Entre marido e mulher, mete-se a colher!
Os romanos definiam o casamento como consortium omnis vitae, comunhão de toda a vida. Mas comunhão, não é sujeição. Nenhum dos dois vale mais, nenhum dos dois vale menos: ou se completam, ou não são nada.
Agosto devolve ao nosso país, e em especial, às aldeias do Nordeste, o barulho que lhes falta durante onze meses. Regressam os filhos, abrem-se as casas, acendem-se os fornos. E, atrás de algumas portas que se abrem, continua a viver-se aquilo que ninguém quer ver: a violência que não tira férias…
Há casais que atravessaram cinquenta anos lado a lado e chegaram inteiros ao fim. Há outros que atravessaram os mesmos cinquenta anos com um a mandar e o outro a obedecer: a palavra final sempre do mesmo lado, o insulto tornado hábito, o empurrão tornado costume. Chamar união a isto é confundir silêncio com paz.
A subjugação mais antiga, porém, é a que não deixa marca no corpo. É a da reforma que entra na conta a que só um tem acesso. É a do cartão guardado na gaveta do quarto, na qual só um pode mexer. É a da mulher que, aos setenta anos, tem de pedir dinheiro para ir ao cabeleireiro, para o passe do autocarro ou até mesmo para ir fazer as compras para casa. Isto tem um nome: chama-se violência económica e a lei portuguesa já a reconhece como tal.
O dinheiro não confere autoridade. A autoridade não confere domínio. E nenhum deles autoriza, em casa alguma, aquilo que o artigo 152.º do Código Penal pune com prisão até cinco anos, e que abrange os maus tratos físicos e também os psíquicos.
Poderá dizer-se que são coisas deles, que sempre foi assim, que a esta altura da vida já não vale a pena mexer. Respondo com o que aprendi da Lei e nos Tribunais: o hábito não é fonte de direito, e a antiguidade de um mal nunca o converteu em costume legítimo. Os anos que restam a quem tem setenta e oito valem exactamente o mesmo que os que restam a quem tem vinte.
Nos nossos prédios, nos nossos bairros, nas nossas aldeias sabe-se tudo. Sabe-se quem grita e quem cala, sabe-se em que casa a luz se apaga cedo demais. Saber e não dizer é já uma forma de consentir. E meter a colher tem, felizmente, forma legal: a violência doméstica é crime público, o que significa que qualquer pessoa pode denunciar e o processo avança sem depender da queixa da vítima.
Os romanos definiam o casamento como consortium omnis vitae, comunhão de toda a vida. Mas comunhão, não é sujeição. Nenhum dos dois vale mais, nenhum dos dois vale menos: ou se completam, ou não são nada.
Por isso digo o contrário do provérbio. Meta-se a colher. E meta-se a tempo, de evitar uma desgraça… Enquanto ainda é colher e não coroa de flores.










