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Tânia Rei

PUB.

Olá. Tudo bem?

Olá. Tudo bem?

Já há muitos meses que não estava convosco. Meses. É muito tempo. Por exemplo, este ano ainda não tínhamos estado juntos. Há amizades que acabam por isso mesmo, porque há meses que não sabemos nada desses incautos amigos que deixam de dar notícias. E a nossa vidinha continua, sem que tenhamos muito tempo para perseguir o desaparecido. Agora com as redes sociais, sabemos que o tal que não diz nada continua a gozar de boa saúde, o que nos permite ignorar o facto de não nos falar com outra naturalidade e menos preocupação. Simplesmente, deduzimos (e bem, na maior parte das vezes) que deixamos de lhe nutrir interesse.

No meu caso, neste em específico, não foi o que aconteceu. Eu queria estar convosco, fiz alguns esforços, mas não consegui.

Há uns dias, falava do ‘síndrome da folha em branco. Jurei que nunca o tive. Mas, em reflexão, vejo que é mentira. Comecei a escrever crónicas em 2013. Já lá vão alguns anos. Cheguei a acumular várias publicações, online e em papel. E as coisas pareciam fáceis. Tinha sempre assuntos. Era como que se bastasse olhar para uma pedra no chão e visse logo ali brotar um tema super interessante. Agora já não sou assim. Em 2013 era mais nova e tinha mais tempo livre para observar os outros e a vida em geral. Agora acho que tenho menos amigos, o que logo à cabeça reduz as inspirações, porque tenho menos vidas para dissecar.

Há seis anos tinha menos peso e mais paciência. Paciência para pensar também. Agora gosto mais do mastigado, para poupar alguns minutos. Antes também me preocupava menos com um possível impacto das barbaridades que debitava - até porque a finalidade era, e continua a ser, entreter, e não mudar mentalidades.

Reparo que, tal como eu, a maioria anda sem tempo nem paciência. Até queriam falar, mas não têm assunto. E para abrir a boca, ou, neste caso, dar ao dedo no teclado, é preciso ter algo mesmo muito importante para dizer. Ou assim achamos. Se não for de vida ou morte, se não for gigantesco, ficamos calados, que poupamos uns minutos a todos. E esses minutos podem ser usados para algo tão importante como, por exemplo, ver as redes sociais para sabermos daqueles amigos com os quais não falamos há meses, por não termos nada de jeito para lhes dizermos.

Pergunto-me se a vida na internet é tão emocionante como a vida real. Se o que vemos e lemos é mesmo assim. Mesmo quando se partilha que se está num grande dilema, numa luta pelo bem sem precedentes, numa saga para salvar a nossa idoneidade. Se calhar, só queremos que nos passem a mão na cabeça e que nos digam ‘já passou’.

Por norma, só encontramos um chorrilho de comentários a dizer: ‘És grande! vais conseguir!’, ‘força! mantém-te como sempre foste!’, ‘És um exemplo, pá. Orgulho.’. Mas, se calhar, o que fazia falta era um ‘olá, tudo bem? vamos tomar um café’ mais amiúde. ‘Já há muitos meses que não falamos. Vamos viver na vida real mais próximos?’. Se calhar - e só se calhar - o que nos falta é mesmo viver mais tempo junto aos que gostamos e menos tempo no mundo apressado onde achámos que o virtual pode atenuar a falta reiterada da presença física.

Bicho papão e outros vilões

Este fim-de-semana fui a um concerto do Sebastião Antunes & Quadrilha. Além da ‘Cantiga da Burra’, que toda a gente sabe de cor, e de mais um punhado de músicas bem conhecidas, uma delas, que desconhecia, deixou-me particularmente pensativa. No refrão diz assim: ‘Ninguém fala do Homem do Saco/Ninguém espreita por baixo do colchão/Já ninguém acredita na Coca nem no Bicho Papão’. Ora, em primeira análise, é verdade. Os miúdos de hoje são muito menos crédulos. Com dois anos sabem mexer em tudo o que é aparelho electrónico, com três já sabem números e letras e começaram a falar inglês. Não resta muito tempo para ter 
medo do Bicho Papão, e, acredito, aos quatro até já conseguem articular uma resposta válida para nos convencer, a nós, adultos, de que todos esses seres não passam de mentiras, de rábulas. O Sebastião foi dizendo, na introdução da ‘Conto do Bicho Papão’, que este que dá nome à canção anda triste porque já ninguém acredita nele. E, instintivamente, imaginei uma figura enorme, grotesca e verde (sim, verde parece-me a cor de quem come tudo o que encontra), sentada no canto de uma gruta ou de um armário particularmente grande, a chorar virada para a parede porque, de repente, os meninos já não tremem quando, entre uma colher de sopa e outra, os pais chamam 
convictos o Bicho Papão para vir tomar conta daquele menino mal-comportado que não gosta de vegetais. Na letra surge uma hipotética solução para todo este drama, que traz o Bicho Papão em poltronas de psicólogos: ‘Ai seu pudesse inventar um jogo electrónico/Voltava a ser falado, voltava a assustar/Imaginem lá qual não era a sensação/ De uma consola com o jogo do regresso do Papão’. Não acredito que isso pudesse resolver o drama vivido pelos vilões de antigamente. Provavelmente, o Papão seria convertido numa espécie de tamagotchi dos tempos modernos, sem pingo de piedade por todos os gritos lançados, outrora, por inocentes crianças. A não ser, claro, que fosse de uso 
parental. E aí os progenitores poderiam dizer, na hora da sopa: ‘Ai não comes? Vou já abrir a app do Papão e dizer que há um menino nesta morada que está a precisar de um valente susto para começar a gostar de brócolos’. E o Papão ia anotando os pedidos, bem como o motivo da queixa, e ia visitando as famílias, uma a uma. Lembro-me de aprender, algures na universidade, que as crianças têm medos inatos – de serem comidas, abandonadas e do escuro. E por isso todos os contos para aquela faixa etária se baseiam nesta informação. Assim assegura-se a fórmula perfeita para toda e qualquer estória. Eu não acreditava no Bicho 
Papão. Fazia-me sentido que ele comesse crianças, porque são mais tenras, mas sempre achei que devia ser grande. E uma coisa grande vê-se bem. Por isso, como nunca o vi, pensava que eram uma moda lá de outros países longínquos. Já com o Homem do Saco era pior. É que na minha aldeia passava um senhor, que vivia de modo indigente, nunca cheguei a perceber porquê. Era o David, gostava de se meter com os miúdos por entre piscadelas de olho coniventes dos pais e andava com uma saca de serapilheira às costas. Ora bem, podia não caber lá uma criança...inteira pelo menos, achava eu. E, sabem que mais? Afinal a sopa não era assim tão ruim.

O que os animais têm para nos dizer

Vou contar-vos uma estória muito especial. Os protagonistas são o Sampaio (como o Jorge) e o Jeremias (o fora-da-lei, como a música de outro Jorge, que se assina Palma no fim).
São dois amigos incríveis. O Sampaio é mais velho alguns meses, e isso faz toda a diferença. Ele protege o Jeremias, trata dele, deixa de comer para satisfazer o mais novo, se assim for preciso. E, não raras vezes, o Sampaio faz de almofada ao Jeremias, antes de dormirem os dois profundamente por horas e horas sem fim.
O Sampaio parece que adivinha que vos quero falar deles. Saltou para o meu colo enquanto vos escrevia, com ar de supervisor, e ficou a pedir mimos, que obedecem a regras já pré-acordados - só ao pé das orelhas e da cabeça. Entretanto, ficou preso nos fios do rato do computador, e foi embora, desnorteado. Há-de voltar, ainda antes do final do texto.
Foi o Sampaio que trouxe o Jeremias para nossa casa. O Sampaio veio sozinho, porque a casa parecia um lugar mais acolhedor do que a rua. São dois gatos pretos, o Jeremias ainda bebé.
O Sampaio era ainda muito franzinote quando começou a entrar pela janela que apanhava aberta. Aproveitava quando ninguém estava a ver. Não se deixava agarrar, mas aceitava comida de bom grado. Demorou mais de um mês até que deixasse de ser bufanito e que deixasse de fugir de manhã pela mesma janela, depois de ter dormido uma boa noite de sono no meio da roupa suja. A paciência compensou. Vieram umas festinhas modestas, até que ganhássemos a confiança do desconfiado sem-abrigo.
Já éramos amigos e já o Sampaio tinha morada fixa quando o inesperado aconteceu. O Sampaio gostava muito de andar nos telhados, e às vezes envolvia-se em lutas feias, que perdia sempre. Aliás, ainda tem uma cicatriz no nariz desses tempos, que teima em não desaparecer, como que a lembrar o sucedido, tal e qual um aviso.
Veio uma manhã em que o Sampaio bateu na janela para ir à rua muito cedo. Fartou-se de miar, pedindo que o seguíssemos. Mas como iríamos caminhar com o gato no telhado? Vieram outros gatos, maiores do que o Sampaio. Mas naquele dia, ele não teve medo. Mesmo sem corpo suficiente para enxotar os intrusos, correu destemido em direcção ao perigo, todo eriçado. E ganhou.
Mais tarde, percebemos o que ele protegia e o que o enchia de coragem. Era um pequeno Jeremias, que se abeirou da mesma janela pela qual o Sampaio tinha entrado nas nossas vidas. O Sampaio empurrou o Jeremias com o nariz para a nova casa. Ele pareceu compreender, porque deixou de oferecer resistência a ser puxado para dentro.
O Sampaio, agora gato de estimação, quis abrigar um gato de rua. Outro gato indefeso que lhe merecia muita estima. O Sampaio tem feito as vezes de mãe, de pai, de irmão. E o pequeno cresce a olhos vistos, sempre sobre o olhar protector do mais velho, companheiro (quase) incansável de tropelias e brincadeiras.
O Sampaio é um gato. É um gato preto. O Jeremias também. Dois gatos de rua que, afinal, ensinam muito sobre a vida a todos os seres humanos.

Um Verão ‘lovely’

Eu sei que não parece, mas estamos quase no Verão. Mentira! Pelo calendário, já é Verão! Se calhar quando esta crónica vos chegar, estarão a lê-la debaixo de um tórrido sol. Se for esse o caso, esqueçam tudo o que eu disse até agora, porque então é definitivamente Verão.

A chuva teima em não deixar vir o calor e o céu azul. As trovoadas, dizem que são normais, para a época. As famosas tempestades do tempo quente. Mas foram em demasia. Até o biquíni me diz que não é Verão, que afinal não comecei a dieta a tempo, e que, por isso, se adiarmos isto mais um mês, não há muito prejuízo.

Mas eu tenho saudades do Verão. Não de um Verão qualquer. Dos de antigamente. Agora o Verão é sinónimo de muita gente, de turistas. Agora há turistas. Antes também os devia haver, só que eu não reparava neles. Agora passamos muito tempo a dizer ‘welcome’ e ‘lovely’ para os transeuntes, que usam chapéus largos e fazem muitas perguntas. É bom. Deixam-nos vir! - Welcome! Lovely!

Só que não é destes Verões que eu sinto falta. Em boa verdade, há alguns anos que não tenho aproveitado o Verão, e só gosto dele porque usamos menos roupa, o que me poupa tempo na hora de sair de casa.

Tenho saudades é dos Verões na minha aldeia. Três meses inteirinhos de um bafo abrasador – como o ditado, ‘nove meses de Inverno e três de inferno’.

Era na minha aldeia que estavam a minha família e os meus amigos. Estavam ali perto, e passávamos os dias juntos. E as noites. Primeiro, quando éramos mais pequenos, com os nossos pais, que iam ao café aproveitar a fresca. E nós íamos brincar, sem nem sequer nos importarmos com as horas e sem ninguém ter que se preocupar onde estávamos. É que estávamos sempre perto e sempre bem. Se não estivéssemos, ouvia-se chorar, e algum dos amigos mais velozes ia dar o alerta. Mas isso só acontecia se houvesse ossos à mostra. Fora isso, nada doía na altura das tropelias. Uma vez torci um pé e ficou inchado, depois de me ter atirado de umas escadas. Acho que foi o máximo que me aconteceu.

Mais tarde, começámos a reunir o grupo de forma autónoma. Já éramos nós a marcar os horários de saída, e os pais de chegada. Já tínhamos telemóveis, e mandávamos ‘toques’ quando saíamos de casa. Não é que tivéssemos o futuro da Humanidade para discutir, nem que das nossas reuniões resultasse a paz mundial. Mas a verdade é que era algo essencial para aproveitar o Verão. Era essencial que estivéssemos juntos, a deitar conversa fora. E ficam muitas histórias engraçadas. Como quando, certa vez, que vimos um clarão azul atrás do cemitério da aldeia, numa noite em que falávamos de espíritos. Achámos que era algum desses espíritos mais afoito. Afinal, foi só um problema na central eléctrica. Apanhámos cá uma miúfa!

Isto era à noite. Também passávamos os dias juntos, a fazer actividades na aldeia. E, apesar de andarmos sempre como carrapatos, o tempo nunca parecia demasiado para estar com os amigos. E éramos mais amigos, porque quem estava no estrangeiro vinha passar uma larga temporada.

Quando chegava a festa da aldeia, ali a meados de Agosto, já a coisa estava a acabar. E aproveita-se ao máximo aqueles três dias de folia. Isto mantém-se. E passámos o ano todo a fazer planos para a festa do ano seguinte. Porque tão poucos dias nunca dão para completar os planos do ano anterior.

Se pudesse voltar atrás no tempo, queria só mais um Verão assim. Uma temporada verdadeiramente ‘lovely’.

Saber acabar

Tudo tem um começo e um fim. Sempre ouvi dizer isto. Parece-me de domínio público que nada pode durar para eternamente. Eu uso mais aquele provérbio "não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe". Apesar das palavras feitas, ajuda a encarar algumas fases da vida. Como que, de repente, percebêssemos que sabemos de antemão o desfecho de tudo - se está mau, vai melhorar; se está bom demais, nada de criar hábito.

Claro que isto não é linear. Nem poderia ser. Contudo, a realidade é que a vida é feita de ciclos, e só convém não viciar os dados. E, mesmo que estejam viciados, que mal tem afinal? É como vermos uma estória repetir-se em frente aos nossos olhos, até chegar ao desfecho espectável. É uma situação de "win-win" – tiramos uma percentagem de proveito e sabemos que vai descambar.

Tão sábio como ter a arte de começar alguma coisa, de ter o engenho para pôr as rodas nos carris a rolar, é a arte de saber puxar o travão e de tirar a locomotiva da linha. Não falo de um descarrilamento, algo acidental ou atabalhoado. Estou a referir-me a algo totalmente deliberado.

Saber fechar a porta de determinados eventos, define, em grande medida, como vai ser a nossa relação com aquele caso dali para a frente. Não se pode, inocentemente, pensar que o que fazemos ou dizemos fica sem uma resposta por parte do meio envolvente. Onde sempre estão pessoas afectas.

Ora, quando andava no oitavo ano, mais coisa menos coisa, fui pedida em namoro por um rapaz que, na altura, eu achava muito fofo. Tínhamos uma "cena" sem maldade nenhuma, o que, visto 15 anos mais tarde consegue deixar saudade - a ausência de maldade nos sentimentos. Era uma sexta-feira, e deduzo que o pedido lhe tenha demorado, pelo menos, essa semana inteira a ganhar coragem. Ou é assim que gosto do imaginar. Era final de dia de aulas, e eu disse logo que sim. Nessa altura, costumava pedir aos rapazes um tempo para pensar, mas saiu-me logo "sim". No minuto seguinte, acho que estava algo arrependida, porque tinha a ideia pré-adolescente de que tudo era para sempre - ainda não conhecia toda a sabedoria popular toda. O problema era, pois, não saber se queria aquele namoro para sempre, e abdicar dos intervalos da escola com as amigas, e estar a todo o momento com a mesma pessoa. Era desta forma que eu pensava que se processava depois de dizer "sim". Devemos ter dado um chocho para selar o compromisso, para a seguir correr para o autocarro e ir para casa. É disto que me lembro.

Lembro-me também de andar angustiada no fim-de-semana inteiro, a pensar como poderia resolver aquele namoro que me parecia precipitado. Não gosto de conflitos, discussões, gritos ou dramas. Pelo que pensei ignorá-lo, somente, como mostra do meu descontentamento. Mas, tinha sido eu a dizer "sim", caramba. Mesmo com 12 ou 13 anos, pareceu-me infantil da minha parte. Então, escolhi encher-me da mesma coragem que ele também devia ter tido, para anunciar que queria terminar. Não me lembro bem como o disse ou onde, o que é certo é que ele nunca mais me falou. Por isso, não devo ter escolhido as palavras certas ou o momento adequado. Neste caso não soube começar nem acabar. Não soube ter o bom e esperar pelo mau. Talvez tenha sido um dos casos inversos do provérbio. Enfim, às vezes lembro-me deste episódio. Força-me a aceitar que, na vida, o sentido de oportunidade pode trabalhar-se e que é importante, de verdade, saber talhar os inícios e os finais.

 

O fim da estória

Na semana passada tive notícias da Becas.
A Becas é uma gata com padrão tartaruga, de olhos verdes, que eu ajudei a salvar. Tinha a bicha algum meio ano quando a minha vizinha do lado foi passar uns dias fora e a deixou sozinha em casa. Sem água e sem comida, já num desespero, era ver a gatinha na varanda, de boca aberta com a sede e a aproximar-se perigosamente do beiral do segundo andar, à procura de uma saída. Chamámos os bombeiros, mas ela assustou-se e foi-se empoleirar num reclame luminoso, onde não era seguro ir buscá-la. Passei uma madrugada de calor na minha janela, a tentar convencer a Becas a vir ter comigo. Mas ela tinha medo, coitadinha. No dia seguinte, lá se encheu de coragem e entrou dentro de um dos apartamentos, onde foi possível, finalmente, deitar-lhe a mão para a pôr em segurança. Bravo, Becas!
A Becas foi adoptada pelo casal do primeiro andar. Quando "fugia" e passeava pelo prédio, via-a muitas vezes. Ou me preparava emboscadas nas escadas, ou me acompanhava até à porta. Entrava como um foguete, e metia-se debaixo da cama. Brincava com o que lhe aparecia, até que era hora de a devolver aos donos, antes que ficassem preocupados. Quando ouvia ecoar nos corredores "Becas! Onde estás?", punha uma expressão de "está na hora de te deixar", e lá a conseguia convencer a terminar a visita. Acho que era a maneira dela demonstrar apreço por ter participado no seu salvamento.
Soube na semana passada que a gata Becas morreu de leucemia. Não sabia dela há três anos, apesar de me lembrar bem das cabriolas e da missão de salvamento, que mobilizou, numa determinada altura, toda a minha rua. Fiquei triste, mas pelo menos aliviada por saber que a curta vida que teve foi feliz e com carinho. Mesmo quando eu deixei de fazer parte da vida dela.
Esta era uma das raras estórias que me teria bastado saber o que já sabia. Por ser triste, provavelmente. Porque, de resto, gosto sempre de ver respondida a pergunta: "E depois, o que aconteceu?". Nos livros, filmes e séries de televisão, posso até compreender que haja um final, mas nunca aceitar. Se gosto das personagens, do enredo, do que se está a passar, preciso de saber mais. Para sempre, se possível! A certo ponto, parece que somos cuspidos da estória, e ficámos à margem de algo do qual já fizemos parte.
É estranho quando deixámos para trás uma estória. Até mesmo quando não gostamos dela. Fizemos parte de um caminho juntos, e, depois, numa qualquer encruzilhada, seguem-se caminhos opostos. De uma estória passam a ser duas, ou três, ou quatro. Mas já não estamos todos na mesma estória. Isso, devo admitir, deixa um amargo de boca. E agora, o que vamos fazer sem uma estória que já foi nossa mas onde já não estamos? A estória continua sem nós, e nós sem ela, sem saber muito bem o que fica por dizer ou saber. É estranho quando percebemos que há um curso que pode seguir sem nós, e que vai mesmo seguir, sem qualquer pudor e, muito menos, sem a nosso aval ou opinião.
Se fosse hoje,  antes de ter mudado de casa e de ter sido cuspida daquela estória, tinha chamado mais vezes a Becas para brincar debaixo da minha cama com as meias sujas e o que por lá encontrava. Porque essa foi uma estória da qual fiz parte e que me fez feliz.E há estórias que terminam para nunca mais voltar.

Mudar só dá trabalho

As mudanças causam frio na barriga . Eu não gosto de mudar, só pelo simples facto de ter... que mudar. Normalmente envolve mexer em coisas, tirá-las dos sítios e arranjar-lhe outras. Meter-me confusão. Tenho sempre medo de deixar algo para trás. A mesma coisa com as viagens. É tudo muito bonito até que chega a hora de ir, efectivamente. Ou as horas antes em que se tem que fazer a mala, tirar coisas do sítio e levá-las para outro sítio diferente. Durante os dias em que estamos fora, nada tem sítio definido, desde que esteja à vista, não vá acabar por ficar no sítio novo para sempre.
Falando em sítios, gosto de ir a sítios onde nunca fui, mas não gosto de não saber para onde estou a ir. É chato. "Vira à esquerda, agora à direita. Agora é direita, direita, esquerda. Rais parta do GPS. Pronto, vira para trás e perguntamos ali a alguém, que isto não me parece que seja para aqui".
Viajar é bom e faz falta. Sou no entanto a favor das cápsulas que teimam em não inventar, para, através de um processo de liofilização qualquer, ficar tudo espalmadinho, sem ocupar espaço nem pesar. Chegará o dia em que vamos procurar um saco-cama no fundo da carteira, preocupadíssimos.
É bom viajar e manter-se discreto, misturando-se com os nativos. Eu pelo menos tento sempre, e até consigo que turistas, com cara de turistas, me peçam indicações. Tudo resolvido com um "eu não sou daqui, mas..." e mando sempre uma dica, com base no meu conhecimento sobre o local em questão, que pode ser quase nulo. Tenho muito este estranho defeito de transformar tudo em locais-tipo, e a partir daí imaginar que me safo em todo o lado. Não é assim, obviamente, só que pelo menos consigo manter a calma mesmo quando estou perdida e sozinha.
Como me tento misturar com os nativos, gosto de conversar com eles. Fico aborrecida quando não me respondem de forma a podermos falar, ou, em casos extremos, não me respondem de todo. Quando o contrário acontece, de repente fico sem contexto, por desconhecimento de causa, e é aí que percebo que poderia encaixar-me ali.
Contudo, aborrece-me estar fora muito tempo. Começo a sentir falta dos detalhes da minha casa. Quando era pequena, já era assim. Com uns cinco anos chorei até adormecer, em férias em casa dos meus padrinhos, porque a cama não era a minha. E se estivesse em minha casa, "a minha mãe tinha já a minha cama feita" e preparada para eu dormir. Aqui se vê o comodismo de gostar de ter as minhas coisas à mão, sem ter que pensar muito. Tudo no meu aconchegante lar.
Uma deslocação implica sempre uma mudança. Mesmo que pequena e temporária. É escolher o que temporariamente nos pode fazer falta, num jogo do adivinha. É espremer os nossos pertences numa mala, num saco ou numa mochila. A única coisa boa é que, quando voltamos, trazemos saudades de tudo e até a comida nos sabe diferente, para melhor.

As festividades e as pessoas

Terminadas as quadras festivas penso que devemos falar sobre elas. O que correu bem, menos bem e mal. Isto já para começar a preparar este ano que agora começa, e não deixar tudo para a última, como sempre. Todos os anos penso comprar as prendas de Natal em Agosto, mas acabaram sempre por serem adquiridas e embrulhadas dia 24. Este é o meu "o que vou melhorar" neste 2018. Outra coisa é a roupa para a passagem de ano. Vi gente com combinações giríssimas mas com um toque de "foi a primeira coisa que me apareceu no armário, este vestido com lantejoulas e franjinhas", e um cabelo e maquilhagem que também não dizem nada "passei o último dia do ano metida em salões de beleza, enquanto contava às restantes clientes o que ia vestir e calçar". Para o ano... desculpem... este ano, vou fazer como toda a gente, e comprar a roupa em Agosto.
Isto do Ano Novo deixa-me pouco à-vontade. Primeiro, até quando podemos desejar "bom ano novo"? Há algum manual nesse sentido? E quando podemos esquecer as resoluções?
Mas, o que me tem deixado mais confusa, passadas as festividades, são os protocolos que regem a forma como gerimos as quadras festivas nas redes sociais, e já lá vamos. Não tenho registo de um postal de papel recebido. Tenho pena. Há uns dez anos, a febre eram as mensagens escritas no telemóvel. O pessoal tentava inovar e mandar textos originais. Com piadas malandras, a desejar "boas festas pelo corpo todo", ou muito sentimentais. Nos saudosos tempos dos Nokia, dava para mandar-mos símbolos com os "-" e os "*" que faziam bonecos alusivos ao momento. Como as mensagens se pagavam, ou se colocava um saldo de parte para mandar para todos os contactos, ou então tínhamos que selecionar os mais importantes. E retribuir todas, por cortesia. Havia aquele drama de não ter o número da pessoa que, pela escrita, parecia pertencer aos nossos amigos mais chegados. Alguns tentarem resolver esse problema, assinando com o primeiro nome. O que também não me ajudou em nada, porque só "Manel" é vago ao fim de 360 dias. Deviam começar a ser mais específicos, como "Manel que trabalha no talho, amigo da Ana que toma café às vezes no mesmo sítio do que tu". Se nos atrasávamos a enviar, a rede "entupia", e só dali a umas horas voltava a normalizar. Pior na passagem de ano, com os telefonemas pós-meia-noite.
Agora tudo se desenrola nas redes socais, onde podemos cear em simultâneo com amigos e conhecidos. Comparar mesas e presentes. Ver e conhecer famílias. E já ninguém deixa as mensagens a desejar boas festas para o dia dos acontecimentos. Foram mandando. E se recebemos dos amigos e familiares, recebemos ainda mais de pessoas que nem conhecemos. E não, não é engano. Não queriam falar, na verdade, com o Manel. Era mesmo para nós, uma lista aleatória onde se quer distribuir amor, paz, saúde, dinheiro e sucesso. Deixa-me confusa, mas feliz e agradecida ao mesmo tempo. Não há letras escritas, vem tudo em vídeo com vozes impessoais. Ali estão os votos.
Aproveito por fazer deles também os meus, para este 2018, não sabendo estar a infringir as leis da etiqueta ou não. Se sim, agora só me posso redimir em 2019.

Quando a neve era farinha

Não sei se é uma grande novidade, mas... o Natal está a chegar. Não é uma coisa destes dias, nem muito menos de Dezembro. Não. Em Agosto já eu comia chocolates alusivos à quadra, ainda que derretidos e com cor esquisita. Desconfio que pertenceram a Natais passados, e que ficaram esquecidos em stock. Ainda assim, quem consegue resistir a esta tentação? Esta época apela à gula e ao sentimento. Ter sentimentos, pelo menos a mim, dá-me fome. Por isso, é lógico que anda tudo ligado.
Depois, ainda em Outubro, começaram os anúncios. Promoções de todo o tipo, brinquedos com preço inflacionado e mensagens fofinhas começaram a saltar de todo o lado, principalmente da televisão.
Tenho a ideia de que antes isto só começava lá para meados de Novembro. Certamente a seguir ao Fiéis Defuntos. Quando eu era pequena, havia umas flores brancas no jardim de casa, muito cheirosas e farfalhudas, que abriam na altura dos Fiéis Defuntos. Era assim que eu sabia que era tempo de visitar o cemitério. Quando começavam as publicidades das bonequedas, estávamos próximos do Natal, ainda que eu não soubesse quão próximos.
Começava a cheirar a Natal quando se começava a desviar os sofás para colocar o pinheiro. Era natural (sei que agora não se pode) e colhido no monte ali ao lado. Não era preciso todo, só uma galinha bonita e com uma coroa, para enfeitar com uma estrela. No mesmo sítio encontrávamos musgo, bem verdinho e com volume. Forrávamos o chão com papel de jornal e alcatifas, para não estragar nada. O musgo passava a ser a Terra Santa, mais coisa menos coisa, e em cima desenhávamos caminhos de neve. Não sei se havia neve naquele lugar há mais de dois mil anos, mas em minha casa sempre houve. A neve não era neve, claro. Essa derrete, e não me lembro de passar um dia 25 com neve à porta. Por norma era farinha, que se roubava da cozinha. Farinha, por todo o lado, que dava um efeito nevado. Olhávamos para a obra prima – o presépio – com orgulho. Ficava com frio só de olhar. Os Reis Magos era mais pequeninos do que a Nossa Senhora, o São José e até do que o Menino Jesus. Não fazia mal, porque era uma questão de perspectiva. Eles vinham longe ainda, só chegavam dali a uns dias. Como toda a gente sabe, ao longe tudo parece pequenino. Tinha ainda um pastor, ovelhas e um castelo, que ficava igualmente enfarinhado. Desculpem. Nevados.
Não sei muito bem o que simboliza o Natal, às vezes. Para mim era a simplicidade de ter um pedaço de um pinheiro, com luzes, um amontoado de musgo com figurinhas castiças e farinha a fazer de neve. Não fazia mal não ser de compra, ou não ter um aspecto realista. Era a alegria de fazer isto com a família, de mobilizar todos os esforços para aqueles momentos. Embrulhar prendas às escondidas. Comer e rir. Jogar ao ‘par e pernão’ (que é uma espécie de jogo de apostas, dos que não faz mal, porque se ganham e perdem pinhões e nozes).
Agora já há, bem barata, neve em lata. Abana-se, e há neve por todo o lado. Branca e com textura. Tem que se ir retocando, porque como é a fazer de conta, vai perdendo características, até se resumir a um material borrachoso mirrado e meio amarelo. Isto não acontecia com a farinha. Essa era autêntica, nunca mudava. Ficava a fazer as vezes da neve até aos Reis. Mais tempo do que isso, se nós quiséssemos.
Não sei o que tem acontecido ao Natal, que já não me parece tão verdadeiro. Já não chega a farinha a fingir de neve, já se compra o presépio todo numa só peça, já não se reparam as luzes pisca-pisca fundidas com as suplentes que vêm na caixa, e tanto faz que haja cores iguais seguidas. Tanto faz porque o materialismo ganhou. Não há o decoro de celebrar as ocasiões devidamente, e pode ser Natal logo em Agosto.
Gostava que houvesse mais farinha a fazer de neve. A favor do que é simples. A favor do saber sorrir com tão pouco e mesmo assim não saber como se pode ser mais feliz.

Entre dizer ou não, prefira ficar calado

Falar bem, no sentido de elogiar desmesuradamente, é coisa que não fazemos com frequência. Diz-se uma vez, e pronto. Está dito. Lembre-se quando for preciso. Acho que nem quando estamos a tentar conquistar alguém:"És tão bonita!", "Sou? Sou nada", "És, pois", "Eu não acho", "Pronto, acredita se quiseres".
Agora, falar mal são outros quinhentos! Quando o assunto é "falar mal" nasce logo ali uma árvore de folha persistente, que vai ramificando e crescendo.
Há aquela máxima que afirma que não importa que se fale bem ou mal. O que interessa é que falem. Deduzo que porque significa que não passamos despercebidos ou que não nos esqueceram.
Ora, pior do que o que se diz é o que não se diz. Verdade! Aquilo que fica no meio caminho entre o cérebro, onde são processadas as ideias, e o aparelho fonético, mas acaba remoído no suco gástrico do estômago. Nenhum pensamento sobrevive àquele ambiente hostil, e é mais do que certo que vão todos acabar por morrer nesta batalha, que, aparentemente, tem recurso a armas químicas. É daqui que vêm as dores de barriga, não é das porcarias açucaras que comemos nem das bebidas com gás. Isso não faz mal nenhum comparado com o resto.
E este resto tem repercussões nocivas na convivência social. Faz tão mal ao ponto de criar uma espécie de síndrome de Tourette, só que sem nenhuma explicação clínica ou tão-pouco lógica. Refiro-me àquelas pessoas que, sem que nada o faça antever, nos dirigem comentários mais ou menos insultuosos, que nos querem semear dúvida tal é o tom de ironia, que nem temos oportunidade de saborear. Isto porque, enquanto falam, continuam a caminhar, como se nada fosse com elas, e mastigam as palavras o mais que podem, quais ventríloquos maldicentes. Assim não percebemos se nos disseram "lindas botas" a gozar, se disseram "linhas tortas" aleatoriamente ou "malditas portas" por causa de algum "puxe" ou "empurre" mais traiçoeiro.
O problema é que não temos a oportunidade de nos defender. De responder à altura, ou pelo menos dizer alguma coisa. Quando processamos o que aconteceu, já o autor do comentário desapareceu na rua, Não seríamos capazes de o identificar nas autoridades, nem sequer numa mesa de café. Ficamos a olhar para o vazio, e a magicar respostas inteligentes e do mesmo nível,que nunca teremos oportunidade de usar.
Por vezes nem há palavras envolvidas. Só olhares e sorrisos enviesados que não entendemos. No outro dia, saí de casa de manhã para comprar pão. No caminho, muitos foram os que me olharam dessa forma. Pensei ter algo de diferente nesse dia. Olhei por mim abaixo, não fosse ter eu levado, por lapso, o pijama vestido. Não vi nada de especial. A senhora da padaria olhou para mim da mesma maneira. Mas que raio! Por fim, enquanto me dava os trocos, declarou: "A menina já reparou que tem a camisola vestida ao contrário?". Corei. Afinal não estava extraordinariamente bonita aos primeiros raios de sol. Com uma visão mais atenta lá vi a enorme etiqueta branca, que nunca tiro para saber a que temperatura tenho de lavar a roupa, a baloiçar do lado esquerdo. Não arranjei uma justificação plausível. Só consegui balbuciar: "Olhe, pois tenho!".
Aposto que a senhora da padaria não sofre do estômago.