Fábrica de água de Gostei já saiu do papel
A construção da unidade de engarrafamento de água mineral natural da Maravilha Décimal já arrancou em Gostei, no concelho de Bragança. O investimento deverá rondar os 20 milhões de euros, terá três linhas de produção e será pensado sobretudo para a exportação. A empresa prevê começar a colocar a água no mercado no final do próximo ano.
Durante anos, foi uma fábrica anunciada, adiada e novamente anunciada. Agora, finalmente, há máquinas no terreno, movimentos de terras e fundações a nascer em Gostei, no concelho de Bragança.
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A Maravilha Decimal começou há cerca de mês e meio os trabalhos para construir aquela que será uma das maiores apostas industriais do grupo Outeirinho na área das águas. O projeto tem ainda um nome que lhe dá uma dimensão internacional, Cristiano Ronaldo.
O futebolista é proprietário de 50% da empresa, sendo os restantes 50% detidos pela família de Francisco Ferreira, administrador da Maravilha Decimal e responsável pelo grupo empresarial que está por trás do projeto.
“Estamos a dar início à construção da fábrica”, confirma Francisco Ferreira, explicando que neste momento, estão a ser feitas as fundações e os movimentos de terras necessários para preparar o terreno. A expectativa é que o pavilhão esteja colocado entre janeiro e fevereiro e que, depois, avance a instalação dos equipamentos.
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A fábrica terá cerca de 7200 metros quadrados. No interior estarão três linhas de produção: uma destinada a garrafas de vidro e duas para embalagens PET (polietileno tereftalato), um dos plásticos mais versáteis de se reciclar e com menor pegada de carbono.
Mas o objetivo não é abastecer essencialmente o mercado português.
“Essa água é essencialmente dedicada para a exportação”, diz o administrador.
A expectativa da empresa é que a unidade esteja a produzir e a colocar água no mercado no final do próximo ano. A empresa assume que o objetivo é levar esta água transmontana além fronteiras, nomeadamente até aos Estados Unidos.
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Características da água estão no centro do negócio
A fábrica está a ser construída perto da zona de captação que será feita a cerca de 2000 metros. “O depósito ficará ao lado da fábrica também”, acrescentou.
Segundo Francisco Ferreira, esta água tem características “muito boas”, nomeadamente o facto de ser antioxidante foi uma das particularidades mais destacadas pelo administrador.
“Esta água é antioxidante e tem a capacidade de entrar no organismo e captar os chamados radicais livres de oxigénio, ou seja, evitar que haja envelhecimento, evitar que haja combustão de átomos de oxigénio que estão fora dos tecidos. E é isso que nos leva realmente a montarmos essa fábrica e a explorarmos a água”, disse.
Criação de empregos para as pessoas da região
Perspectiva-se que, através da implementação da unidade de extração e engarrafamento, a fabrica crie emprego na região, onde a capacidade de fixar população é uma preocupação recorrente.
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Segundo o administrador, o recrutamento será feito de forma faseada. “Quando chegar a altura, vamos fazer uma seleção de candidatos. Dai vamos escolher entre 15 e 20 profissionais que serão enviados para uma das fábricas do grupo.”
Por norma, explicou, serão enviados para a unidade de Fafe onde ficam durante perto de três meses a receber formação profissional de como manusear a maquinaria. Quando, depois, a fábrica em Bragança, estiver operacional, os candidatos selecionados regressam à região para trabalhar nesta unidade. Depois as equipas serão complementadas com técnicos que serão enviados pela empresa.
“Este é o método que usamos para todas as fábricas”, disse, acrescentando que optam por selecionar pessoas locais “por uma questão de proximidade.”
“As pessoas que serão admitidas serão nem mais nem menos da freguesia de Gostei ou de qualquer outra freguesia circunvizinha”, disse, salientando que acredita que esta unidade vai trazer benefícios para a aldeia.
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Um investimento longe de ser consensual entre a população
A construção desta fábrica está longe de ser consensual entre as populações das aldeias onde está instalada a unidade e nas localidades ao redor da mesma. Há quem acredite que vá trazer riqueza, mas há também pessoas que consideram que este investimento já está a perturbar o sossego das aldeias e que “vai poluir a paisagem” que a região oferece.
João Fernandes é de Gostei e é da opinião que a fábrica de extração e engarrafamento de água “só pode trazer benefícios para a freguesia e para o concelho de Bragança todo.”
“É uma estrutura que vai trazer para cá muita gente, muito investimento para a cidade, porque vão ser gerados cerca de 40 postos de trabalho, pelo que percebi, vem gente para aí também de uma classe média alta que deixa um monte de dinheiro”, afirmou, exemplificando “estas pessoas já compraram para aí 1000 kg de fumeiro de Gostei, aqui à Lurdes. Dinheiro chama dinheiro.”
Os postos de trabalho que vão ser criados terão como prioridade, segundo o administrador do grupo, empregar pessoas da região. João Fernandes diz ser um desses trabalhadores. O habitante de Gostei contou que está a colaborar na parte da construção da unidade. “Já foi uma mais-valia para mim”, frisou.
João Fernandes afirma que não entende o motivo que leva as pessoas a contestar esta unidade. Na sua opinião é “simplesmente uma unidade de embalar água”. Uma água que bebe “Há muitos anos” e que, no seu entender, é “mineral e de excelência”
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“Esta água tem propriedades fora da média. Não se iam investir ali milhões se não fosse assim. Esta água é mineral, o furo é isolado, as pessoas podem fazer agricultura, podem fazer tudo à volta da fábrica, não há problema nenhum”, frisou.
O homem acredita mesmo que o investimento foi atrasado “pela ignorância das pessoas” e acusa o executivo da freguesia de ter contribuído para esse atraso. “Fizeram baixos assinados contra a fábrica. Inclusive o atual presidente da junta foi o autor desse documento, há dois anos, e atrasou o processo de legalização da fábrica”, disse.
No seu entender, esta fábrica além de criar postos de trabalho, vai fixar pessoas “a estas aldeias que estão abandonadas”.
“Gostei é, neste momento, uma aldeia fantasma junto da cidade. Estas freguesias próximas do centro urbano não têm praticamente nada, nem vida”, vincou.
Num extremo oposto em relação à implementação desta fábrica está Manuel Batista. Mora em Formil, aldeia que se segue a Gostei. Este morador e empresário afirma-se contra a fábrica, sobretudo pelos receios relacionados com o impacto ambiental, a poluição sonora e o impacto visual que a unidade poderá provocar numa zona que considera ser essencialmente rural e habitacional.
“Eu tudo aquilo que seja desenvolvimento, evolução, tudo aquilo que traga benefícios para as populações tem sempre o meu aval. Não sou fundamentalista em nada. Agora, aquilo que já é visível, um muro daquele tamanho”, afirmou Manuel Batista, referindo-se à estrutura que está a ser construída junto à estrada.
Para o empresário, a dimensão da construção já permite perceber parte do impacto que a unidade poderá ter na paisagem. “Aquilo não é propriamente uma zona industrial. É uma zona habitacional”, defendeu, lembrando que existem moradias construídas a poucos metros da futura instalação.
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O impacto visual é, aliás, uma das principais preocupações do morador de Formil. “Imagina um muro com 200 metros, um muro de betão com 200 metros a quatro metros da estrada”, exemplificou, considerando que a estrutura representa uma alteração significativa numa zona que, até agora, tinha um caráter rural.
Mas é sobretudo o que poderá acontecer depois de a fábrica entrar em funcionamento que suscita dúvidas a Manuel Batista. O empresário diz não ter informação suficiente sobre os impactos que a unidade poderá provocar, nomeadamente ao nível do ruído, da circulação de camiões e da acessibilidade.
“Não sabendo bem o que é que vai realmente ali funcionar e que transtornos é que poderá trazer para a população, nomeadamente em ruído, em acessibilidade, camiões a passar numa zona que é habitacional e, quer dizer, é uma zona rural, acima de tudo é uma zona rural”, afirmou.
Manuel Batista tem uma casa de turismo rural em Formil e admite que a sua atividade poderá ser afetada pelo funcionamento da unidade. “Eu criei uma casa de turismo rural numa aldeia rural, típica e puramente rural, e não num espaço industrial”, explicou.
O empresário diz já sentir os efeitos da falta de promoção turística da região e teme que a eventual existência de ruído provocado pela fábrica agrave as dificuldades que enfrenta.
Apesar da posição crítica, Manuel Batista reconhece que Bragança precisa de investimento e de emprego. “Vai criar postos de emprego que Bragança precisa. Sem dúvida alguma vai trazer alguma captação e algum investimento que Bragança precisa”, admitiu. Mas deixa a ressalva de que “não é a todo o custo”.
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A falta de informação sobre o projeto é outra das críticas apontadas pelo empresário. Manuel Batista considera que as sessões de esclarecimento realizadas não foram suficientes para responder às dúvidas da população e defende que continuam por esclarecer os impactos da unidade, nomeadamente em matéria ambiental, de mobilidade e de ruído.
“Não há informação suficiente quanto aos impactos que uma fábrica daquelas pode, que uma estrutura daquelas pode vir a ter. E obviamente eu estou muito receoso”, rematou.
E como em tudo há sempre um meio termo, Cristiano Correia é esse meio termo. Na sua opinião “esta fábrica já devia estar na freguesia há mais tempo” e considera mesmo que “já está com 20 anos de atraso”.
Para este residente de Castro de Avelãs o investimento da empresa Maravilha Decimal vai trazer desenvolvimento as freguesias e à região. No entanto adiantou que persistem algumas preocupações que se relacionam “com as estruturas de acesso à fábrica.”
“Dúvidas vão ficar sempre algumas, mas nem estão propriamente relacionadas com a fábrica em si. Acredito que a entrada da aldeia de Gostei não tem capacidade para tantos camiões por hora, nomeadamente porque a entrada é estreita, como vão passar quando a fábrica estiver em pleno. A minha duvida recai só nessa questão e no facto de, talvez, tirar o sossego dos habitantes da aldeia”, disse.
Apesar destas questões Cristiano Correia acredita que vai trazer riqueza para a região, “principalmente desenvolvimento aqui na nossa zona”, disse.
Relativamente a ter questionado Francisco Ferreira durante a sessão de esclarecimento em maio, Cristiano Correia diz que o administrador “não quis abrir o jogo”, rematou.
Uma questão que não suscita preocupação a Cristiano Correia. Segundo o morador de gostei está prevista uma via alternativa para que o transito consiga circular sem engarrafamento e em segurança.
“Bem pior estão os de Nogueira agora, que passa lá o trânsito todo, precisamente porque a Junta de Gostei nunca conseguiu, estes anos todos, fazer uma ponte alternativa à Ponte de Areais, que é uma vergonha”, vincou.
Autarquia “a favor” desde que “não comprometa interesses”
O autarca José Gonçalves afirma que a autarquia é a favor da fábrica, “salvaguardando sempre o interesse da comunidade”, disse acrescentando que ainda há duvidas que persistem, nomeadamente relacionadas com a área circundante e de conceção, mas o autarca diz “acreditar na boa fé da empresa”.
“A lei diz-nos uma coisa, aquilo que o administrador nos disse foi outra um pouco diferente. Claro que vamos acreditar naquilo que o administrador nos disse e que vai honrar a sua palavra”, disse, revelando que “por ser uma grande área concessionada, numa zona rural há animais e estrumes” receando que existam restrições levantadas pela lei.
Quanto ao transito e à ponte, o autarca confirmou que a informação transmitida pelo município é que “está em andamento um projeto de execução para a substituição da ponte de Areais”, de modo a que todos os veículos, incluindo os pesados, possam circular em segurança.
José Gonçalves destacou ainda que a Junta de Freguesia já falou com o município sobre alternativas para desviar o trânsito do centro da localidade, tendo as ideias sido “bem recebidas pela autarquia”.
Relativamente ao baixo assinado mencionado por João Fernandes, o autarca preferiu não se pronunciar, garantindo que não foi o autor do mesmo, tendo apenas assinado o mesmo com o intuito de salvaguardar os interesse da população.
O projeto é da empresa Maravilha Decimal e conta com um investimento que ronda os cerca de 20 milhões de euros. O objetivo da empresa é extrair e engarrafar para exportar. A previsão é que, no final do próximo ano, a unidade já esteja a produzir.
Tentámos ainda obter um esclarecimento técnico em relação ao espaço circundante ocupado pela fábrica e em relação ao perímetro de proteção e que limitações podem existir para a população. No entanto, até ao fecho deste jornal não obtivemos resposta da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG).
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