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Tânia Rei

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A vida é dar e receber, para repôr a prateleira

Se a vida fosse uma prateleira de onde todos só tiramos, sem haver repositores, ra- pidamente se esgotariam os recursos disponíveis. Seria, talvez na óptica de muitos, o ideal. Não uma vida gasta de recursos, porque isso era uma mera consequência na qual nem tinham pensado, mas poder só tirar. E tirar, tirar, tirar. Sem dar nada em troca. Como naquelas barraquinhas de troca de livros, em que o convite é para levar um e deixar outro no seu lugar. Sempre desconfiei que o rácio entre quem tira e deixa não é o mais saudável. E só vão ficando livros porque, em boa verdade, os que gostam de ler também não abundam. Ou deixam um livro do qual nem gostam nada, os despojos do que receberam certa vez nos anos. Na vida é mais ou menos igual, só vai ficando alguma coisa porque muitos não sabem do que andam à procura. Então pode acontecer que deixem só porque estão indecisos sobre se querem ou não. E nesse entretanto, provavelmente, outro pegou. E é mais ou menos quando vamos às compras com fome - só queremos levar, nem interessa bem o quê. Estaremos esfomeados de vida? Não creio. Apenas temos ânsias de ter - experiências, coisas, pessoas. Tudo a orbitar em torno das nossas cabeças gigantes, sem realmente saborear. Aquilo que a vida nos dá pode ser facilmente medido com a pergunta - o que é que isto me acrescentou? Isto é, sou agora melhor pessoa? Estou mais sábio, mais maduro? Estou melhor preparado para os desafios futuros? E podemos ver o reverso, o que damos - o que é que eu acrescento ao outro? Ajudei alguém a ser melhor pessoa? Tornei alguém mais sábio, mais maduro? Preparei alguém para os desafios futuros? Constato, cada vez mais, que apenas se procura uma vida vazia. Um desenrasque, com o único propósito de ir respirando e, bem, o resto logo vemos. O consumo imediato, sem estar predisposto a viver, de verdade. E assim se esgotam recursos, se não temos nada para dar, como se fôssemos uma laranja seca - esgotamos experiências, coisas, pessoas. E ficamos outra vez (e cada vez mais sozinhos). “Mas eu não me importo de ficar so- zinho!”. Não, claro que não, até porque, claramente, nem toda a gente gosta da vida da mesma maneira. Refiro-me “sozinho”, sem experiências, coisas ou pessoas que acrescentem. É nesse momento que, olhando para a frente, damos de caras com uma prateleira vazia, onde já não resta mais nada para tirar.

“Palavras que rimam resultam sempre”

"Palavras que rimam resultam sempre”. A frase não é minha, como conseguem perceber pelas aspas. Mas é um conselho sábio, lá isso é. A rima conquista, é uma verdade, porque nos fala ao coração. E nota-se que perdemos algum tempo no dicionário. Ainda que a poesia nunca tenha sido a minha cena na escrita (porque exige uma sensibilidade que eu, claramente, não possuo), gosto dela e de palavras que rimam. E gosto mesmo quando não rimam. Gosto de trava-línguas e lengalengas. Gosto de ditados populares e de slogans. Gosto, em resumo, da palavra. Misturada, triturada, amassada, cozida, assada, frita, com arroz ou só uma saladinha verde. Usando palavras repisadas por aí - “um gesto vale mais do que mil palavras”. Será? É capaz uma acção de apagar mil palavras? Isto é um contra-senso, quando firmamos palavras em papéis, para tornar a imortalizar. E onde fica o “palavra de honra”? Ainda que tudo o que acabei de descrever seja um acto. Como é, afinal? Ficamos com as palavras e esquecemos os actos? Ou ligamos só ao que é feito e nunca ao que é dito? É pena que ninguém tenha feito - ainda - um manual. Assim saberíamos quando deveríamos falar ou quando deveríamos fazer. Este plano tem buracos: algumas coisas não se podem fazer sem se explicar e outras fazem-se mas não se explicam. Mas eu cá não gosto do que não se explica. Por mim, o ideal seria, e até já vos disse, que a vida tivesse legendas. Um acompanhamento feito por palavras que seja capaz de entender. Se eu escrevesse poesia, todas as minhas palavras seriam clichês. Onde o “amor” rima com “calor” ou “dor” ou “ardor”. E “paixão” com “atenção”. Por extenso, não tenho limites. Gosto, afinal, da palavra solta. E gosto que me falem a cantar, com métrica e léxico rico. Acima de tudo, gosto que me falem com detalhe. Tudo explicadinho, como numa receita culinária, não gostasse eu tanto da palavra cozinhada. Afinal, se calhar o que o mundo precisa, em geral, é que nos digam rimas por- menorizadas e que não tenham atitudes que nos façam mal. Se assim fosse, viveríamos um eterno poema. Com rima ou sem rima.

A vida amorosa é como o corredor dos iogurtes do supermercado

E ali estava eu: tão perdida no corredor dos iogurtes como na vida, em geral. O costume. É aqui que começa a nossa viagem - num espaço ladeado por arcas de refrigeração. Quase poético, eu sei. Onde nos pode levar? Talvez, e se formos em linha recta, à secção dos frescos, no máximo. Não criem grandes expectativas. Expectativas normais, diria, levava eu, enquanto puxava o cestinho das compras. Queria iogurtes de coco. São os meus preferidos de todos. Parecia tão fácil. Acreditem ou não, não foi. Até havia o sabor pretendido, mas sem gordura, ou de soja, ou sem açúcar ou com misturas. E eu naquele momento estava capaz de matar por algo só normal, entendem? Descobri que existem mais iogurtes do que aqueles que seriam necessários. Como de abóbora e laranja. Eram precisos? O Marketing dirá que sim. Eu não paguei para saber. Já bufava eu como uma chaleira a ferver ao lume quando encontrei - benza-os Deus! - iogurtes normais de coco. Mas... (há sempre um) vinham num pack com mais seis, emparelhados, de limão, framboesa e banana. Destes últimos nem sequer gosto. Se comer, é por frete. Os outros, nem nunca provei. Por isso vou manter-me céptica-normal até os degustar. Reportarei resultados. Nesta senda, ocorreu- -me isto - a nossa vida amorosa é como o corredor dos iogurtes do supermercado. “Tudo o que vemos exposto tem prazo de validade?”, pergunta- ram-me. Pode ser, mas não é por aí que vamos. Tantas opções, algumas mais ou menos duvidosas, pelas quais podemos enveredar, se quisermos. Uma busca incessante, no meio de tanta variedade. E acabamos sempre por escolher. Tanta vez teria sido melhor cortar os lacticínios da alimentação. Ou optar pelo vegan. Só que, escolhemos. E não serei a desbravadora, ao levar para casa uma catrefada sem saber se estou capaz de fazer todo o conteúdo do pack. Só que havia ali qualquer coisa que fazia o meu âmago pipilar - o raio dos iogurtes de coco, pelos quais estava a salivar. Não me julguem. Quem nunca? Foi assim que acabei com oito iogurtes em casa, sendo que gosto apenas, garantidamente, de dois. Meia dúzia foram por arrasto, sem saber o que reservam ao meu palato, que é muito refinado e habituado a amarguras. Se não gostar, posso sempre atirar ao lixo, renunciar. Não assinei nenhum papel, se é que me entendem. Ou, em boa verdade, é preguiça e pressa. Deveria, sim, ter esperado pelo pack de iogurtes perfeito, aquele que me enchesse as medidas, que fizesse o pleno. Enfim, agora já está. Porque, vejam se me en- tendem, ali estava eu: tão perdida no corredor dos iogurtes como na vida, em geral. O costume.

Mentiras, chico-espertismo e gatos gulosos

A mãe comprou um belo naco de vitela para assar no forno. Muito tenrinha, garantiram no talho. Estava destinado a acompanhar com batatas e arroz, compondo a mesa do almoço de domingo. O gato, ao ver tamanho petisco - tenrinho, tenrinho - imaginou que se desse uma dentada do lado mais junto à parede ninguém veria. A ração é boa... mas...não chega. Nunca nada chega quando a tentação é posta ali, numa banca expos- ta. Plot-twist - foi apanhado. À partida, somos mais inteligentes do que os outros. Há uma vozinha que diz “não achas que ela pode descon- fiar? “. Mas, do lado oposto, um vozeirão palpita que, tal- vez com sorte, o outro tinha acordado meio estúpido hoje. E por isso, com essa tal sorte, pode ser que passe e que nos vamos safando. É um princípio comum - ou denota falta do mesmo. Criar novelos, enredos. Ir tirando o proveito que acharmos con- veniente. As mentiras, dizem, criam hábitos. Fica o costume de oprimir a verdade. Ou de lhe dar outros contornos, mais agradáveis. Omitir, é essa a palavra. E omitir é algo que até tem o seu quê de aceitação social. Afinal, ninguém precisa de saber tudo. Até causa desgaste, tanto conhecimento desnecessário. E nas mentiras podemos ser como quisermos. Vamo- -nos enganando a nós e aos outros. Quem sabe o que hoje é mentira amanhã seja ver- dade? A esperança é a última a morrer, toda a gente sabe. Não é a mentira. E a culpa, essa, morre solteira. Será que alguém se sente culpado por enganar os ou- tros? Bem, se sim, demons- tra arrependimento. Já conta alguma coisita para o saldo final. Sabem, naquele em que vão decidir se vamos arder no Inferno ou ir a grandes festas no Céu. O que ninguém gosta é de se sentir enganado. Traído. Mesmo que não sejamos os seres mais íntegros a pisar a Terra, achamos sempre que não nos vai calhar. Nunca entendi a necessidade de enganar os outros. Podemos, simplesmente, ignorar esses outros que não são dignos das nossas verdades. E a vida segue. Mas talvez sejam esses mesmos que temos vontade de enganar. Por não serem assim tão especiais. Ou tão inteligentes. Achamos nós. Só que, com o tempo, fica esba- tida a importância e o que é alguém importante. Há por aí tanta gente que num instante se encontra alguém melhor. Ou, pelo menos, que não seja pior. Todos somos vítimas, de alguma forma, da vida. A vida molda-nos, com todas as tragédias e acontecimentos que experienciamos. Uma coisa é certa - ninguém sai dela sem mácula. Nesse dia, o gato foi corrido à lei do grito da cozinha. O chinelo falhou por pouco o alvo. De barriga cheia, talvez ache que valeu a pena. Quando tiver fome e ouvir um “agora, espera, seu gato guloso”, ou lhe faltar quem lhe coce as orelhas em sinal de desagrado, talvez lhe parece diferente. Ainda houve vitela que che- gue para o almoço, porque já foi comprada a mais, para so- brar. Como a paciência, faze- mos sempre por ir sobrando. Moral da estória? Da próxi- ma vez, o gato vai estar debai- xo de olho. Porque a confiança é de vidro, ainda mais quando há dentes e garras à mistura. A artimanha vai ter que ser maior. Até que, virá o dia, em que a carne vai estar tão protegida que não há forma de ludibriar. Afinal, por cada acto de chico-espertismo há sem- pre uma mente a ser aguçada. E, um dia, aprende-se a deixar de ser tenrinho, por mais que o gato pareça inofensivo e até fofo enquanto se espreguiça nos dias de sol.

O beijo - mas agora a sério

Há uns tempos, se estão recordados - claro que estão, eu sei, seus fofos! - falei-vos sobre beijos.

Percebo que, devido a alguma nuvem cor-de-rosa, doença ou acidente grave que tenha tido à época, adoptei uma postura muito romântica. E, sobretudo, muito romantizada (vómitos). Peço desculpa. Do fundo do meu coração, perdoem esta pobre, sofrida e incauta cronista (lágrimas rolam-me pelo rosto). Mereciam mais to- dos aqueles que me acompanham na esperança da abordagem mordaz do costume.

Quero agora dar-vos a verdade. Pelo menos, aquela da qual eu sou possuidora. Vale o que vale. E vale mais a intenção.

Voltei aos meus primórdios, de quando comecei a escrever estas maluqueiras. E isso consistia muito em fazer perguntas a pessoas. Vai daí, questionei vários amigos e amigas sobre más experiências beijoqueiras. Não fiquei satisfeita com as respostas. Portanto, estou agora em crer que maus beijos são tema tabu.

Fruto das minhas pesquisas, acredito que maus beijos são como fantasmas - há quem jure que existem (como eu, já la vamos), que eventual- mente, já teve algum contacto, mas não tem provas cabais para convencer a classe. E a esmagadora maioria da população não tem dúvidas de que não há tal coisa. Até goza com essa possibilidade (para-normal ou normal? Decidam por mim, sou Balança).

“Ah, não existem maus beijos, porque tudo depende do sentimento ou da química entre as pessoas”. Deixem cair a máscara, seus Valentins de trazer por casa! A conversa aqui é sobre a técnica. Todos sabem, em teoria, o que fazer. Mas há formas de pôr em prática melhores do que outras.

Não tenho vergonha de admitir que já tive maus beijos. “Tânia, e o que é um mau beijo?”, consigo ouvir-vos perguntar. Ora bem, são os beijos que defraudam os vossos requisitos para que ele seja prazeroso - nenhuma/ pouca/muita língua? check-up a todos os órgãos internos incluído? muita saliva? bateu dente no dente? pareciam um peixe daqueles limpa-vidro, sem expressão e sem vontade, só a abrir e a fechar a boca no aquário? Estão a perceber, não estão?

O que mais me intriga são as pessoas que dão beijos na boca, com menu completo, com os olhos abertos. Em conjunto, cheguei à conclusão que, principalmente quando se tratam de primeiras interações bocais, tendemos a estar preocupados ou ansiosos para perceber o que se está a passar com o parceiro. É aí que abrimos a pontinha de um olho, só para ter a certeza que está a ser ao nível do incrível. E não há nada mais assustador do que encontrar dois olhões abertos, a fitar a ponta dos narizes e todo o acontecimento, de cima. De repente, vai-se o fulgor e é como se estivéssemos a fazer reanimação a uma vítima de afoga- mento (que ficam sempre de olhos abertos). Sinto ali uma desconfiança - terá medo que lhe palme a carteira? E os olhos abertos a fixar um ponto por cima do ombro? Deixam-nos confusos, como aos donos de gatos, quando os bichanos atentam num ponto na parede onde não há...nada.

É estranho. E, talvez por ser tão exigente...Bem... Essa fica para outro dia.

Se calhar o amor nem existe

Ninguém gosta de histórias de amor perfeitas. Ficaram juntos, no mínimo, mil anos, tiveram um rebanho de filhos e netos, ele nunca olhou para o rabo da vizinha, ela sempre lhe foi devota, morreram à mesma hora para que nenhum penasse, fim. O que vem a ser isto? Não. Isto não serve. Somos sempre a favor das histórias de amor impossíveis. Das que têm tudo para dar errado, daquelas de que as odds fazem pouco. Essas, sim, são do caraças. O normal não serve no amor. Não (abano a cabeça, com veemência). Os que têm tudo contra são os que merecem ficar juntos. Raramente ficam, só existem fugazes e furtivos momentos de encontro. Mas que fazem valer uma vida inteira. Como no filme A Cidade dos Anjos. Um amor, à partida, inconcebível, que depois até dá, e um plot twist que acaba com ela atropelada por um camião no dia seguinte a ele ter deixado de ser um anjo e de terem passado uma noite inarrável juntos (peço desculpa por eventuais spoilers, mas se nunca viram o filme não vivem neste mundo). Certa vez escrevi que o amor é diretamente proporcional à simplicidade e à naturalidade com que o expressamos. Continuo a acreditar que é verdade. Acrescento agora, após franca reflexão, que, muitas vezes, é inversamente proporcional às adversidades. O que, feitas as contas, e pese embora a minha fraca matemática, é capaz de o resultado ser um berbicacho jeitoso. Porque o que não podemos ter encerra sempre em si um fascínio absurdo. Guarda todos os “e se” que magicamos, de forma quase obscena, na nossa cabeça. Imaginando, estupidamente sem motivos, que está reservado O DIA em que os astros se vão alinhar e tudo vai fazer sentido, fluir como deve de ser. Voltando ao exemplo dos filmes, estes amores impossíveis são sempre protagonizados por dois personagens de carácter extremamente forte e vincado. Sempre mais ou menos acertados com a vida em geral, tirando, claro, no campo sentimental. Isso vai confuso ou inexistente. Por vezes, até há um deles que tem uma relação, que, por norma, tem ali um defeito qualquer, que a torna meia rançosa. Isto para que não sintamos empatia pelo terceiro elemento, que, a correr bem, vai levar em determinada altura uma guia de marcha. E, limadas as arestas, afinal, nem são assim tão diferentes e chegam à conclusão a que todos já tínhamos chegado mal trocaram o primeiro olhar - foram feitos um para o outro, porra! Às vezes, uma das partes do casal até é dos maus. Está ligado ao mundo do crime, parece ser frio e sem escrúpulos. Só para que depois nos seja cuspido na cara que o amor tudo pode, tudo muda e tudo suporta. E levarmos com uma dose industrial de altruísmo qualquer. Creio que seja assim na ficção porque, na realidade, isto é uma mentira. Tende piedade de nós, que acreditamos no amor. O peso da vida vai sempre provar-nos que o amor só existe nas telas, nas linhas dos artistas, nas letras dos poetas. Se calhar, nem existe! O mundo não está para brincadeiras, é esta a verdade impiedosa. E, tendemos a escolher o fácil, o confortável, o exequível. Porque, no final das contas, somo actores da nossa própria vida. E, lamento, não costumamos ter ao dispor um argumento digno de um Oscar.

O beijo

Pergunta para queijinho - quem foi o da ideia de dar beijos na boca? Uma dúvida que me tem inquietado. Quem, quando, porquê, onde, como, com quem? Não corram já para a Internet porque, logicamente, já fiz isso e estou pronta para vos deixar um resumo. Ora, se isto vem ou não da Pré-História, ninguém sabe. Pelos vistos, o pessoal das cavernas estava muito ocupado a desenhar mamutes e esqueceu-se de documentar nas paredes os beijos, se já os havia. Portanto, podemos deduzir que os homens não davam um beijo de despedida às mulheres quando saíam para caçar. Ou isso, ou correr com setas atrás de mamutes era algo mais digno de registo. O que entendo perfeitamente. Ou então talvez os beijos fossem dolorosos antes da invenção das escovas de dentes, com hálito a mamute. Adiante. Os Egípcios, também nada. E são os Hindus ali por volta de 1200 A.C que detêm o título de serem os primeiríssimos a falar por escrito de um beijo na boca, onde aparece uma frase que ainda hoje faz todo o sentido: “Amo beber o vapor dos teus lábios”. Algo assim. Apontem, é alta dica. Bom, encurtando, depois veio o Kama Sutra, os soldados beijoqueiros de Alexandre, o Grande espalharam o hábito por aí (parece que faziam e gostavam) e, ali pelo meio, já algures Idade Média, aparece o “beijo à francesa”, o tal beijo de boca aberta com língua (pelo menos, é isso que “beijo à francesa” quer dizer). Apesar de desconfiar que já metia língua antes dos franceses. Porque, convenhamos, eles já apanharam o beijo assim com alguns séculos de existência. Ora, mas nada disto responde à minha inquietação. Quem é que, pela primeira vez, olhou para outro alguém e pensou “devia colar os meus lábios naqueles lábios, para exprimir coisas”? Depois, acredito que tudo tenha sido uma evolução natural, de explorar os recursos disponíveis. O beijo que é o início de tudo. Tanto que todos nos lembramos, com mais ou menos embaraço, da nossa estreia. E, sem ele, não há nada. É o primeiro contacto mais íntimo. A primeira descoberta. Uma forma bastante elucidativa, agora que está introduzido na sociedade, de demonstrar o que estamos a sentir, o que queremos. E muito mais eficiente do que palavras. Tão avançada vai a História do beijo que o que não faltam são beijos famosos, eternizados no cinema, na pintura, na música, na literatura... Recordo um talvez menos óbvio, o primeiro beijo do Harry Potter, com a Cho Chang. Quando ele conta aos amigos, tem que responder à pergunta: “Como foi?”. “Molhado... É que ela estava a chorar.”. “Beijas assim tão mal?” Isto para lembrar que cada um tem as suas preferências na hora do beijo. E temos a lista do que torna um beijo mau, bom ou assim-assim. O beijo que, tanta vez, é um medidor de química - se não conseguem acertar línguas, vão conseguir acertar-se na vida? Acho que é uma pena o inventor do beijo, seja lá ele quem for, não ter patenteado a ideia. Porque, provavelmente, mudou o Mundo e a forma como olhamos para a boca. Em especial para aquelas que andamos mortinhos por provar. Merecia ter estátuas em todas as esquinas. O beijo, que é como soprar a nossa alma contra a de outro ser. Podia finalizar a falar do melhor beijo da História. Mas isso ia dar discussão entre nós, caros leitores. Não me parece algo consensual. Portanto, vou antes despedir-me a dizer-vos qual é o pior beijo da História - aquele que, apesar de muito desejado, nunca acontece.

Discussões das boas não são as modernas

“Dá-me um bom motivo para não te desligar o telemóvel na cara agora mesmo?!”. Bem, se calhar aí não posso ajudar. Mas acabei de dar um bom motivo para atenderem chamadas longe de mim. Mesmo quando estou com auriculares nas orelhas. Posso nem estar, em boa verdade, a ouvir nada. E ser um engodo para vos espiar (riso maléfico). Juro que não fiz por mal. Estava sentada, sozinha, numa noite destas, no café. Pedi a bebida escura com o mesmo nome, “café”, que bebo forte e sem açúcar. E esqueci-me de tirar os fones dos ouvidos, apesar de ter desligado a música para conseguir pedir o dito café à menina que estava ao balcão a trabalhar. E com coisas aos gritos na nossa cabeça, por norma falamos muito alto, por isso carreguei no “off”. “Tendo em conta o que me disseste na nossa última conversa, achas que devo falar contigo?”. “Ui, isso foi dureza!”, pensei eu. E imaginei inúmeros cenários, que incluíram aquelas coisas extremamente sinceras que dizemos com os copos, mas que depois “nem era nada assim”. Só que está dito. A título de exemplo: “Comi o teu primo”, “O rabo da tua amiga é melhor”, “És chato e deixas-me entediada”. Pergunto-me, contudo, se essa conversa terá sido presencial ou através de um ecrã. É que o hábito de discutir pessoalmente está um bocado, diria eu com muita pena, em desuso. Vemos por aí em memes a circular na internet que os mortais temem a frase “temos que falar”. Mas isto pode ser dito por escrito, e vai dar ao mesmo. Na loucura, um áudio. Um monólogo, onde podemos falar, falar, falar e falar sem sermos interrompidos. Porque, ali estamos nós, a debitar “informação” para um aparelho electrónico. Perde-se a graça da argumentação na hora, sem grande tempo para pensar, tudo a quente, no verdadeiro calor do momento. “Devia ter-lhe dito X e Y! Não me lembrei, nem estava em mim!”. Agora, nestes novos termos discussionais (sim, esta palavra nem existe, lidem com isso) perde-se o imediatismo. Nem abrimos logo as mensagens, para não dar uma de ansiosos, ouvimos os áudios umas três vezes, só para ter a certeza do que fomos insultados. E para contra- -atacar temos todo o tempo do mundo. Até podemos pedir sugestões a um amigo, para pôr mais pimenta. Odeio discutir. É algo para o qual tenho pouco à-vontade. Por isso, partir para a discussão é o meu último recurso. Quando a minha paciência já expirou e a troca de ideias minimamente saudável já não vai lá. Mas nisso sou da velha guarda. Ao discutir via digital perde-se muita coisa, como quando adaptam os livros para filmes. E é fácil cair em erros de interpretação, por melhor que seja o Português do vosso opositor. Se calhar, preciso de me modernizar. Se calhar, discutir por mensagens escritas ou de voz até é uma forma de poupar tempo. Podemos estar a discutir enquanto fazemos o almoço, matamos o tempo de uma viagem ou trocamos de roupa para sair de casa. Podemos mesmo estar a ter várias contendas em simultâneo! Estas discussões tendem a acabar com um bloqueio nas redes sociais e respectivas plataformas de conversação. Ok, mais suave do que uma restrição judicial. Pelo menos, mais imediato e menos burocrático. E com menos chatices legais. Engraçado como discutir assim parece ter um tom mais definitivo do que a própria morte. Andamos a levar a vida online muito a peito. Discordam? Venham cá dizer isso a olhar na minha cara, se tiverem coragem!

Vou tentar-vos

Nunca vi uma tentação que fosse boa. Pelo menos, em teoria. Se é uma “tentação” é melhor fugir. Tem tudo para dar errado e é uma viagem grátis para o Inferno. Só de ida, logicamente.

A não ser que tanto vos dê onde vai ser o vosso eterno descanso (tendo em conta que “eterno” me parece MESMO muito definitivo, pensem bem antes de responder) ou que gostem imenso de ganhar sorteios aleatórios por conta de uma colecção de prémios inúteis que têm a ocupar-vos espaço e a encher-se de pó e mofo em casa, o meu conselho é: fujam das tentações.

O ideal seria terminar assim. Chegaria. Recado dado. Obrigada por lerem. Faltava só mandar-vos beijinhos, dizer que foi bom estar com os caros leitores nesta edição e que nos vemos por aí, quando calhar. Mas não.

Enquanto escrevia as linhas acima, fui tentada várias vezes. As bolachas de aveia com cobertura de chocolate, o café, o cigarro, a converseta nas redes sociais, o transeunte com umas calças azuis... Todas elas venceram. Sou fraca, admito.

Tentação é tecnicamente um sinónimo de pecado. Ou nem seria uma tentação e passava a ser outra coisa qualquer, com outra definição. Porque tem colado isto do “ estar a fazer o mal”. O Diabo (assim escrito porque me refiro ao próprio, não a subordinados) tentou a Eva. Uma tentação materializada numa maçã... E nem havia químicos naquela altura, para a deixar vermelhaça. Ela caiu. Agora a sério, como é que alguém pode esperar que nos safemos?

A tentação fala ao ouvido com aquela voz arrastada e sensualona. Bate um par de vezes as pestanas, e caramba, leva tudo de nós. Arrancamos- -lhes um sorriso envergonhado e quem perde somos nós. O ar, pelo menos.

Imagino que isto vos aconteça todos os dias também. A dualidade das coisas mundanas, onde um lado teima em ter que ser bom - leia-se mais correcto, racional - e outro mau - completem a gosto, deixo-vos com os vossos pensamentos.

Porque somos pessoas perfeitas, claro que nem ponderamos escolher para o lado do mal. Nunca! 

Mas depois sopra ao ouvido um ser trajado de vermelho. Lança ideias como se estivesse a projectar um filme numa tela branca como a neve, que é (nunca duvidei) a nossa mente sem mácula.

Abanamos a cabeça com veemência! Não pode ser! Olha esta agora! Mas a semente está na terra. Podem a) adubá-la e cuidá-la, b) deixar crescer grama e colher o que der, c) arrancá-la e queimá-la num ritual qualquer.

Se isto vai mudar alguma coisa? Zero. Porque não apelidamos algo de “tentação” de ânimo leve. Nem alcoolizados na discoteca às 4h da manhã. Porque tentações são para levar a peito. Tendem a prolongar-se e perseguem-nos, malandras. E nós vamos abrandando o passo e deixando cair migalhas no caminho, não vá ela perder-nos de vista...

E, quando cedemos?

São, como diz o povo, “horas do diabo” quando decidimos ceder, deixar ir. Alegamos que foi sem intenção, que agimos no momento sem pensar, que... Espera lá! Quantas vezes já teríamos pensado? Feito o guião do tal filme com que o nosso demónio pessoal toldou o nosso discernimento?

A tentação também tem duas faces. De um lado, o violento desejo. Do outro, talvez o remorso, não sei bem. Se calhar, se existe remorso é o tal pecado. Se é pecado, tivemos má índole. E se nada nos isenta da factura a pagar por causa das tentações... mais vale não resistir e ir a todas. Assim pelo menos não vão passar o resto da eternidade a ouvir-me queixar de estar a arder no braseiro por conta de meia dúzia de bolachas de aveia com cobertura de chocolate.

Previsões amorosas. Ou algo parecido. Sei lá

Todos somos especialistas em determinados assuntos. Licenciados, mestrados, doutorados e com incontáveis pós-graduações. Os melhores exemplos são: o tempo e o amor. Todos nós falamos com autoridade (e nem desgostamos) na hora de comentar as condições da atmosfera e dos corações (nem sempre em condições). Talvez porque todos já sentimos na pele os efeitos de ambos. E é muito mais fácil falar do que nos costuma tocar. Sem grande esforço nos identificamos também com as vivências dos outros, tantas vezes semelhantes ou tiradas a papel químico. Mais do que uma vez me perguntaram o porquê de escrever tanto sobre o amor e as relações. A resposta aqui está. Assertivamente, somos capazes de discursar, sem gaguejo, sobre o clima de hoje. Olho pela janela neste final de manhã e, enquanto vos escrevo, o céu está cinzento, muito nublado, apostando eu o dedo mindinho da minha mão direita (até porque sou esquerdina) que à tarde vai chover. Mais ou menos nesta linha, parece que óptima a dar conselhos amorosos. Rara é a posta de pescada que arremesso, quando assim me é solicitada, que não é recebida com um “incrível”. Outro facto universal é que vós estais conjuntamente neste grupo de gurus. Esta sabedoria teima só em não funcionar para nós mesmos, que passamos a vida a dar com os burros na água. Faz parte da mística da cena. A Meteorologia, mesmo com todos os estudos, pode ser matreira. Depois do jornal das 8 ficamos com uma ideia que às primeiras horas do dia seguinte se esfumaça. Mas nada invalida um volte-face, estão a ver? O amor não lhe fica atrás e adora contrariar. Quantas vezes pensou que era o “amor da vida” e só durou uma semana? “Mística da cena”... Uma ova! Há diferenças. Ao passo que nem conseguimos evitar experimentar o estado do tempo enquanto aqui existimos, no outro dia fiquei com uma enorme dúvida em relação ao amor. E a partir daqui vamos personificar o Amor, passando a escrever com maiúscula. Onde e como raio podemos encontrar o Amor? Ou, melhor explicado, há locais específicos para esbarrar com o Amor? Não anda Ele por aí largado? Se o Amor falha em alguns lados, estamos perante uma complicação que não antevi. Porque, pobre inocente, acreditava que para dar de caras com o Amor também não era preciso nada. Um dia, quem sabe, seria assaltada por esse intrépido sentimento numa esquina mal iluminada. Sem hesitar, diria “por favor, leve tudo!”. Só que percebi que há quem pense diferente de mim. Que certos sítios são dignos de serem frequentados pelo Amor e de outros está banido, citando a título meramente ilustrativo - as aplicações de encontros, as discotecas (porque há pouca luz, não se vê bem se é o Amor) ou as festas de casamento, onde lá mais para o final os homens andam com as gravatas na cabeça e as mulheres com os sapatos de salto alto na mão e as plantas dos pés a parecer que chegaram de uma peregrinação a Fátima. Não há condições. Se para encontrar o Amor tenho que me esforçar, talvez para me fique pela Meteorologia. Não estou a fugir. É quase igual. Raramente as previsões (mesmo a curto prazo) acertam, ou então precisam de ajustes. E eu gosto de ter essa margem de manobra.