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Henrique Pedro

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O primeiro-ministro das calamidades

AO Dr. António Costa pertence a um grupo restrito de personalidades que justamente merecem o epíteto de “ puros políticos”, não de “políticos puros”, note-se bem, porquanto nada de relevante fizeram fora da política, mas que, ainda assim, ousaram alcandorar-se a dirigentes máximos da monstruosa máquina que é o Estado português. O que de alguma forma explica a desgraça que é hoje Portugal. A esse grupo de elite também pertence o Eng.º José Sócrates que foi o principal fautor da calamidade que culminou com a intervenção da afamada Troika, o inesquecível conjunto das três entidades que entre 2011 e 2014 providenciou o Programa de Assistência Financeira Externa que resgatou Portugal da bancarrota. Calamidade para a qual igualmente contribuiu o próprio Dr. António Costa na qualidade de ministro de Estado e da Administração Interna do governo do Eng.º José Sócrates, precisamente. Poderíamos igualmente incluir no citado grupo o Dr. Passos Coelho mas a verdade é que este desempenhou vários cargos profissionais fora da vida política, como consultor e gestor, ainda que pouco relevantes. Para lá de que enquanto o Eng.º José Sócrates foi o artista principal dessa nacional desgraça que justificou a humilhante intervenção estrangeira, o Dr. Passos Coelho, justiça lhe seja feita, é tido por muitos portugueses como o corajoso e patriota primeiro-ministro que tomou em mãos a ingrata tarefa do providencial resgate. Ainda assim, a outras altas personalidades assenta que nem uma luva o galardão de “puro político” em função da sua exclusiva e extremosa entrega ao múnus político partidário, que não à causa nacional propriamente, como é o caso do Dr. Durão Barroso, do Dr. Santana Lopes e, em certa medida, do próprio Prof. Marcelo de Sousa. Ainda assim, o Dr. António Costa é, incontestavelmente, o “político puro” mais genuíno da democracia portuguesa. Desde logo porque, como é típico desta espécie política, começou a vida a colar cartazes partidários, cresceu nos gabinetes e corredores do partido socialista e paulatinamente foi ganhando o seu próprio espaço no Largo do Rato, primeiro, na Praça do Município, depois, e no Palácio de São Bento, por fim, o que lhe granjeou o invejável traquejo político que agora lhe abre as portas de Belém, ou de Bruxelas, quem sabe. De salientar que toda a vida social, cultural e política do Dr. António Costa sempre esteve centrada no coração de Lisboa, não se lhe conhecendo experiencia directa no mundo fabril, empresarial ou mesmo agrícola, o que lhe poderia ter acrescentado o indispensável conhecimento real do país concreto. E, sobretudo, corrigido a sua atávica predisposição política para chamar desgraças ao governo. É por demais evidente, por outro lado, que o Dr. António Costa não tem sido feliz na chefia do governo, para mal de Portugal e dos portugueses. Talvez por infortúnio, talvez por manifesta incapacidade para coordenar eficazmente as políticas dos diversos ministérios, como compete ao primeiro-ministro, ou pelas duas razões conjugadas. Muitas e graves são, de facto, as calamidades e as desgraças, naturais, políticas e sociais, que se sucedem, sem parar, durante o já longo consulado do Dr. António Costa. Com destaque para os incêndios florestais, que em Pedrógão Grande ganharam a dimensão trágica que se sabe, mas que, apesar disso, se repetem ano após ano. Também para a seca que cada vez mais calamitosa assola todo o território nacional, sem esquecer a pandemia Covid 19 que ainda produz efeitos preocupantes e o deplorável funcionamento do Serviço Nacional de Saúde e não só. Muitas outras desgraças poderiam ser invocadas, ainda assim, das quais a menor não foi, certamente, a Geringonça que antecedeu esta outra que agora está em franco desenvolvimento: a maioria absoluta. Maioria que o eleitorado lhe deu para bem governar o país e não apenas para partir e repartir o bolo do Plano de Recuperação e Resiliência. Ou para abertamente subordinar o interesse nacional aos interesses do partido e beneficiar, despudoradamente, a multidão de amigos, assessores e consultores que gravitam à sua volta. Maioria absoluta que constituiria, se para tanto o Dr.º António Costa tivesse suficiente coragem democrática e rasgo patriótico, uma óptima oportunidade para promover as indispensáveis reformas do Estado e do próprio Regime que, entre outras coisas, pudessem por termo à calamidade da corrupção e à desgraça da Justiça. Mas não. Fica-se até com a ideia de que o Dr.º António Costa e a sua gente se dão bem com estas desgraças e calamidades. Nada deixa adivinhar, por isso, que os desígnios do Dr.º António Costa sigam pelo caminho das reformas, pelo que, mais certo será, passar à História como o primeiro-ministro das desgraças e das calamidades. Esta a funesta graça do Dr.º António Costa.

Os rios do nosso descontentamento

A seca que afecta todo o território nacional é particularmente deprimente e revoltante em Trás-os-Montes porquanto muitos são os rios, os ribeiros e as ribeiras que, no presente, inutilmente retalham a região.
Tempos houve em que as energias fluviáteis constituíam uma dádiva suprema da Natureza: consolavam homens e animais, fecundavam hortas e pomares e moviam diligentemente azenhas
e moinhos, fosse Verão ou Inverno. Ainda que, não raras vezes, a partilha de águas de rega redundasse em conflitos sangrentos ou as águas do Tua que banha Mirandela, por exemplo, ficassem empestadas quando as populações ribeirinhas botavam o linho a demolhar, a montante. A água era recolhida nas fontes apenas quando dela se precisava, fazendo-se uso de cântaros, de jumentos arreados com cangalhas e de bilhas de barro que a mantinham fresca em pleno Estio. Em contraponto nas adegas sempre havia pipas de vinho para dar de beber aos amigos e vender, fizesse frio ou calor.

Até que apareceu a revolucionária água canalizada e passou a ser suficiente abrir a torneira para facilmente a ter ao dispor, com abundância, para todos os usos e maus costumes.
Foi o tempo em que o provérbio que referia arderem os montes e secarem as fontes, legenda de um sofrido ritual que o povo vivia e suportava com naturalidade, apenas dizia respeito ao mês de
Setembro. Agora não: aplica-se a todos dos meses de Verão e também aos de Primavera e do próprio Outono. Grandes calores e secas aconteciam ciclicamente, muito embora com intervalos dilatados, no quadro de conhecidas variações climáticas. Agora, dizem os entendidos, mais provável será que passem a acontecer ano a ano, não por força das variações mas das incontestáveis alterações climáticas. Também deixou de ter graça e sentido dizer-se que nas aldeias transmontanas sempre havia, em casa, mais vinho do que água, fosse Verão ou Inverno. E que, por
isso mesmo, nunca ninguém morreria à sede.
Ideia que subconscientemente continua a nortear os nossos mal-amados governantes centrais e, por simpatia, os locais, já que, até hoje, nem uns nem outros nada de relevante fizeram para
resolver, ou sequer minorar, este problema recorrente da seca que agora ganha foros de calamidade. Se não têm água que bebam vinho, parece ser o seu espúrio pensamento.
Foi assim que os rios transmontanos, deixados a correr desagovernadamente para o mar, paulatinamente se converteram em rios de desleixo e descontentamento.
Lamentavelmente tudo aponta para que os tais governantes centrais, a que pomposamente se chama ministros, e os locais, que enfaticamente são designados por autarcas, continuarão a discutir e a balancear entre a regionalização inútil e a descentralização fútil, só se interessando verdadeiramente com o problema da falta de água quando deixarem de ouvir as pedras de gelo tilintar nos copos de whisky.
Entretanto malbarataram milhões da CEE nos lodos de umas tantas poças e charcas, valendo, na emergência, as providenciais obras da ditadura que, sem pruridos ideológicos, continuam a dar
de beber a pessoas e a animais e a salvar a agricultura. Já a apropriação polémica que as companhias elétricas fizeram das águas do Douro e afluentes, que agora estão a render lucros
imorais aos seus proprietários, apenas veio comprometer e dificultar o abastecimento de água das populações e a rega das hortas, das vinhas e dos olivais, por mais agradáveis que sejam à vista as albufeiras que originaram. Por demais triste é constatar que, perante tão instante calamidade, continua a não se vislumbrar políticas, projectos ou planos de aproveitamento hídrico de
âmbito regional, adequadamente interligados, coordenados e dimensionados. O que só se compreende porque o Governo, demonstrando deplorável cobardia democrática, neste como em muitos outros casos, se revela incapaz de governar sem a palmadinha nas costas da oposição, ainda que para tanto o eleitorado lhe tenha dado maioria absoluta.

É caso para se dizer que anda completamente à nora e que já nem picado lá vai. Ainda que, desavergonhadamente, não deixe de regar a sua horta. Não será de admirar, por isso, que os montes continuem a arder, as fontes e as adegas a secar e a morrer à sede os que os que bebem e os que não bebem.

Safardanas e sefarditas

Conhecidos políticos domésticos que fazem gala de se dizer de esquerda, têm vindo a lançar confusão entre pátria e nação, entre nacionalismo e patriotismo, melhor dizendo, com um único propósito: confundir e domesticar o povo. E um só efeito prático: inibi-lo de ser civicamente independente e participativo e de assumir uma relação digna e positiva com outros povos. Começaram por banir a ideia de pátria, preferindo o conceito de nacionalismo socialista para se demarcarem do inconveniente nacional-socialismo, embora a ambição seja a mesma. E afirmam-se como internacionalistas, um tanto à maneira de Putin, para quem a nação extravasa a própria Rússia e se estende a toda a Europa e à própria China, relegando a Nação histórica, independente e soberana para passado, pelo que deverá ser denegada. Daí que de tudo se aproveitem para denegrir a História de Portugal, que reduzem às maldades daquilo a que, em consonância com o Estado Novo, também chamam Império Colonial Português, quando sabem muito bem que Portugal nunca foi um império e só num período muito curto foi colonialista, com muitas e boas realizações, nos últimos tempos, como, de resto, ainda está à vista de toda a gente. Consensualmente a Nação é hoje, isso sim, o conjunto de cidadãos que vivem do seu trabalho, seja ele qual for, e que pagam impostos, com exclusão, note-se bem, dos que detêm o poder e de quantos nele participam, por interposta pessoa, com o propósito único de sugarem o erário público. A Nação é o povo, portanto, poder à parte, seja ele qual for, democrático ou autocrático, mundial ou tribal. Assim se compreende que, mais uma vez, no recente debate sobre o Estado da Nação que ocorreu na Assembleia Nacional, que não é propriamente uma assembleia popular, se tenha baralhado Nação e Estado, com o governo e a oposição, o que é inédito, a admitirem que o estado da Nação é deplorável em todos os domínios. De facto assim é. O Estado português continua a esbracejar numa profunda crise moral e funcional que extravasa o plano económico e financeiro. Correlativamente, no que ao povo propriamente dito diz respeito, ou à Nação, melhor dizendo, a desgraça acentua-se, dia após dia. Salva-se a nação emigrada que continua bem, felizmente, tanto que se recusa a regressar à pátria, embora continue a enviar as providenciais remessas monetárias e a construir moradas em solo pátrio. Igualmente os políticos e afins, o tal poder, continuam a viver bem, sem razões de queixa, e assim vai continuar a ser enquanto os dinheiros da União fluírem desgovernadamente. Uma das coisas que melhor ilustram essa crise moral e funcional do Estado é a lei da nacionalidade estabelecida por esse mesmo poder, sinistro porque é contra o povo. Em Inglaterra, por exemplo, para um estrangeiro obter a nacionalidade britânica, para lá de ter que cumprir, no mínimo, cinco anos de residência e trabalho, é obrigado a realizar, com sucesso, testes exigentes de conhecimento da língua e da história inglesas. Sendo que atribuição da nacionalidade é feita em cerimónia pública, com a entrega do competente diploma, tudo com a pompa e circunstância adequada a conferir ao acto a devida dignidade. Em Portugal, como é do conhecimento público, não é bem assim. A certos safardanas, oligarcas íntimos do sinistro Putin em especial, mesmo que nunca tenham vivido em Portugal, incapazes de articular uma palavra de português sequer e muito menos conheçam minimamente a História de Portugal, é-lhes oferecida a nacionalidade de mão beijada, sem que se lhes pergunte o que pretende fazer com ela, que não será boa coisa, por certo. Em nenhuma circunstância devem ser confundidos safardanas com sefarditas, porém. Os sefarditas, assim eram denominados os judeus de Portugal e de Espanha na Idade Média, constituíram uma componente fundamental da Nação portuguesa, com papel decisivo no período áureo das Descobertas, e que deixaram muitos e bons descentes e uma valiosa herança cultural por todo o território nacional, com especial incidência no norte do país. Historiadores há que defendem, até, que o declínio de Portugal começou precisamente com a sua perseguição e expulsão. Ora, vende pátrias, safardanas e não sefarditas, que fique bem claro, são, isso sim, os que agora vendem a nacionalidade portuguesa, não ao desbarato, por certo, uma vez que se dão ao desplante de selecionar os compradores. Incluindo, claro está, os políticos que para tal criam as necessárias condições jurídicas. Safardanas que enlameiam a memória dos verdadeiros mártires sefarditas, distorcem e aviltam a História portuguesa e como tal devem ser sancionados, política e judicialmente.

Uma intentona insana na comédia dramática lusitana

Cada vez mais a política nacional se assemelha a uma comédia dramática em que o drama está a cargo do primeiro-ministro e a comédia do presidente da república, com a arraia-miúda a assistir divertida, se bem que não bata palmas. Entretanto o partido Socialista continua a destacar-se, sobretudo no que à solidariedade entre adeptos diz respeito. Muito embora a dita solidariedade entre pares, consubstanciada no nepotismo e na partilha de benesses e mordomias, alicerce fundamental da militância e da operacionalidade partidárias, não seja exclusiva do PS mas característica dos partidos de poder. Já no que à coerência ideológica diz respeito o PS é uma farsa, como se sabe. Nada disto invalida, porém, que o PS não seja um partido genuinamente democrático o que também não obsta a que seja o mais atreito a golpes internos, públicos e notórios. Marcante, convém lembrar, foi o golpe bem-sucedido com que António Costa afastou José Seguro do poder no partido e, por reflexo, da possibilidade de vir a ser primeiro-ministro. Mais grave e escandaloso foi, ainda assim, o golpe tentado por Pedro Nunes dos Santos para retirar, à socapa, a direcção do partido e a própria liderança do governo a António Costa, servindo-se da monumental trapalhada que é o projecto do novo aeroporto de Lisboa e aproveitando-se, o que é ainda mais condenável, da ausência do primeiro-ministro na cimeira da Nato, em Madrid. Porque não esperou Pedro Nunes dos Santos pelo regresso do primeiro-ministro para anunciar o seu projecto, é caso para se estranhar e perguntar. Tenha-se em consideração que os melhores dicionários políticos definem golpe palaciano como uma espécie de golpe de estado através do qual um governante ou uma parte de um governo é removido por forças pertencentes ao próprio governo, sem que se sigam as normas estabelecidas. A iniciativa ousada e surreal de Pedro Nunes dos Santos foi, portanto, um golpe de estado palaciano, burlesco, bufo, com o qual tentou passar a ser ele a dirigir, na prática, o partido e o governo, como é óbvio, ainda que formalmente, e só formalmente, tudo continuasse na mesma, ficando ele com os louros dos sucessos e António Costa com o ónus da má governação. Actos como este já terá Pedro Nunes dos Santos ensaiado noutras ocasiões e a propósito de outras matérias da governança socialista. Convém, por isso, apreciar um pouco mais este surpreendente lance, que ganhou cariz de verdadeiro golpe de estado ainda que palaciano, e ao qual a arraia-miúda assistiu incrédula e divertida. Tenha-se em conta que no caso em apreço o móbil do crime foi uma obra emblemática do regime, um projeto de dimensão nacional e internacional, envolvendo muitos milhares de milhões de euros, com impacto em múltiplos sectores da economia e em que estão directamente interessadas todas, ou quase todas, as forças e instituições políticas e sociais, sem esquecer as que tratam das questões ambientais. É certo que a substituição formal de um primeiro-ministro eleito democraticamente, ao arrepio das normas constitucionais em vigor, apenas é praticável com recurso ao uso de forças militares ou paramilitares que o golpista felizmente não tem, nem comanda, não deixando de ser interessante imaginar o que aconteceria, dada a personalidade em causa, se as tivesse ou comandasse. Mesmo assim, o golpe palaciano ensaiado por Pedro Nunes dos Santos, mesmo não tendo recorrido à força das armas, teve o cheiro e o sabor de um típico golpe de estado das repúblicas das bananas, o que é verdadeiramente inacreditável e inadmissível numa democracia europeia como Portugal é suposto ser. É por demais óbvio que se o golpe de Pedro Nunes dos Santos tivesse sido bem-sucedido passaria a ser o próprio a dirigir o PS e a liderar o governo, na pratica, remetendo António Costa para um papel meramente formal e simbólico. Dos reais propósitos desta manobra se apercebeu António Costa que de imediato contra-atacou anulando prontamente o golpe ainda que não tenha saído incólume da refrega. Longe disso. António Costa mais uma vez demonstrou não ter especial vocação para se reunir de personalidades com competência e isenção bastante e, acima de tudo, para coordenar eficazmente um governo. Ainda que, mais uma vez, se tenha mostrado imbatível na trama política, matéria em que só Marcelo Rebelo de Sousa se lhe equipara. Marcelo de Sousa que, enquanto presidente da república, deveria ter condenado o golpe de pronto, de forma clara e drástica, como é seu dever institucional e para tanto tem poder. Não o fez. As praias brasileiras são melhor cenário para esquecer este vergonhoso episódio da democracia portuguesa e desviar as atenções da arraia-miúda das agruras governativas, já que à arraia-graúda estas matérias, de alguma forma, sempre lhe convêm. Talvez por tudo isto Marcelo e Costa joguem tão bem, um com o outro. O que não quer dizer que se deem bem.

O Rei das “selfies”

Não deixou de haver reis em Portugal com a instauração da república, contrariamente ao que pensar se possa. Longe disso. Reis disto e daquilo melhor se reproduzem agora no húmus da democracia republicana. É certo que o rei da rádio passou à história. Em seu lugar, porém, foram coroados muitos outros, tais como o rei dos pneus, o rei dos frangos, o rei das cassetes, o rei da sucata e muitos mais. Todavia, o mais badalado de todos é, sem dúvida, o Rei das “selfies”. Porque é o que melhor simboliza o país de faz de conta em que Portugal se converteu: um reino sem rei nem roque, uma democracia e um estado de direito de faz de conta, uma república que faz de conta que tem um presidente. É um rei, festivaleiro, popularucho, quixotesco, imagem central de mil autorretratos e outras tantas “selfies” audiovisuais. Sobretudo é o herói principal da telenovela burlesca que narra a vida penosa de um povo que o próprio rebaptizou de arraia- -miúda, que vive e se desenrasca como pode. Sobretudo agora que Portugal tem tantos, tão graves e tão diversificados problemas, carências e vícios como nunca teve, que nada têm a ver com a pandemia ou a guerra na Ucrânia, como alguns pretendem fazer crer. Sendo que no topo desse bolo podre “made in Portugal” estão as cerejas doiradas do nepotismo, compadrio e mediocridade de inspiração partidária. Talvez seja por isso que o Rei das “selfies”, longe de ser amado e respeitado quanto julga sê-lo, é glosado e ridicularizado especialmente nas redes sociais. Arraia-miúda ingrata que, por mais que o Rei das “selfies” a divirta e lisonjeie, não aplaude a sua árdua missão de preservar a pureza original do Regime. Rei das “selfies” que não tem feitio, nem vocação, para ficar de braços cruzados encerrado num palácio à beira Tejo e a ver passar os navios por nada ter que fazer. Arraia-miúda que não entende que o Rei das “selfies” e demais governantes falem tanto e façam tão pouco, sejam quais forem as razões. É que, lá diz o povo, entre falar e fazer há muito que dizer. Muito que encobrir, digo eu. Muito interesse particular a salvaguardar, muito criminoso a proteger. Os principais problemas, carências e vícios que Portugal enfrenta são velhos e relhos, e exigem reformas profundas para que possam ser eficazmente combatidos. Reformas do Estado e quiçá, da própria Constituição da República. Reformas que têm sido sistematicamente adiadas ou arremedadas e a que os governantes respondem com discursos de circunstância e a bater com a mão no peito. Claro que o próprio primeiro- -ministro, que já está há demasiado o tempo à frente do barco sem obra que se veja, para lá das monumentais trapalhadas que se conhecem, já não tem como alijar as responsabilidades que lhe cabem. Também o Rei das “selfies” já perdeu a credibilidade original porquanto quanto mais se mostra e arenga mais se enfarinha nos insucessos governamentais. Dir-se-á que não tem poderes para mais e que por isso passa a vida fora do palácio a opinar sobre tudo e coisa nenhuma. Ora aí está uma das muitas reformas que se impõem: dar que fazer ao presidente da república, dando-lhe os justos poderes que o motivem a falar menos e a fazer mais e, sobretudo, a fazer com que o governo coloque o interesse nacional acima da estratégia do partido e do negócio de privado. O poder democrático está demasiado fragmentado e desacreditado como se vê, o que o torna presa fácil de políticos oportunistas, incompetentes e criminosos que vivem tranquilos, apesar de tudo, porque o Rei das “selfies” distrai e diverte a arraia-miúda que arranha e ladra mas não morde. O maior beneficiário, ainda assim, é o primeiro-ministro António Costa que tem contado com a sua incondicional e prestimosa bênção e cooperação. António Costa que é, sem dúvida, um homem de sorte. Viu-se quando perdeu as eleições para Passos Coelho e o BE e o PCP lhe deram a mão e o salvaram, por mais cara que a geringonça lhes tenha ficado. Viu-se mais recentemente quando a maioria absoluta lhe caiu nas mãos, sem saber como, porquê e o que fazer com ela. Mas a sorte maior de António Costa é mesmo o Rei das “selfies” que incondicionalmente o protege nas horas más e o aplaude nas felizes. Grande mistério é, por tudo isto, saber que papel assumirá o Rei das “selfies” depois de terminar a presente missão. O mais certo será a arraia- -miúda continuar a jogar forte na raspadinha eleitoral e ter o azar de continuar albardada pela esquerda, porquanto os albardeiros de direita não parecem ter competência bastante para amansar a cavalgadura. Continuará, então, o Rei das “selfies” a oferecer a sua mãozinha aberta ao punho fechado socialista, agora já não em Belém mas noutro qualquer reino transnacional para o qual os machuchos socialistas o empurrem, por gratidão. Isto se a raspadinha da Santa Casa de Bruxelas continuar a distribuir prémios. E se Portugal sobreviver.

Uma invasão a talhe de foice

A invasão da Ucrânia pelas tropas de Moscovo prossegue com a selvática devastação que os órgãos de comunicação social do mundo livre mostram com chocante realismo. Enquanto nas televisões e jornais russos nem uma só imagem destas barbaridades se vê. A luta heroica da Nação ucraniana pela defesa da sua soberania, independência e desejo de integração no mundo livre e democrático é deveras surpreendente e assinalável. Desvirtuar esse sacrifício ciclópico de uma Nação que está na linha da frente do combate pela liberdade e democracia, diluindo-o em jogos geopolíticos, no comércio de recursos naturais ou em negócios de arma é injusto, desonesto e apenas serve os desígnios sinistros de Vladimir Putin. Importa, por isso, fazer alguns recortes fiéis da História recente, concretamente no que ao colapso da União Soviética diz respeito, que se iniciou em dezembro de 1991 e abriu caminho, de uma assentada, à criação de 15 estados independentes. De facto, foi em 21 de dezembro desse ano que líderes da Federação Russa, da Ucrânia e da Bielorrússia assinaram um documento em que era declarada extinta a União Soviética, criando no seu lugar a Comunidade dos Estados Independentes. Todavia, a Ucrânia já proclamara a sua própria independência a 1 de Dezembro, mediante um plebiscito que registou o voto favorável de 90% da população. De realçar, também, que esse monumental colapso da União Soviética foi provocada pelas próprias populações, confrontadas com a desumanidade, a dramática falência económica e social do regime comunista e não porque tenha sido atacada, ou sequer ameaçada, por tropas da NATO, que havia sido criada 42 anos antes, precisamente para defender os países integrantes da selvática agressividade soviética. Pormenores que o PCP e demais simpatizantes domésticos de Putin, se esquecem de citar nas suas diatribes contra a NATO, a que igualmente se associa o BE. Mas também não será despiciendo relembrar que a União Soviética resultou do sucesso trágico do marxismo na Rússia imperial, convenientemente adulterado por Lenine, primeiro, e Estaline, depois, os fautores dos maiores massacres do mundo moderno, em consonância com o seu comparsa Mao Tsé-Tung, todos na esteira nacional-socialismo de Adolfo Hitler. Muito embora, justiça lhe seja feita, não se deva ignorar o papel relevante que a doutrina de Karl Marx teve na dignificação das classes trabalhadoras um pouco por todo o mundo, ainda que os maiores êxitos nesta matéria tenham e continuem a ser alcançados, democraticamente, nos países em que impera a democracia liberal, contrariamente às autocracias em que o marxismo-leninismo prevalece desfigurado. Convém também aqui relembrar que era desígnio fundamental do Marxismo-Leninismo, cito, “criar o novo homem soviético, que seria um cidadão educado e culto, possuidor de uma consciência de classe proletária orientada para a coesão social necessária ao desenvolvimento de uma sociedade comunista”. Aqui reside o fracasso maior do marxismo-leninismo, como fica bem demonstrado na trágica invasão da Ucrânia, a talhe de foice, ou da gadanha do fantasma comunista. Invasão que é, em última análise, a obra mais recente e funesta do abortado homem novo soviético, exemplificado por Vladimir Putin, escudado nos seus homens de confiança mais conhecidos e na classe social dominante, oligárquica e corrupta, que desmerecem e martirizam o povo russo. Todos eles são produtos acabados da ideologia, educação e formação de quadros da tristemente célebre União Soviética, como se vê. Trata-se de seres amorais, cruéis, cínicos, muito longe cidadão educado e culto, possuidor de uma consciência de classe proletária que era suposto o marxismo-leninismo vir a criar. Menor fracasso do marxismo- -leninismo, porém, que também a invasão da Ucrânia patenteia, não será o ilusório internacionalismo soviético ter dado lugar ao sinistro imperialismo de Vladimir Putin que, mais do que restaurar a defunta União Soviética, pretende reerguer e alargar o império do czar Pedro, o Grande, seu confesso inspirador. Putin sabe que o espectro da União Soviética que astuciosamente manipula, lhe rende significativas simpatias dos remanescentes comunistas e afins, que o mundo livre acolhe democraticamente e que continuam a sonhar com a sua reaparição. As semelhanças entre a situação actual e a vivida no início da II Guerra Mundial são, por demais, assustadoras. Resta-nos a esperança de que a conhecida asserção que diz que a História se repete não seja verdadeira ou que, a sê-la inexoravelmente, se não repita pela última vez. Havemos de concluir que, mais do que nunca, o mundo livre precisa de líderes esclarecidos e corajosos, com a dimensão de Churchill, Eisenhower e De Gaulle, capazes de enfrentar e levar de vencida tão grave ameaça à Humanidade, pacificamente se possível for. E ainda que, mais do que nunca, se justifica a existência da NATO.

A República Socialista de Lisboa e Colónias

Não tenho a pretensão de fazer análise política. Para tanto não tenho preparação e muito menos me é dado conhecer os meandros do poder, só acessíveis a politólogos profissionais, enfeudados ou não. E a quem tem amigos influentes, claro está. O que não obsta a que quem quer que seja possa intuir as reais motivações e justamente criticar os actos dos poderosos com base na informação credível que vem a público. Limito-me a escrever inócuos artigos de opinião, portanto, o que está ao alcance de qualquer cidadão que a tal se predisponha e que se dê ao desfrute de ler e ouvir diariamente diversificados órgãos de comunicação, tendo, para lá do mais, o cuidado de aferir a credibilidade da informação. Acrescento que não me revejo plenamente em nenhum partido existente muito embora seja um fervoroso adepto da chamada democracia liberal, sistema político que é, no meu entendimento, o mais justo e que melhores e mais seguras perspectivas abre para um mundo melhor. Donde se infere que igualmente me não revejo no regime político vigente a cujo controverso ordenamento jurídico devem ser atribuídas as graves doenças de que a democracia portuguesa enferma e que fazem do Estado português, por mais que me desagrade dizê- -lo, um estado marginal da União Europeia. Quando se diz que Portugal continua na cauda da Europa é isso mesmo que se pretende realçar. Vários são os sintomas dessas graves enfermidades que afectam Portugal. Em linguagem clínica dir-se-ia que os principais são a febre alta da corrupção, os entorses anquilosantes da coluna vertebral da democracia que é o Sistema Nacional de Justiça, o raquitismo social traduzido nos indecorosos níveis de pobreza e desigualdade e a crónica anemia económico-financeira materializada na preocupante divida pública. Tudo conjugado com a asfixiante hegemonia partidária que oprime a democracia e que agora mais se acentua com a maioria absoluta do PS e o declínio, imparável, do PSD. Tudo leva a crer que com António Costa a hegemonia do PS se acentue e que o PSD, que continua sem ter líderes incontestáveis por mais actos eleitorais a que se submeta, não irá parar de se degradar. Será caso para se dizer: deixem António Costa voar livremente para o seu tão almejado cargo na Europa que Portugal e a democracia só ganharão com isso. É do senso comum, de facto, que o PS cada vez mais se afirma como um partido homogéneo, com uma enorme freguesia, que não para de crescer, sem outra ideologia que não seja o oportunismo e com a mais elevada taxa de solidariedade corporativa entre correligionários, ilícita e antidemocrática, baseada no nepotismo, amiguismo e compadrio levados a níveis indecorosos, bem como na protecção, subtil e sistémica, dos seus mais destacados militantes envolvidos em escândalos de corrupção. Característica que, tudo leva a crer, mais se acentuará com o inevitável abastecimento da máquina partidária com verbas do PPR, por mais observatórios de acompanhamento que inventem. Tudo se conjugará, como é óbvio, na afirmação e aprofundamento da emergente República Socialista de Lisboa e Colónias que assenta no reforço da hegemonia política do PS, no agravamento da centralização político-administrativa, cultural e económica em Lisboa e no agravamento do abandono do interior, com as regiões a serem cada vez mais tratadas como colonias. Sendo que a colónia Porto irá continuar a sua luta pela independência. O PSD, em contra partida, mais uma vez demostra ser um partido heterogéneo, sincrético, em que pontificam barões nacionais e baronetes regionais que primam pelo individualismo, pela vaidade pessoal e pela disputa avulsa de mordomias. Estas foram, de resto, as principais causas do fracasso de Rui Rio a quem nunca se ouviu, por exemplo, uma palavra de defesa da governação de Passos Coelho, o que provocou a fuga de muitos destacados militantes para o Chega e o Iniciativa Liberal que, por certo, não irão retornar. Ilustrativa desta magna diferença entre os dois maiores partidos é também a forma agreste e distante como os presidentes da república que o PSD ousou eleger olharam e trataram o partido que os gerou, contrariamente ao que se tem verificado da parte do PS. Basta olhar para o distanciamento frio e escrupuloso de Cavaco Silva e para a indiferença cínica de Marcelo de Sousa, de um lado e para a promiscua conivência partidária de Mário Soares e Jorge Sampaio, do outro. Acima de tudo, que é o mais grave, os partidos que tiveram responsabilidades de governança, nos quais se incluem o BE e o PCP dos tempos heroicos da geringonça, pecaram sistematicamente por privilegiar vantagens partidárias e afins, em detrimento do interesse nacional, alienando as reformas fundamentais como os ditadores alienam eleições. É por tudo isto, que Portugal está doente e com tendência para a doença se agravar. Os políticos, esses, continuam de boa saúde. Mas não se recomendam.

Actual e urgente

Deus, para muitos, seja que deus for, nada mais é que um fetiche e a religião, qualquer que seja, sortilégio ou pura imaginação. Assim é que muitos olham deus, seja que deus for, com desdém, e outros apenas procuram na religião, seja que religião seja, um meio de alcançar algum tipo de benefício: curas, sucessos sociais, ganhos económicos ou mesmo políticos. Ainda assim, os mais fervorosos seguidores de Jesus Cristo encaram as boas práticas cristãs como o melhor caminho para refrigerar as agruras da vida e alcançar a felicidade absoluta, depois da morte. Não é de admirar, por isso, que neste mês de Maio de 2022, peregrinos de todas as proveniências, movidos pela fé, tenham de novo acendido milhares de velas de esperança no santuário de Fátima. Será oportuno, por isso, relembrar. A fazer fé nos testemunhos de Lúcia dos Santos expressos em quatro manuscritos designados por Memórias, as denominadas Aparições foram várias e de estreme proximidade, dado que a Imagem celeste pousou numa pequena azinheira com cerca de um metro de altura, estando os videntes a menos de um metro de distância, ao alcance da vista, ouvidos e mãos, ainda que apenas Lúcia tenha estabelecido diálogo com a divina aparição. Tais acontecimentos sobrenaturais que hoje possuem notoriedade planetária começaram, porém, dois anos antes, em 1915, quando Lúcia e outras três pastorinhas chamadas Maria Rosa Matias, Teresa Matias e Maria Justino, partilharam visões maravilhosas com forma humana. Depois disso, em 1916, agora já na companhia de seus primos Francisco Marto, de 9 anos, e Jacinta Marto, de 7, Lúcia, que contava 10, dá testemunho de 3 novas visões, as chamadas Aparições do Anjo. Estas aparições prévias a que Lúcia apenas se referirá posteriormente, em 1937, no texto conhecido por Memória II, foram preparatórias das que ocorreram em 1917, que são as fundamentais, porque envolveram “… uma senhora mais branca que o Sol”, no dizer dos videntes, e que na última ocorrência, a 13 de Outubro, declarou ser Nossa Senhora do Rosário. Foram seis, portanto, os encontros dos pequenos pastores Lúcia, Francisco e Jacinta, ocorridos entre Maio e Outubro de 1917, com essa Mensageira celestial, chancelados pelo impressionante Milagre de Sol e por milhares de factos miraculosos que levam milhões de almas a acreditar que se tratou, de facto, da Mãe de Cristo e a fazer Fé na Sua mensagem de amor e paz. A primeira destas Aparições de Nossa Senhora aconteceu em 13 de Maio, razão pela qual essa é a data marcante do fenómeno religioso de Fátima sendo, por isso, eventualmente a mais concorrida e noticiada. Fátima não é, contudo, um caso esporádico e isolado, já que se inscreve na longa lista de locais onde a Mãe de Deus é venerada porque lá se manifestou em diferentes datas, anunciando mensagens semelhantes, como são os casos de Lourdes e La Salete, em França, de Aparecida, no Brasil e de Guadalupe, no México. Mensagens que dia após dia se apresentam mais instantes e prementes face ao declínio persistente da Humanidade. É, de facto, deprimente constatar que apesar dos avanços científicos e tecnológicos, milhões de seres humanos continuam a soçobrar na guerra e a apodrecer no vício, na doença e na mais abjecta miséria, enquanto os biossistemas se degradam irreversivelmente. Também porque a política, que deveria ser a justa governação dos povos, é feita de mentira, traição e corrupção, com a dimensão espiritual do homem a ser banida pelo materialismo mais desapiedado e o lugar de Deus a ser ocupado por mitos mundanos que alienam multidões. Sobretudo no momento presente em que é instante a ameaça de uma terceira guerra mundial que poderá assumir efeitos devastadores e mesmo acabar com a própria civilização e toda a vida à superfície da Terra. E também porque a Igreja católica em geral e a própria Santa Sé em particular dão mostras de estar minadas por mil pecados contrários à doutrina do seu fundador Jesus Cristo, muito embora tenham surgido, com o papa Francisco, renovados sinais de esperança. Assim se compreende que o designado Terceiro Segredo, chave mestra da Mensagem de Fátima, esteja de novo na ordem do dia uma vez que muitos admitem que o texto publicado não será o original e a interpretação oficial não terá sido a mais justa. Todavia, muito mais importante que o sensacionalismo que deriva da vertente profética da Mensagem que a Virgem de Fátima concedeu aos videntes num tempo e contexto peculiares, mas que é igualmente válida para os tempos e eventos do presente, é a energia salvífica que dela irradia. Porque a Humanidade está mais do que nunca à beira de uma catástrofe global urge escutar e acatar esta mensagem ecuménica de paz, amor e verdade, que se mantém actual e instante.

Um homem que tem bombas atómicas no cérebro

A guerra é, por certo, o mais complexo fenómeno social, porquanto, para lá de ser absolutamente irracional é eminentemente niilista, sendo que o seu impulso determinante é, por regra, individual e não colectivo, contrariamente ao que se faz crer, pelo que reduzi-la ao domínio da geopolítica é limitar a sua mais profunda compreensão. Assim melhor se compreende que os conflitos armados de maior dimensão que a História Universal regista foram determinados, em última análise, por verdadeiros génios do mal, dada a crueldade, a despiedade e a falta de escrúpulos com que prepararam, treinaram e lançaram as suas hostes no combate. Assim foi no passado distante. Basta lembrar, para tanto, o papel decisivo de alguns mal-afamados matadores como o huno Átila (400-453), o mongol Genghis Khan (1162-1227), ou turcomano Tamerlão (1336-1405). Também na História moderna não faltam exemplos de famosos assassinos em massa, com destaque para o russo Josef Stalin, de cujo curriculum constam 20 milhões de mortes, do alemão Adolf Hitler que foi o primeiro responsável por outros tantos milhões, ou do chinês Mao Zedong que bateu o record com 60 milhões. Por outras palavras: estes medonhos carniceiros tiveram o ensejo de se aproveitar de circunstâncias históricas, sociais e geopolíticas propícias para fazer valer o seu génio sinistro, que era determinado por punções mentais assustadoras. Assim é que Mao Zedong que tinha no coração a grande China imperial, estava determinado a matar Deus, para tomar o Seu lugar, à semelhança de Josef Stalin, que amava a grande Rússia imperial. Já Adolf Hitler tinha no cérebro o nacional-socialismo, vulgarmente conhecido por nazismo, e no coração a supremacia da raça ariana, razões determinantes, mais do que as económicas ou geopolíticas, para desencadear a terrível catástrofe que foi a II Guerra Mundial. Uma nova figura, igualmente sinistra, se junta agora às atrás referidas: o russo Vladimir Putin que tem bombas atómicas no cérebro e pouco mais, o que o leva a cuspir ameaças de guerra nuclear por dá cá aquela palha, determinado a fazer ajoelhar meio mundo ante o seu renovado império soviético. Foram estas as verdadeiras razões, de resto, que levaram Putin a ordenar a cruel agressão, não declarada, à Ucrânia, uma nação independente e democrática, da mesma forma que envolveu a Rússia em várias outras guerras desde que se assenhoreou do poder, algumas das quais foram autênticos massacres, que não distinguiram militares de civis, como aconteceu na Chechénia, em 1999 e na Geórgia, em 2000. Claro que Putin, antes de se meter nessas sinistras aventuras, estabeleceu uma pérfida teia de prosélitos e colaboradores no chamado Ocidente, com realce para todos os que se esforçam por matar a democracia a golpes de foice e martelo para em seu lugar estabelecer a ditadura comunista. Até mesmo no insignificante Portugal instalou os seus tentáculos a nível de certas câmaras municipais e nas mais altas estâncias políticas e militares, como tem vindo a ser noticiado pela comunicação social. Não será de estranhar, por isso, que os seus mais fiéis defensores atribuam aos americanos e à NATO as culpas da invasão da Ucrânia, o que não deixa de ser paradoxal porque isso poderá significar que Putin está ao serviço do Ocidente o que não é de todo verdade. Bem pelo contrário. Mais lógico seria, isso sim, que sem rodeios nem subterfúgios, declarassem a invasão da Ucrânia como um ataque alargado ao Mundo Livre que, no seu entendimento, anda prenhe de misérias e pecados, o que não deixa der ser verdade. Só que as fraquezas e ruindades do Mundo Livre, todos os que nele vivem as conhecem, podem e devem denunciar e combater democraticamente. Enquanto os terríveis malefícios dos regimes autocráticos, como é o ditador Putin, apenas aqueles que os sofrem na pele e no espirito, os conhecem verdadeiramente mas não os podem, de nenhuma forma, combater. Dramático será concluir, por tudo isto, que a III Guerra Mundial, inexoravelmente nuclear, sempre será um perigo eminente enquanto Putin estiver no poder. Agora a propósito da Ucrânia, mais tarde por causa de outra qualquer guerra que o déspota tenha no seu programa. Isto se, entretanto, Putin sobreviver a Putin.

A lenda da vaca sagrada e do bezerro de oiro

Para uma maioria muito significativa de próceres políticos, com maior pendor à esquerda, a Constituição da República é uma vaca sagrada e o Regime político vigente, que à socapa enche os bolsos e garante tachos chorudos a gente afamada, é um bezerro de oiro. Duas instituições políticas sagradas em que é pecado tocar, nem que a vaca tussa. Ainda que o bezerro de oiro em apreço tenha pés de barro e produza dejectos democráticos tais como a lei Eleitoral, o Sistema de Justiça, a lei da Nacionalidade, a corrupção generalizada, o compadrio, o nepotismo e, acima de tudo, o endividamento público desregrado. Não se confunda, porém, sistema político com regime político. O sistema de democracia liberal e representativa, por exemplo, que se caracteriza, resumidamente, pelo voto livre, pela separação de poderes e representação política de todas as opiniões, para lá de garantir as liberdades e direitos fundamentais, consubstancia-se em regimes políticos distintos, podendo ser republicanos, presidencialistas ou nem tanto, ou mesmo monárquicos, com reis ou rainhas. Para os próceres políticos atrás citados, muito embora periodicamente se envolvam em competições de discursos eruditos sobre a matéria, o regime político vigente, repito, é único e intocável e quem se atrever a criticá-lo não é democrata, podendo mesmo ser considerado fascista ou pior que isso. Ainda que o PC e o BE que integram esse alargado grupo de fiéis do regime, adorem outros sinistros bezerros que de democracia e de democráticos nada têm, como sejam os venerados regimes políticos da Coreia do Norte, da Venezuela ou de Cuba, para não irmos mais além. E manda a verdade que se diga, também, que a generalidade dos regimes políticos europeus e partidos mais representativos, de que o PS português é paradigma, se converteram em verdadeiros pântanos ideológicos e éticos, em que chafurda a generalidade dos seus líderes. É neste cenário político institucional do mais alto nível que Portugal, apesar da nobreza do seu povo, da sua riqueza histórica e cultural, se afirma como um Estado pobre e marginal no contexto da União Europeia, dependente das ajudas comunitárias e com uma dívida pública explosiva, que o coloca à beira da banca rota sempre que uma crise internacional estala. Como se verificou com a crise da dívida soberana iniciada em 2008, mais recentemente com a crise pandémica e agora com a guerra que Vladimir Putin desencadeou na Ucrânia. Tudo isto passou indiferente à discussão inútil e inconsequente do Orçamento de Estado de 2022, que o PS desdenhou do alto da sua maioria absoluta parlamentar. Indiferença que já anteriormente se verificou na vigência da tristemente célebre Geringonça, uma vaquinha que o PS, o PC e o BE fizeram sem que se saiba bem porquê e para quê, mas que salvou António Costa do apagamento político e acabou por lhe dar de bandeja e mão beijada a presente maioria absoluta. É por demais óbvio que uma economia saudável é indispensável para o progresso e bem- -estar de uma Nação. E é por demais evidente que em tempo de vacas gordas não há governos maus e que os bons governos se veem em tempo de vacas magras. Por norma, para sanear os grandes males económicos os economistas apontam múltiplas medidas e soluções, qual delas a mais rebuscada, que os políticos recondicionam para que também sirvam da melhor forma os seus interesses pessoais e partidários. São mil estratagemas administrativos como o desdobramento dos escalões do IRS, os “autovoucher”, o congelamento de salários, os subsídios a granel, o salário mínimo, o rendimento social de inserção, as mexidas manhosas nos impostos, etc., etc, etc. Uma coisa é certa porém: com o regime político vigente a economia portuguesa jamais sairá da cepa torta, por mais mesinhas e estrangeirinhas, porcas e parafusos que os políticos atarraxem e desatarraxem. Mesmo que circunstancialmente cresça acima da média europeia quando pode, deve e é necessário que cresça acima do máximo europeu. Sem as indispensáveis reformas das leis fundamentais e do Estado, sem o combate eficaz à corrupção, o controle racional da despesa pública, o fim dos empregos políticos chorudamente remunerados, sem leis de trabalho que valorizem quem trabalha e promova a rentabilidade, jamais a economia portuguesa poderá garantir desafogo e bem-estar a todos os portugueses e suportar serviços públicos de qualidade. Mas quem irá fazer tais reformas, quando e como?! Serão aqueles para quem a Constituição é uma vaca sagrada e o Regime um bezerro de oiro? É aqui que a porca, a vaca e o bezerro torcem o rabo.