Do rating ao cabaz

A habitação deixou de ser apenas um problema económico para passar a condicionar escolhas fundamentais da vida

22 set. 2026, 08:00

Vivemos num tempo em que somos permanentemente confrontados com indicadores económicos. O PIB, a dívida pública, o défice e as famosas agências de rating. Tudo para justificar o sucesso ou, em alguns casos, camuflar insucessos, com números, taxas e indicadores que o comum dos mortais não entende.

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Claro que todos estes números e avaliações são importantes e seria intelectualmente desonesto desvalorizá-los. Um país com contas públicas equilibradas, capaz de crescer e de se financiar em melhores condições está, evidentemente, mais preparado para enfrentar o futuro.

O problema começa quando confundimos bons indicadores económicos com a realidade concreta da vida das pessoas. Porque há uma economia das tabelas de Excel e há outra, que se mede no dinheiro que sobra na conta ao final do mês. É nesta última que vive a grande maioria dos portugueses.

Em agosto, a inflação voltou a subir para 3,3%, com os produtos energéticos a registarem um aumento homólogo de 12,2%. O INE diz-nos que este aumento é explicado quase integralmente pelo aumento do preço do gasóleo. Para quem vive no interior, onde o automóvel não é uma opção ou um luxo, isto significa simplesmente gastar mais para ir trabalhar, levar os filhos à escola ou aceder a muitos dos serviços que, infelizmente, não estão à porta de casa. Os preços dos combustíveis são incomportáveis. E não podemos continuar a ouvir dos governantes palavras de conforto, dizendo que estão muito atentos à evolução da situação e que os portugueses devem entender o esforço que o Governo está a fazer. Quem faz o esforço não é o Governo. Somos todos nós.

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O que se está a passar na habitação tornou-se igualmente insuportável. No primeiro trimestre de 2026, o preço da habitação aumentou 17,8% face ao mesmo período do ano anterior, o maior crescimento registado em toda a União Europeia. Um aumento desta dimensão num único ano ajuda a perceber a gravidade do problema. Se a habitação era inacessível para muitos portugueses e para os jovens, agora é quase uma miragem, só ao alcance de uns poucos privilegiados.

O arrendamento, que poderia ser a alternativa, também não oferece grande conforto. Segundo os dados disponíveis, as rendas aumentaram mais de 40% desde 2020.

E, neste contexto, a medida que o Governo apresenta é anunciar como “renda moderada” 2.300 euros mensais, o que representa 2,5 vezes o salário mínimo nacional. Se isto não é estar desligado da realidade, então não sei como o qualificar. Para uma enorme parte das famílias portuguesas, 2.300 euros não são uma renda moderada. São mais do que o rendimento mensal disponível de todo o agregado familiar.

Esta talvez seja uma das maiores dificuldades que enfrentamos. A habitação deixou de ser apenas um problema económico para passar a condicionar escolhas fundamentais da vida. Jovens que permanecem em casa dos pais, casais que adiam ter filhos, famílias que não conseguem mudar para uma habitação adequada às suas necessidades ou trabalhadores que recusam oportunidades profissionais porque o custo de viver noutra cidade se torna financeiramente impossível. Quando falamos da crise da habitação, não estamos apenas a falar de casas. Estamos a falar de vidas e de projetos de vida adiados.

Depois vem o supermercado, o lugar onde todos os ratings e teorias económicas se tornam verdadeiramente irrelevantes.

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O mesmo conjunto de alimentos, designado cabaz alimentar, que no início de 2022 custava cerca de 188 euros custa hoje mais de 250 euros. Mesmo quando regressarmos a alguma normalidade do passado, dificilmente os preços recuarão também para valores do passado. Uma inflação futura de 2% não fará regressar o cabaz aos 188 euros. É sobre os 256 euros que continuará a evoluir.

É por isso que me causa algum desconforto quando, perante estas dificuldades, a resposta política se resume demasiadas vezes à apresentação dos bons resultados macroeconómicos. Não porque esses resultados sejam falsos ou irrelevantes, mas porque não respondem, por si só, às dificuldades que enfrentamos.

Falta empatia ao discurso político. Falta que os políticos saiam da sua bolha e tentem perceber que uma renda milionária não está ao alcance de todos. Que uma compra no supermercado ou uma despesa extra, por mais pequena que seja, faz mossa no rendimento mensal. Não basta explicar a alguém que o país está melhor se essa pessoa sente que a sua vida está pior.

Precisamos de crescimento económico, de investimento, de contas públicas sólidas e de credibilidade. Precisamos de bons ratings. Mas tudo isto deve ser entendido como instrumento e nunca como finalidade da ação política. A finalidade é melhorar a vida das pessoas.

Por isso, quando um político ou porta-voz de um Governo se apresenta na televisão, por vezes com uma certa sobranceria, a celebrar mais uma melhoria do rating, talvez devesse ter presente que, ao mesmo tempo que se regozija com o anúncio, há quem esteja a decidir se pode comprar uma peça de carne, quem faça contas aos quilómetros que pode percorrer até ao próximo salário, quem não encontre uma casa condigna que consiga pagar ou quem veja o seu projeto de vida adiado.

Porque, no final, é no cabaz, na renda, na prestação da casa e no depósito do automóvel que cada família faz o seu próprio rating à economia e a quem nos governa.

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