O Verão que traz de volta o coração

Reencontram-se compadres, afilhados, primos em terceiro grau que ninguém sabe bem explicar como o são, e a aldeia recompõe a fraternidade.

10 ago. 2026, 05:30

Há terras que não se abandonam. Apenas se adiam. Trás-os-Montes é uma dessas terras.

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Durante largos meses, as aldeias repousam numa serenidade quase monástica. As portadas cerram-se, os largos silenciam-se, e só os sinos e as aves recordam que ali continua a pulsar vida. Depois chega Agosto, e a terra volta a ter voz. E vida.

Primeiro regressam os cheiros: as giestas queimadas pelo sol, a lenha a crepitar nos velhos fornos, o pão acabado de cozer barrado com manteiga. Depois a cor: as fachadas caiadas de fresco, as colchas nas varandas, os arcos floridos, as iluminárias que prolongam as estrelas até ao chão. Por fim regressam as pessoas, as únicas capazes de fazer nascer o Verão transmontano.

Chegam de Espanha, de França, da Suíça ou da Alemanha, com o automóvel carregado até ao tejadilho e com uma emoção que apenas o emigrante conhece: a de percorrer outra vez a rua onde aprendeu a andar, onde esfolou os joelhos a brincar, onde bebeu água na fonte, e a emoção de empurrar a porta da casa dos pais para verificar que tudo permanece exactamente no mesmo lugar, como se o tempo, por respeito, ali tivesse decidido parar. Já o dizia Ovídio: nescio qua natale solum dulcedine cunctos ducit, «não sei que doçura é essa com que o solo natal a todos atrai». Há mães que, nesse dia, se sentam à janela desde manhã cedo, só para verem o carro dos filhos dobrar a curva.

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E depois há os abraços, dados na soleira e não dentro de casa, porque ali a chegada de um filho é assunto de toda a rua. O de uma mãe que esperou doze meses por aquele instante; o de um pai que nunca aprendeu a mostrar lágrimas e por isso aperta com mais força; o dos amigos de infância que retomam a conversa no ponto exacto onde a deixaram no Verão passado, e que se continuam a tratar pela mesmíssima alcunha que faziam há 40 anos atrás.. Nenhuma videochamada inventou ainda substituto para isto.

Depois vem a festa. A alvorada rasga a madrugada com foguetes, os sinos repicam, a banda percorre ruas ainda húmidas de orvalho. Ajoelham-se as mulheres a desenhar tapetes de pétalas que a procissão desmanchará dentro de uma hora, e é nessa efemeridade que reside a sua beleza. O andor segue aos ombros dos filhos da terra que vieram de longe, porque essa é, ali, a maior das honras.

É também nestes dias que a casa dos avós volta a ficar cheia e que os netos, nascidos longe, ouvem pela primeira vez histórias que não constam de livro nenhum: quem era o dono daquela courela, porque se chama assim aquele caminho, o que fazia o bisavô antes de emigrar.

Reencontram-se compadres, afilhados, primos em terceiro grau que ninguém sabe bem explicar como o são, e a aldeia recompõe, por três semanas, a fraternidade que só as comunidades pequenas souberam preservar.

E há a mesa, essa extraordinária instituição transmontana onde nunca falta lugar para mais um. Os fornos acendem-se muito antes do nascer do sol. Deles sai o torradeiro (leitão) de pele dourada e estaladiça, o cabrito lentamente assado, a alheira, a chouriça e o salpicão curados nas varas, o vinho servido à sombra da latada. Não são refeições: são gestos de amor e de festa convertidos em alimento. Conta-se a mesma história pela centésima vez, recordam-se os que já partiram, prometem-se regressos.

E canta-se. Porque em Trás-os-Montes a alegria não se declara: canta-se! Chegados o café e a aguardente, alguém entoa a primeira quadra e a mesa inteira acode ao refrão sem que nada tivesse sido combinado. Sai do estojo o realejo e a concertina, junta-se-lhe o bombo, os ferrinhos e a gaita-de-foles, e o serão prolonga-se até horas que ninguém confessará no dia seguinte. Canta-se à desgarrada, ao desafio, com aquela malícia serrana que faz corar os visados e faz rir todos os outros. Cantam-se modinhas que nunca foram escritas e que ninguém esqueceu, porque passaram de boca em boca, de geração em geração. Já Santo Agostinho o notara: cantare amantis est, «cantar é próprio de quem ama».

Depois é o largo. A rusga percorre as ruas, o baile acende-se sob as iluminárias e dança-se o malhão, a chula, o vira, os corridinhos que os pés dos mais velhos conhecem melhor do que a memória. O avô puxa a neta para dançar e mostra-lhe, sem uma palavra de explicação, o que aprendeu quando tinha a idade dela. Os emigrantes dançam como se quisessem afogar num arraial as saudades de um ano inteiro. E toca-se até o sol nascer, porque amanhã haverá tempo para dormir e o Verão é curto.

Há ainda um gesto que nunca consta dos programas de festa: a visita ao cemitério. Antes ou depois do arraial, alguém sobe com um ramo de flores e limpa uma campa em silêncio. É a maneira transmontana de dizer que a festa também pertence a quem já não pode regressar, fisicamente, para festejar…

Vivemos num tempo em que os afectos se tornaram apressados e descartáveis. Talvez seja por isso que estas aldeias continuam a ensinar uma das mais belas lições de humanidade. Que há valores que não envelhecem. Que há princípios que nunca ficam ultrapassados. Que a chave continua debaixo da pedra. Que quando alguém bate à porta será sempre recebido com um «Entre! Quem é?». Que a palavra dada vale mais do que qualquer escritura: fides servanda est, «a palavra dada deve cumprir-se».

Reza o velho adágio que ubi bene, ibi patria, «onde se está bem, aí é a pátria». O transmontano inverteu-o sem dar por isso: ubi patria, ibi bene. Atravessou meia Europa por causa dela, e por causa dela regressa.

Quando o Verão terminar, as luzes apagar-se-ão e as ruas voltarão devagar ao silêncio. Ficarão as fotografias, as gargalhadas, as promessas e as memórias. Porque as terras não vivem das pedras que as edificam: vivem das pessoas que a elas regressam e das inolvidáveis vivências que criam.

Enquanto houver um filho que faça milhares de quilómetros só para abraçar os pais, uma avó que acenda o forno porque «os meus vêm aí», uma gaita-de-foles ou uma concertina que não deixe morrer o serão e uma aldeia capaz de reconhecer cada rosto pelo nome, Trás-os-Montes continuará a ser muito mais do que um lugar no mapa.

Trás-os-Montes será sempre a terra do coração!

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