Não basta ter razão…

28 ago. 2026, 08:30

José Luís Carneiro é o secretário-geral do meu partido e, por isso, é também o meu secretário-geral. Não foi o candidato que apoiei quando, em 2023, disputou a liderança do Partido Socialista com Pedro Nuno Santos. Nessa altura, fiz uma escolha diferente, porque acreditava que Pedro Nuno Santos representava uma liderança com maior capacidade de mobilização, mais energia política e uma visão mais afirmativa para o país.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Reconheço, no entanto, em José Luís Carneiro seriedade, competência, experiência política e um profundo sentido de responsabilidade. Tem demonstrado conhecer o país, compreender as instituições e dominar os assuntos sobre os quais se pronuncia. Não é dado a aventuras, não vive na espuma dos dias nem alimenta o ruído. Estuda os problemas e procura apresentar posições responsáveis. São qualidades que devem ser reconhecidas e valorizadas, sobretudo num tempo político marcado pela superficialidade, pelo populismo e, demasiadas vezes, por argumentos falsos.

Também considero que tem razão em muitas, ou quase todas, as críticas que dirige ao Governo. Tem razão quando denuncia a distância entre os anúncios e a realidade, quando exige respostas para os problemas concretos das pessoas e quando alerta para o desgaste provocado por decisões mal explicadas, contradições e sucessivos casos que fragilizam a confiança nas instituições.

E, sabemos bem, têm faltado soluções na saúde, na habitação, na resposta ao aumento dos custos da energia e dos combustíveis e perante o agravamento do custo de vida. Isto para não falar da insistência em alterar o Código do Trabalho, reduzindo direitos dos trabalhadores, da forma discreta e encapotada como se preparam alterações ao nosso sistema de Segurança Social ou do caminho que vai sendo aberto para entregar aos privados novos negócios garantidos pelo dinheiro público, ou seja, por todos nós. Enquanto estes e outros problemas se acumulam, o Governo escolhe avançar com medidas de forte carga simbólica para agradar à direita radical, reduzindo direitos conquistados e transformando os imigrantes e as minorias em alvos políticos.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Mas ter razão sobre tudo isto não é suficiente.

A política não é apenas o exercício racional de identificar problemas e apresentar argumentos corretos. Um líder não pode limitar-se a estar certo. Precisa também de saber transmitir esperança, criar confiança e mobilizar as pessoas em torno de um projeto coletivo.

É aqui que, na minha opinião, José Luís Carneiro ainda tem um caminho a percorrer.

Não lhe peço que transforme a política num espetáculo. O país já tem demasiados protagonistas que confundem liderança com ruído e agressividade. Também não lhe peço que deixe de ser quem é. Mas peço-lhe rasgo.

Peço-lhe uma palavra mais mobilizadora e a capacidade de falar não apenas com razão, mas também de chegar aos portugueses, às suas emoções, às suas preocupações e às suas esperanças.

O PS precisa de voltar a entusiasmar. Precisa de apresentar um caminho para o país, de recuperar a confiança de quem se afastou e de voltar a falar com aqueles que já não se reveem na política. Precisa de defender os seus valores sem sofismos nem ambiguidades e sem receio ou preconceito de se assumir como uma força de esquerda progressista. Mas precisa também de reconhecer os erros que cometeu e de compreender as razões pelas quais tantos portugueses deixaram de acreditar nas suas respostas.

Essa tarefa não se cumpre apenas com equilíbrio e competência. Exige coragem política, capacidade de arriscar e disponibilidade para assumir posições que marquem uma diferença clara. Exige uma liderança que não tenha medo de se comprometer, de concretizar e de se concretizar.

A moderação é uma qualidade. A serenidade também. Mas nenhuma delas pode ser confundida com falta de energia, excesso de cautela ou receio de afirmar uma alternativa. A política precisa de razão, mas precisa igualmente de paixão. Não de uma paixão cega ou irresponsável, mas daquela que transforma ideias em causas e convence as pessoas de que é possível construir um futuro diferente para melhor.

Escrevo isto como militante socialista e como alguém que deseja que José Luís Carneiro tenha sucesso.

José Luís Carneiro já provou ser um homem sério, competente e quase sempre certo. Agora, o desafio é provar que pode ser mais. Tem de transformar a razão em esperança, a competência em confiança e a liderança numa vontade apaixonada.

Porque, na política, como na vida, não basta ter razão. É preciso que os outros a reconheçam.

PUBLICIDADE

Do mesmo autor

As mais lidas