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César Afonso

Psicólogo forense e ex-inspetor chefe da PJ

O corpo também fala em silêncio

Outubro Rosa, a prevenção e a dimensão humana do cancro da mama.

29 out. 2026, 14:30

Há doenças que, para além de ameaçarem a integridade física, atingem dimensões profundas da identidade humana, obrigando-nos a confrontar o medo, a vulnerabilidade e a possibilidade de perdermos aquilo que durante toda a vida considerámos parte indissociável de nós próprios. O cancro da mama pertence a esta realidade, não apenas pela sua expressão clínica e epidemiológica, mas também pelas consequências psicológicas, familiares e sociais que frequentemente acompanham o diagnóstico e os tratamentos, transformando a experiência da doença num processo que ultrapassa largamente os limites do corpo.

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Outubro tornou-se o mês internacional de sensibilização para o cancro da mama, simbolizado pelo laço rosa, mas seria profundamente redutor transformar esta iniciativa numa simples manifestação de solidariedade ou numa campanha de sensibilização limitada a algumas semanas. A verdadeira importância do Outubro Rosa reside na capacidade de promover comportamentos de vigilância, incentivar a participação nos rastreios e recordar que a deteção precoce pode modificar significativamente o prognóstico da doença, permitindo, em muitos casos, tratamentos menos agressivos e melhores perspetivas de sobrevivência.

A prevenção começa também na relação que estabelecemos com o nosso próprio corpo, aprendendo a reconhecer aquilo que lhe é habitual e permanecendo atentos a alterações que possam justificar observação médica. O aparecimento de um nódulo na mama ou na axila, modificações persistentes do tamanho ou da forma da mama, retração do mamilo, alterações da pele, vermelhidão, espessamento, secreções espontâneas pelo mamilo ou uma dor localizada persistente constituem sinais que não devem ser ignorados, embora seja importante esclarecer que a sua presença não significa necessariamente a existência de uma doença maligna. O fundamental é compreender que uma alteração suspeita deve motivar uma avaliação médica atempada, sem esperar que desapareça espontaneamente ou que chegue a data do próximo rastreio.

Existe, contudo, uma distinção essencial entre conhecer o próprio corpo e confiar exclusivamente na observação pessoal, porque muitos tumores mamários em fases iniciais não produzem sintomas nem alterações palpáveis, razão pela qual a mamografia de rastreio continua a desempenhar um papel fundamental. Em Portugal, o programa organizado abrange atualmente mulheres dos 45 aos 74 anos, com realização de mamografia de dois em dois anos, devendo as situações de risco acrescido, nomeadamente por antecedentes familiares ou predisposição genética, ser avaliadas individualmente pelo médico assistente. O rastreio não impede o aparecimento da doença, mas permite identificar alterações antes de estas se tornarem clinicamente evidentes, aumentando as possibilidades de intervenção precoce.

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A minha relação profissional com esta realidade começou há muitos anos, quando, enquanto psicólogo estagiário no Instituto Português de Oncologia e na Liga Portuguesa Contra o Cancro, tive oportunidade de acompanhar mulheres submetidas a mastectomia e desenvolver grupos psicoterapêuticos destinados a apoiar o seu processo de adaptação psicológica à doença e às transformações que dela resultavam. Foi uma experiência particularmente marcante, porque me permitiu compreender que, por detrás de cada diagnóstico, existe uma pessoa com uma história, uma identidade, relações afetivas, projetos de vida e uma representação do próprio corpo que pode ser profundamente abalada pela doença.

A mastectomia não representa necessariamente a mesma experiência para todas as mulheres. Para algumas, a perda da mama pode constituir uma alteração profundamente perturbadora da imagem corporal, da autoestima e da vivência da feminilidade; para outras, pode ser sobretudo a expressão de um tratamento necessário à preservação da vida, sendo estas respostas influenciadas pela personalidade, pela história individual, pelos recursos psicológicos, pelo apoio familiar e pela qualidade do acompanhamento clínico. O sofrimento não pode, portanto, ser presumido nem uniformizado, porque cada mulher constrói uma relação singular com o seu corpo e com a experiência da doença.

Nos grupos psicoterapêuticos que desenvolvi, a dimensão coletiva constituía uma oportunidade importante de partilha e reconhecimento mútuo, permitindo que experiências difíceis de verbalizar noutros contextos encontrassem um espaço de escuta, compreensão e elaboração emocional. A Psicologia ensina-nos que o sofrimento humano não depende exclusivamente da gravidade objetiva de um acontecimento, mas também do significado que lhe atribuímos, dos recursos que possuímos para enfrentá-lo e da possibilidade de encontrarmos relações humanas capazes de nos acompanhar durante esse processo.

Compreendi igualmente que a recuperação física e a recuperação psicológica nem sempre seguem o mesmo calendário. Uma mulher pode terminar os tratamentos e continuar a viver com receio da recidiva, dificuldades na intimidade, alterações da imagem corporal ou uma sensação de insegurança perante o futuro, sendo por isso indispensável reconhecer o acompanhamento psicológico como parte integrante dos cuidados oncológicos, e não como um recurso secundário destinado apenas às situações de sofrimento mais evidente.

Esta dimensão humana deve acompanhar também a forma como comunicamos a prevenção. Não basta recomendar exames ou enumerar sintomas se não ajudarmos as pessoas a ultrapassar o medo do diagnóstico, a ansiedade perante os resultados ou as dificuldades de acesso aos cuidados de saúde, particularmente em territórios envelhecidos e de baixa densidade populacional, como acontece em muitas localidades de Trás-os-Montes. A proximidade dos serviços, as unidades móveis de rastreio, a informação acessível e o acompanhamento pelos cuidados de saúde primários podem representar uma diferença decisiva entre uma alteração identificada atempadamente e uma situação que permanece demasiado tempo sem avaliação.

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O Outubro Rosa deveria, por isso, constituir também um compromisso das instituições de saúde, das autarquias, das associações e das próprias comunidades, promovendo literacia em saúde, facilitando o acesso ao rastreio e combatendo o isolamento das mulheres que enfrentam a doença, sem esquecer que o cancro da mama, embora muito mais frequente nas mulheres, também pode atingir os homens.

Há uma lição que conservei daquela experiência profissional e que continua a acompanhar-me: a doença pode alterar profundamente o corpo, mas não retira à pessoa a sua identidade, a sua dignidade ou o direito de continuar a construir uma vida com significado. A Medicina procura diagnosticar e tratar a doença; a Psicologia ajuda a cuidar da pessoa que vive com ela, sendo ambas dimensões indispensáveis de uma assistência verdadeiramente humana.

Talvez seja essa a mensagem mais importante que o Outubro Rosa nos deve deixar: conhecer o corpo, participar nos rastreios recomendados, procurar ajuda médica perante alterações suspeitas e compreender que o medo não deve transformar-se numa razão para adiar aquilo que pode ser decisivo.

Porque nem sempre o corpo anuncia a doença através da dor, nem todas as alterações importantes se tornam imediatamente visíveis.

E talvez a melhor forma de respeitarmos a vida seja aprendermos a escutar, também, aquilo que o nosso corpo ainda não conseguiu dizer em voz alta.

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