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César Afonso

Psicólogo forense e ex-inspetor chefe da Polícia Judiciária

Quando a casa deixa de ser um lugar seguro

O abuso sexual intrafamiliar raramente é um ato isolado. É, quase sempre, um processo de controlo, manipulação e silêncio.

30 jul. 2026, 05:00

Há crimes que chocam pela violência. Outros pela crueldade. Mas existem alguns que atingem um lugar ainda mais profundo da consciência coletiva: aqueles que destroem o significado da própria família.

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O caso recentemente investigado pela Polícia Judiciária de Vila Real no Concelho de Vinhais, que envolve um homem de 67 anos fortemente indiciado pela prática de abusos sexuais sobre as duas filhas ao longo de vários anos, é um desses casos. Segundo a informação tornada pública, uma das vítimas é uma mulher com deficiência cognitiva grave e a outra terá começado a ser abusada ainda durante a infância. O processo encontra-se em investigação e caberá aos tribunais apurar definitivamente os factos. Mas, independentemente do desfecho judicial, este caso obriga-nos a refletir sobre dimensões psicológicas, sociais e criminais que ultrapassam largamente a história de uma única família.

O primeiro aspeto que importa compreender é que o abuso sexual intrafamiliar raramente é um ato isolado. É, quase sempre, um processo de controlo, manipulação e silêncio. O agressor não exerce apenas poder físico; exerce um poder psicológico que se constrói lentamente através do medo, da dependência, da culpa, da vergonha e da destruição da capacidade de a vítima confiar no seu próprio julgamento.

Quando esse agressor é o pai, a violência assume uma dimensão particularmente devastadora. A figura que deveria representar proteção transforma-se na fonte do perigo. A criança deixa de saber distinguir segurança de ameaça, afeto de violência, autoridade de abuso. Essa inversão compromete profundamente o desenvolvimento emocional e pode marcar toda a vida adulta.

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No caso da filha com deficiência cognitiva, a gravidade é ainda maior. A sociedade tem um dever acrescido de proteger quem, pela sua condição, possui menor capacidade de resistência, de denúncia ou de compreensão plena da violência exercida sobre si. A vulnerabilidade nunca pode transformar-se numa oportunidade para o predador. Pelo contrário, deve constituir um motivo adicional para reforçar todos os mecanismos de proteção.

Há uma pergunta que inevitavelmente surge perante situações desta natureza: como é possível que estes crimes permaneçam ocultos durante tantos anos? A resposta é dolorosa. Porque o abuso sexual intrafamiliar vive do silêncio. Silêncio da vítima, que muitas vezes teme não ser acreditada ou receia destruir a própria família. Silêncio imposto pelo agressor, através da intimidação, da manipulação emocional ou da dependência económica.

Silêncio de quem suspeita, mas hesita em denunciar por receio de se enganar ou de interferir na vida privada de terceiros. É precisamente este silêncio que permite que o crime se prolongue no tempo.

A investigação criminal demonstra, repetidamente, que muitos abusos intrafamiliares apenas chegam ao conhecimento das autoridades quando ocorre um episódio particularmente grave, quando a vítima consegue finalmente romper o medo ou quando alguém decide denunciar aquilo que durante anos permaneceu escondido.

Sob o ponto de vista psicológico, as consequências podem acompanhar as vítimas durante décadas. Não existe uma reação única. Algumas desenvolvem perturbação de stress pós-traumático; outras apresentam depressão, ansiedade, dificuldades relacionais, perturbações do sono, baixa autoestima ou um profundo sentimento de culpa que nunca lhes pertenceu. Muitas sobreviventes descrevem uma sensação permanente de perda de confiança nos outros e, por vezes, em si próprias.

Mas é importante afirmar uma verdade que a psicologia tem demonstrado de forma consistente: uma vítima de abuso não fica condenada para sempre ao trauma. Com proteção, apoio familiar quando possível, intervenção psicológica especializada e uma resposta judicial adequada, é possível reconstruir projetos de vida, recuperar autoestima e devolver às vítimas a dignidade que lhes foi retirada.

Este caso interpela também a sociedade transmontana. Trás-os-Montes é uma terra de proximidade, onde os vizinhos se conhecem, onde as famílias mantêm laços fortes e onde a privacidade sempre foi um valor profundamente enraizado. Essa proximidade constitui uma enorme riqueza social, mas pode transformar-se num obstáculo quando alimenta a ideia de que determinados assuntos devem permanecer dentro de casa.

Nenhuma tradição, nenhum respeito pela intimidade familiar e nenhuma preocupação com o "que os outros vão dizer" pode justificar o silêncio perante a suspeita de que uma criança ou uma pessoa vulnerável está a ser vítima de violência sexual. A verdadeira proteção da família começa precisamente quando somos capazes de proteger os seus membros mais frágeis.

Do ponto de vista criminal, importa reconhecer o trabalho desenvolvido pelas autoridades. A investigação de crimes sexuais intrafamiliares é uma das áreas mais complexas da investigação criminal. Frequentemente não existem testemunhas presenciais, os factos prolongam-se durante anos, a prova depende da conjugação de múltiplos elementos — testemunhos, perícias médico-legais, avaliações psicológicas, exames forenses, buscas, objetos apreendidos e outros indícios — exigindo uma abordagem extremamente rigorosa. Não basta suspeitar; é necessário provar.

Ao mesmo tempo, a resposta do sistema de justiça não termina com a detenção do suspeito. Ela prolonga-se na proteção das vítimas, no acompanhamento psicológico, na prevenção da revitimização durante o processo penal e na criação de condições para que possam reconstruir as suas vidas.

Há ainda uma dimensão coletiva que não devemos ignorar. Sempre que um caso destes passa ao conhecimento público, instala-se uma inquietação social compreensível. Muitos perguntam: "Como foi possível ninguém perceber?" Talvez alguém tenha percebido. Talvez alguém tenha suspeitado. Talvez alguém tenha sentido que alguma coisa não estava bem. Mas entre suspeitar e agir existe um espaço onde demasiadas vítimas continuam a sofrer.

É precisamente esse espaço que a sociedade deve aprender a reduzir. Denunciar uma suspeita não é condenar ninguém. É permitir que as autoridades investiguem. O silêncio, esse sim, pode transformar-se no melhor aliado de quem agride.

No fim de contas, este caso não fala apenas de um homem fortemente indiciado por crimes gravíssimos. Fala de duas mulheres cuja infância, juventude ou condição de vulnerabilidade terão sido profundamente marcadas, caso os factos venham a confirmar-se. Fala da responsabilidade das instituições. Fala da importância da investigação criminal. Fala da necessidade de uma sociedade que saiba escutar, proteger e agir.

Porque uma comunidade não se mede apenas pela forma como trata os seus membros mais fortes. Mede-se, sobretudo, pela forma como protege aqueles que nunca tiveram capacidade para se defender sozinhos.

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