O envelhecimento está a mudar a criminalidade do Nordeste
Ao longo de trinta e sete anos de investigação criminal aprendi que o criminoso procura, acima de tudo, oportunidades.
Quando pensamos na criminalidade, imaginamos quase sempre ruas escuras, assaltos violentos, perseguições policiais ou crimes praticados sob o anonimato da noite. No entanto, essa imagem corresponde cada vez menos à realidade do Nordeste Transmontano.
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Continuamos a viver numa das regiões mais seguras de Portugal. Felizmente, a violência grave continua a ser excecional. Mas a segurança de um território não depende apenas do número de crimes registados. Depende também da capacidade de compreender como o crime evolui e de proteger aqueles que se tornaram mais vulneráveis. E essa vulnerabilidade está a mudar.
O Nordeste Transmontano é hoje uma das regiões mais envelhecidas da Europa. Em muitas aldeias vivem apenas algumas dezenas de pessoas. Muitas casas permanecem fechadas grande parte do ano, aguardando o regresso dos emigrantes durante as férias de verão. Noutras, vivem homens e mulheres que construíram uma vida inteira de trabalho e que hoje enfrentam a solidão, a distância dos filhos e uma autonomia cada vez mais frágil. É precisamente sobre esta realidade que a criminalidade se está a adaptar.
Ao longo de trinta e sete anos de investigação criminal aprendi que o criminoso procura, acima de tudo, oportunidades. E poucas oportunidades são tão atrativas como uma vítima isolada, previsível e confiante. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, estes crimes raramente começam com uma ameaça. Começam com um sorriso.
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O burlão moderno não bate à porta com aspeto agressivo. Pelo contrário. Apresenta-se educado, bem vestido, simpático e prestável. Pode dizer que vem verificar a eletricidade, substituir um contador, entregar um prémio, vender um equipamento de saúde ou representar uma instituição pública. Exibe rapidamente um cartão plastificado, utiliza linguagem técnica e fala com uma segurança que inspira confiança. Não pretende entrar pela força. Pretende que seja a própria vítima a convidá-lo a entrar. Noutras situações nem sequer precisa de sair de casa. O primeiro contacto faz-se através de um telefonema:
— "Falo do banco."
— "Somos da Segurança Social."
— "É da Autoridade Tributária."
— "O seu filho sofreu um acidente."
— "O seu neto precisa de dinheiro com urgência."
Os cenários variam. A estratégia mantém-se. O objetivo nunca é apenas pedir dinheiro. O objetivo é criar um estado emocional que impeça a vítima de pensar com serenidade. O medo, a preocupação ou o sentimento de urgência reduzem a capacidade crítica e levam muitas pessoas a agir antes de refletirem. É por isso que quase todas estas burlas incluem frases como:
"Tem de decidir já."
"Não desligue."
"Não fale com ninguém."
"Se esperar alguns minutos poderá perder tudo."
Quando a vítima entra neste ciclo emocional, deixa de tomar decisões racionais. Passa simplesmente a reagir. Na criminologia designamos esta técnica por engenharia social. Em vez de recorrer à força física, o criminoso manipula emoções, explora relações de confiança e utiliza informação aparentemente inocente para construir uma narrativa credível. E essa informação é frequentemente recolhida muito antes do crime. Os burlões observam.
Sabem quem vive sozinho.
Sabem quem ficou viúvo. Sabem quem recebe visitas apenas ao fim de semana.Sabem quem tem filhos emigrados em França, no Luxemburgo ou na Suíça.
Sabem quem acabou de receber a reforma ou quem acabou de vender um terreno.
Muitas vezes percorrem as aldeias durante dias sem levantar suspeitas. Conversam, fazem perguntas aparentemente inocentes, observam rotinas e recolhem pequenos fragmentos de informação que, mais tarde, utilizarão para convencer a vítima de que são pessoas de confiança.
Também os crimes patrimoniais se transformaram. Os assaltos às casas dos emigrantes são um exemplo claro desta evolução. Não se trata apenas de furtar objetos de valor. Muitas dessas habitações permanecem desocupadas durante meses, tornando-se alvos previsíveis para quem conhece o território e sabe exatamente quando atuar.
Mas talvez exista uma forma de criminalidade ainda mais dolorosa. Aquela que acontece dentro da própria família.
O abuso económico sobre pessoas idosas continua a ser uma realidade pouco visível. Reformas apropriadas por terceiros, utilização abusiva de cartões bancários, pressão para alterar testamentos, procurações obtidas em circunstâncias duvidosas, apropriação de património ou violência psicológica destinada a controlar decisões financeiras são situações que raramente chegam ao conhecimento das autoridades. Não porque não existam.
Mas porque muitas vítimas preferem sofrer em silêncio a denunciar um filho, um neto ou outro familiar.
É importante dizer, sem ambiguidades, que as vítimas destes crimes não são pessoas ingénuas nem menos inteligentes. São pessoas educadas para confiar. Pertencem a uma geração em que a palavra dada tinha valor, em que o carteiro era conhecido pelo nome, em que o funcionário da companhia da eletricidade era uma figura familiar e em que a porta de casa permanecia aberta durante grande parte do dia. Os criminosos exploram precisamente esses valores. Exploram a boa-fé. Exploram a educação. Exploram a solidão. Exploram a necessidade profundamente humana de acreditar que quem sorri merece confiança.
É aqui que todos podemos fazer a diferença. Nunca se deve abrir a porta sem confirmar a identidade de quem se apresenta. Um cartão exibido durante alguns segundos não prova rigorosamente nada. Sempre que alguém invoque representar uma empresa ou uma entidade pública, deve pedir-se identificação, anotar os dados e confirmar diretamente com a instituição através dos contactos oficiais.
Também é importante recordar que nenhum banco solicita códigos de acesso, palavras-passe ou códigos enviados por SMS. Nenhuma entidade pública exige pagamentos imediatos por telefone ou através de referências multibanco comunicadas numa chamada. E nenhuma decisão que envolva dinheiro deve ser tomada sob pressão.
Perante qualquer dúvida, o melhor conselho continua a ser o mais simples: desligar o telefone, fechar a porta e falar primeiro com um familiar, um vizinho, a Junta de Freguesia ou a GNR. Mais vale uma falsa suspeita do que uma verdadeira vítima.
Mas existe uma forma de prevenção ainda mais eficaz. A proximidade. Um filho que telefona todos os dias. Um vizinho que estranha uma visita inesperada. O comerciante que repara numa alteração súbita de comportamento. O presidente da Junta que conhece todos pelo nome. O militar da GNR que passa regularmente pela aldeia. Todos eles fazem parte de uma rede invisível de proteção que nenhuma tecnologia conseguirá substituir.
Durante muitos anos dissemos que era preciso colocar mais câmaras de vigilância. Talvez hoje devêssemos lembrar-nos de que a melhor vigilância continua a ser uma comunidade que conhece os seus, que pergunta, que cuida e que não deixa ninguém entregue ao isolamento. Porque o verdadeiro perigo do envelhecimento não reside na idade. Reside na solidão. E enquanto houver uma aldeia que continue a olhar pelos seus idosos, haverá sempre menos espaço para quem faz da confiança dos outros o seu modo de vida.













