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César Afonso

Psicólogo forense e ex-inspetor chefe da PJ

Bragança, o comboio e a Europa que nos falta

Importa compreender que uma ferrovia moderna não serve apenas para transportar passageiros entre duas cidades.

13 out. 2026, 05:00

Há decisões políticas cujas consequências ultrapassam largamente o tempo dos governos que as tomaram e acabam por marcar o destino de gerações, como se um território pudesse ser condenado a uma espécie de exílio geográfico sem nunca ter abandonado o lugar onde nasceu. O desaparecimento do caminho-de-ferro em Bragança pertence a essa categoria de decisões, não apenas porque retirou à região um meio de transporte, mas porque contribuiu para interromper uma ligação fundamental entre a economia transmontana, o restante território nacional e a Europa.

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Quando o comboio chegou a Bragança, em 1 de dezembro de 1906, completando a Linha do Tua, cuja construção começara no século XIX, representava muito mais do que uma conquista tecnológica. Significava a possibilidade de transportar pessoas, mercadorias, produtos agrícolas e conhecimento, aproximando uma região montanhosa dos mercados e das transformações económicas de um país que procurava modernizar-se. O caminho-de-ferro era, naquele tempo, aquilo que hoje reconhecemos nas grandes infraestruturas de comunicação: um instrumento de desenvolvimento e de aproximação entre territórios.

O que aconteceu depois constitui uma das páginas mais controversas da história das acessibilidades transmontanas. Após décadas de progressiva degradação da infraestrutura e perda de qualidade do serviço, o troço entre Mirandela e Macedo de Cavaleiros foi encerrado em 1991, seguindo-se o encerramento da ligação a Bragança em 1992. A retirada noturna dos últimos comboios da estação brigantina, documentada pela RTP, tornou-se um símbolo particularmente doloroso de um processo que muitas populações sentiram como uma decisão consumada sem verdadeira consideração pelas suas necessidades. Existiram problemas de segurança e razões técnicas invocadas para a suspensão do serviço, mas permanece legítimo perguntar por que razão a resposta ao envelhecimento de uma infraestrutura acabou por ser a sua supressão, em vez de uma estratégia de modernização capaz de preservar o transporte ferroviário.

Mais de três décadas depois, a questão regressa com uma importância acrescida. O Plano Ferroviário Nacional, aprovado em 2025, contempla a avaliação de uma ligação entre Porto, Vila Real, Bragança e Espanha, tendo sido celebrado, em julho desse ano, um acordo para desenvolver estudos de viabilidade. Existe, portanto, uma oportunidade concreta de planeamento, embora ainda distante de uma decisão definitiva de construção, que importa acompanhar para evitar que a intenção política se transforme em mais uma promessa adiada.

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A diferença relativamente ao passado está na nova geografia europeia. A região de Sanabria dispõe já de acesso à rede espanhola de alta velocidade, através da estação de Otero de Sanabria, permitindo ligações a Madrid e criando uma possibilidade estratégica que não deveríamos continuar a observar com indiferença. Uma ligação ferroviária portuguesa articulada com aquela infraestrutura poderia transformar Bragança de periferia nacional em ponto de conexão entre o Norte de Portugal e o espaço económico ibérico, aproximando a região de mercados, instituições e centros de decisão que hoje permanecem distantes sobretudo pela fragilidade das acessibilidades.

Importa compreender que uma ferrovia moderna não serve apenas para transportar passageiros entre duas cidades. Constitui uma infraestrutura de circulação económica e social que pode modificar profundamente as relações entre territórios, permitindo que trabalhadores se desloquem sem depender exclusivamente do automóvel, que estudantes frequentem instituições de ensino superior mantendo a ligação às suas comunidades e que investigadores, professores e profissionais qualificados possam estabelecer relações regulares com universidades, centros tecnológicos e empresas de ambos os lados da fronteira. Para o Instituto Politécnico de Bragança, cuja projeção académica e internacional representa um dos mais importantes ativos da região, uma ligação ferroviária eficiente poderia ampliar a capacidade de atração de estudantes, docentes, investigadores e projetos de cooperação científica.

Existe igualmente uma dimensão comercial que não devemos subestimar. Trás-os-Montes possui produtos agrícolas e agroalimentares de enorme qualidade, desde o azeite e a castanha ao vinho, ao mel, ao fumeiro e a outras produções diferenciadas, mas continua a enfrentar dificuldades estruturais de escala, distribuição e acesso aos mercados. Uma estratégia ferroviária articulada com plataformas logísticas, empresas e corredores de transporte poderia contribuir para reduzir alguns destes constrangimentos, desde que a infraestrutura fosse concebida também em função das necessidades económicas regionais e não apenas como ligação de passageiros. Não basta produzir riqueza; é necessário conseguir fazê-la circular, transformá-la e vendê-la em condições competitivas.

O turismo constitui outra dimensão decisiva, porque uma região com o património natural e cultural de Montesinho, do Douro, da Terra Fria e da Terra Quente, com as suas tradições, gastronomia, aldeias históricas e paisagens singulares, necessita de acessibilidades que permitam transformar visitantes ocasionais em fluxos turísticos mais regulares. O comboio poderia favorecer novas formas de turismo cultural e de natureza, aproximando visitantes portugueses e espanhóis, permitindo a criação de circuitos inter-regionais e reforçando a atividade de hotéis, restaurantes, comércio tradicional, museus e equipamentos culturais. A mobilidade não transporta apenas pessoas; transporta também consumo, conhecimento, relações culturais e oportunidades de investimento.

Mas talvez o benefício mais profundo esteja na própria liberdade de circulação das populações. Numa região envelhecida, onde muitos habitantes dependem de familiares ou de transporte individual para aceder a serviços, uma ligação ferroviária integrada com transportes rodoviários locais poderia reduzir o isolamento, ampliar a autonomia e permitir que viver no interior deixasse de significar uma dependência permanente do automóvel. A ferrovia não substituiria a rede de transportes de proximidade, mas poderia tornar-se a sua principal estrutura de ligação ao exterior.

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É precisamente por isso que não devemos discutir o comboio como uma reivindicação nostálgica, mas como parte de uma estratégia de desenvolvimento regional, capaz de articular mobilidade, ensino superior, turismo, comércio, inovação e fixação populacional. Nenhuma infraestrutura produz prosperidade automaticamente, sendo indispensável estudar custos, procura, soluções técnicas, articulação com Espanha e benefícios económicos e sociais, mas seria igualmente redutor avaliar o projeto apenas pelo número inicial de passageiros, ignorando a transformação territorial que uma ligação desta natureza pode ajudar a desencadear.

Existe, contudo, uma questão política que não podemos continuar a evitar: que capacidade de influência possuem os representantes de Trás-os-Montes junto do poder central? A região elege deputados, possui autarcas, instituições empresariais e académicas, mas continua a necessitar de uma representação territorial capaz de transformar reivindicações dispersas numa agenda permanente, acompanhada de objetivos, calendários e responsabilidades públicas. Aos deputados eleitos pelo distrito deve exigir-se acompanhamento parlamentar continuado; às autarquias, uma posição conjunta que ultrapasse rivalidades municipais; às instituições económicas e académicas, contributos técnicos que demonstrem o valor estratégico da ligação.

O caminho-de-ferro não pode continuar a ser uma promessa evocada em ocasiões solenes e esquecida quando se discutem os grandes investimentos nacionais, porque a história já demonstrou quanto pode custar a uma região perder uma infraestrutura e passar décadas à espera de uma alternativa.

Durante demasiado tempo, Trás-os-Montes habituou-se a justificar aquilo que não tinha pela distância a que se encontrava dos grandes centros de decisão. Talvez tenha chegado o momento de compreendermos que uma região não é necessariamente periférica pela sua localização geográfica, mas também pelas ligações que lhe faltam e pela capacidade que possui para influenciar as decisões que determinam o seu futuro.

O regresso do comboio a Bragança não significaria recuperar nostalgicamente o apito das antigas locomotivas, mas devolver ao território uma possibilidade de futuro, colocando a cidade numa nova geografia de mobilidade, conhecimento, cultura e desenvolvimento económico.

Porque o comboio faz tanta falta a Bragança como a água à boca de quem atravessou demasiado tempo o deserto, e talvez a verdadeira questão já não seja saber por que razão nos retiraram o caminho-de-ferro, mas quanto tempo mais estamos dispostos a aceitar que a Europa passe tão perto de nós sem que tenhamos uma linha para lá chegar.

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