perto, mesmo estando longe. Outras, ficaram cada dia mais longe, e é OK. Percebemos que, afinal, sempre tivemos tempo, somente não tínhamos a disposição. Ou tínhamos disposição a mais para o que era um vazio, e isso obriga-nos a reflectir. Ainda assim, são mesmo os outros que mais nos fazem falta. Talvez, no tal futuro, aprendamos a gerir melhor o relógio. Deixaremos as pressas, os afazeres que, se calhar, nem são assim tão importantes. Talvez no futuro se queira estar presente. Mal posso esperar pelo futuro, esse malandro fugidio. Até lá, ainda falta uma grande corrida de obstáculos. O futuro é a luz ao fundo do túnel, a réstia de esperança. É como naquelas séries televisivas, com muitas temporadas, em que a derradeira demanda vai ficando adiada, porque, entretanto, surgem outros problema s prement e s que não podem ignorar, sob pena de hipotecar o propósito final. Contudo, está sempre no pensamento, no foco. Nunca fui adepta de futurolo - gia. Agora sou. Vivo a adivinhar, a desenhar o porvir. Porque o presente não me serve. O presente vai, um dia, ficar num passado doloroso. Uma aprendizagem à bruta, que nunca pensámos ter. E, quando dermos por ela, já é o amanhã pelo qual tanto esperamos. Nesse dia, quero ser mais feliz do que alguma vez fui, aproveitar melhor o tempo, a liberdade e as pessoas. Porque, como todos, saberei o quão foi difícil viver num agora que não queria, obrigada a viver no futuro.

Tânia Rei