Entre a responsabilidade e o humanismo
Precisamos de uma política migratória que responda às necessidades reais do país
As recentes imagens de Ceuta voltaram a colocar a imigração no centro do debate. São imagens de desespero, de desordem e de morte, que muitos rapidamente transformaram em arma política, explorando o medo e alimentando as redes sociais com vídeos populistas, em vez de discutirem as causas e as soluções para o problema.
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A imigração é uma realidade complexa e deve ser tratada com responsabilidade, equilíbrio e humanidade.
Os Estados têm, naturalmente, o direito e o dever de controlar as suas fronteiras, regular a entrada de cidadãos estrangeiros e combater a imigração ilegal. Nenhum país pode abdicar de defender os seus interesses, garantir a segurança e assegurar que os movimentos migratórios se fazem dentro da lei e de acordo com a sua capacidade de acolhimento.
Reconhecer isto não é ser contra a imigração. É compreender que uma política migratória responsável não pode assentar na ausência de regras nem na incapacidade de distinguir quem procura legitimamente trabalho e proteção de quem explora seres humanos ou representa uma ameaça para a sociedade e para o país que o recebe.
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Combater a imigração ilegal signifca, antes de mais, combater as redes criminosas que lucram com o desespero, perseguir os trafcantes, criar canais legais de entrada e reforçar a cooperação com os países de origem.
A população europeia está a envelhecer, a natalidade é baixa e muitos setores económicos já não conseguem encontrar trabalhadores. A agricultura, a construção civil, a hotelaria, a restauração, a indústria, os serviços de limpeza e o apoio a idosos dependem cada vez mais do trabalho de cidadãos estrangeiros. Em alguns destes setores, os portugueses já não aceitam determinadas condições de trabalho. Noutros, simplesmente já não existem pessoas sufcientes para ocupar todos os postos disponíveis.
Os imigrantes trabalham, pagam impostos, descontam para a Segurança Social, consomem e ajudam a manter em funcionamento serviços indispensáveis. Contribuem para a produção de riqueza e para a sustentabilidade do Estado social. Esta realidade não pode ser escondida por discursos que apresentam todos os imigrantes como uma ameaça ou que confundem deliberadamente a imigração legal com a entrada irregular, a criminalidade e a insegurança.
Precisamos, por isso, de uma política migratória que responda às necessidades reais do país, com entradas legais e mecanismos efcazes de integração. Receber pessoas sem criar condições para a sua integração não é uma política de acolhimento. É abandonar essas pessoas e criar problemas que, mais tarde, serão explorados por aqueles que se alimentam do medo e da divisão.
O equilíbrio é difícil, mas não é impossível. Podemos controlar as fronteiras sem desumanizar quem chega. Podemos combater a imigração ilegal sem transformar todos os imigrantes em suspeitos e criminosos. Podemos punir quem cometa crimes graves sem alimentar perseguições coletivas e generalizadas. Podemos defender os interesses nacionais sem abandonar os valores humanos e democráticos que sustentam a nossa sociedade.
O que não podemos aceitar é que a morte de seres humanos seja transformada em conteúdo para as redes sociais, numa atroz falta de empatia, muitas vezes acompanhada de relatos falsos que pouco dignifcam quem os partilha e difunde. A extrema-direita aproveita-se destas tragédias e alimenta o medo e o confronto social. Impõe-nos uma escolha entre defender as fronteiras ou defender os imigrantes. Como se tudo se resumisse, de forma simplista, a essa escolha. Como se todos os problemas e males fossem culpa da imigração e dos imigrantes. Como se agir com responsabilidade e cumprir as regras exigisse abandonar os valores humanistas.
Por trás de cada imagem existem pessoas. Existem famílias, flhos, pais e irmãos. Existem histórias de pobreza, de perseguição, de guerra, de falta de oportunidades e, muitas vezes, de manipulação, como aparentemente aconteceu no caso de Ceuta.
O desafo que temos pela frente é complexo. Se negligenciarmos o controlo da imigração, perderemos a confança das populações e colocaremos em causa a capacidade de integração. Se fecharmos as portas a quem trabalha, contribui e ajuda a sustentar a nossa economia, perderemos capacidade de crescer e de responder ao envelhecimento demográfco. Mas, se aceitarmos que o medo transforme pessoas em inimigos e cadáveres em propaganda para o TikTok, perderemos algo ainda mais importante. Perdemo-nos enquanto sociedade.
A escolha não pode ser entre a responsabilidade e o humanismo. Precisamos de ambos.











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