Foto de César Afonso
César Afonso

Psicólogo forense e ex-inspetor chefe da PJ

A terra que já não nos reconhece

Muitos emigrantes transmontanos partiram convencidos de que a ausência seria provisória e de que, depois de uma vida de trabalho, regressariam à aldeia onde nasceram, à casa que construíram ou reconstruíram e à comunidade à qual acreditavam continuar a pertencer.

23 out. 2026, 05:00

Há uma dimensão da emigração portuguesa de que raramente falamos, talvez porque continuamos a olhar para aqueles que partiram através de uma narrativa construída sobre a coragem, o sacrifício, a saudade e a esperança do regresso, esquecendo que o tempo transforma silenciosamente não apenas as pessoas, mas também os lugares que deixaram para trás. Muitos emigrantes transmontanos partiram convencidos de que a ausência seria provisória e de que, depois de uma vida de trabalho, regressariam à aldeia onde nasceram, à casa que construíram ou reconstruíram e à comunidade à qual acreditavam continuar a pertencer.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

O problema começa quando descobrem que a terra guardada na memória já não coincide com aquela que encontram no regresso e que eles próprios deixaram de ser as pessoas que um dia partiram. Durante décadas viveram entre duas realidades, adaptando-se à cultura, às regras e aos comportamentos dos países de acolhimento, sem abandonarem completamente os valores e as referências da terra natal. Desenvolveram, assim, uma identidade híbrida, construída entre dois mundos, que lhes permite pertencer parcialmente a ambos, mas que também pode condená-los à dolorosa sensação de não pertencerem inteiramente a nenhum.

É aquilo que poderíamos designar por um duplo desenraizamento: no estrangeiro continuam frequentemente a ser identificados como portugueses e, quando regressam, descobrem que são tratados como franceses, suíços ou alemães, numa classificação aparentemente inocente que revela uma distância social mais profunda. O emigrante regressa ao lugar onde nasceu, mas encontra códigos de convivência diferentes, relações de vizinhança transformadas, amizades desaparecidas e estruturas comunitárias reorganizadas durante a sua ausência, percebendo que a pertença não depende apenas da origem, mas também da participação continuada na vida coletiva.

Existe, contudo, outra dimensão deste fenómeno que merece particular atenção. As comunidades humanas desenvolvem equilíbrios próprios, hierarquias informais, redes de influência e formas de distribuição de reconhecimento social que se consolidam com o tempo, pelo que o regresso de alguém que esteve ausente durante décadas pode ser interpretado, por alguns dos que permaneceram, como uma perturbação desses equilíbrios. O emigrante regressa frequentemente com novas experiências, recursos económicos, hábitos diferentes e vontade de participar na vida local, mas nem sempre encontra abertura para ocupar um espaço que, embora considere legitimamente seu, foi, entretanto, reorganizado por aqueles que nunca partiram.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Não se trata necessariamente de hostilidade deliberada, mas de mecanismos de defesa social que podem surgir em comunidades pequenas, onde a familiaridade e a continuidade das relações assumem particular importância. Quem ficou pode sentir que suportou as dificuldades do território enquanto outros procuraram melhores oportunidades, ao passo que quem regressa considera ter conservado, através do trabalho, das remessas, da construção de habitação e das visitas regulares, uma ligação que nunca deixou de ser verdadeira. Ambas as experiências possuem legitimidade, mas podem entrar em conflito quando a memória de pertença de uns não coincide com o reconhecimento concedido pelos outros.

A situação torna-se ainda mais paradoxal quando observamos as políticas de desenvolvimento local. Num território profundamente envelhecido, que procura atrair população e combater a desertificação humana, seria natural encontrar programas municipais especificamente destinados ao regresso dos seus emigrantes, ajudando-os a reintegrar-se socialmente, a investir as suas poupanças, a criar pequenas empresas, a recuperar propriedades ou simplesmente a reconstruir relações comunitárias. Contudo, esta dimensão do retorno continua frequentemente pouco visível nas estratégias autárquicas, apesar de existirem iniciativas nacionais de apoio ao regresso e programas locais de acolhimento de novos residentes.

Não está em causa questionar a importância da integração de cidadãos estrangeiros, que constitui uma necessidade económica e demográfica para muitas regiões, mas reconhecer que o emigrante português que regressa também pode precisar de acolhimento, orientação administrativa, reconhecimento das competências adquiridas e apoio à reconstrução da sua vida. Ser natural de uma terra não significa que, depois de quarenta anos de ausência, se conheçam ainda as suas instituições, os seus procedimentos ou as relações sociais que, entretanto, se estabeleceram.

Trás-os-Montes poderia transformar este problema numa oportunidade, criando programas municipais de regresso, redes de mentoria comunitária e espaços de encontro entre residentes e antigos emigrantes, aproveitando conhecimentos profissionais, experiências internacionais, capacidade de investimento e contactos comerciais adquiridos no estrangeiro. Muitos daqueles que regressam não trazem apenas reformas e saudades; transportam competências, outras maneiras de trabalhar, ideias empresariais e uma visão do mundo que poderia contribuir para renovar economias locais demasiado dependentes das atividades tradicionais.

Mas talvez a questão mais profunda seja de natureza psicológica. Durante uma vida inteira, o emigrante alimentou a esperança de regressar a um lugar que continuou a existir dentro de si, sem perceber que esse lugar se transformara numa construção afetiva, preservada pela distância e pela memória. Quando finalmente regressa, confronta-se com a impossibilidade de recuperar o tempo perdido, descobrindo que não basta voltar à casa, à rua ou à aldeia para reencontrar a comunidade que um dia conheceu.

PUBLICIDADE

Alguns conseguem reconstruir essa pertença, outros resignam-se a viver numa espécie de isolamento dentro da própria terra e há ainda aqueles que acabam por partir novamente, não porque tenham deixado de amar as suas origens, mas porque já não encontram nelas o lugar que imaginaram durante décadas.

Talvez devêssemos, por isso, compreender que o regresso dos emigrantes não é simplesmente um movimento geográfico, mas um processo de reintegração humana que exige disponibilidade de quem chega e capacidade de acolhimento de quem permaneceu.

Porque existe uma forma particularmente dolorosa de solidão que não nasce de estarmos longe de casa, mas de regressarmos finalmente e descobrirmos que, embora reconheçamos todas as ruas, já quase ninguém reconhece o lugar que julgávamos continuar a ocupar.

E talvez seja essa a maior tragédia de alguns emigrantes: terem passado uma vida inteira a sonhar com o regresso a uma terra que, entretanto, aprendeu a viver sem eles.

PUBLICIDADE

Do mesmo autor

As mais lidas