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Luís Ferreira

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Vendavais - Aquilo que o povo não disse

Como facilmente nos apercebemos, as eleições para o Parlamento Europeu, caracterizaram-se por um demasiado desinteresse, não só em Portugal como em todo o espaço da União Europeia. É lamentável que tal aconteça, especialmente quando nos referimos tantas vezes com ênfase crítico ao que por lá se faz e que acaba por nos afetar a todos.

Não vale a pena queixarmo-nos de que a Direita e Extrema-direita cresce e ganha lugares no Parlamento Europeu e em alguns países desta União, pois isso acontece porque os que se desinteressam pelas eleições, permitem que tal se verifique, já que os eleitores de extrema-direita não se inibem de dizer “presente” no dia de ir às urnas.

Que moralidade podem ter as pessoas que não votaram, para criticar os que são eleitos pelos poucos que os elegeram? Quem não participa, não pode criticar já que não elegeu ninguém. Os que elegeram têm toda a prioridade para criticarem, pois se atuarem diferentemente do que prometeram ou não fazem o que se espera que façam, também não podem esperar elogios de ninguém.

O nível de abstenção que nestas eleições se verificou, não são, de modo algum, a aferição de uma votação futura, como muitos querem fazer crer. Votou-se para a Europa. Ponto. E é isto que temos de agendar como prioritário em qualquer conclusão. Claro que houve vencedores e vencidos, como em todos os atos eleitorais, independentemente do número de votantes. Mas quando quase 70% da população não expressou o seu sentido de voto, ficamos com a impressão de que o resultado é apenas uma amostragem e nada mais do que isso. A verdade é que a população europeia não expressou a sua vontade e o seu sentido de voto. A população europeia não quis escolher os seus governantes. Podemos aduzir razões de vária ordem, mas nenhuma nos responderá ao problema que se levantou perante o facto de só cerca de 30% da população ter comparecido às urnas.

Face a estes resultados, o que nos apraz dizer é que o povo europeu anda desanimado com os que o governam e que não acredita já nesta união. Há um desinteresse absoluto. Mas será isso que o povo quis dizer? Ou será que o povo ainda não disse o que deveria dizer?

Quando a Europa atravessou crises económicas e sociais profundas e os governos não conseguiram resolvê-las satisfatoriamente, o povo quando foi chamado a eleições, elegeu quem lhe prometeu o que os outros não prometiam. Assim, a Europa confrontou-se com um Hitler e com um Mussolini que acabaram por levar à destruição completa da Europa. Para trás ficavam alguns governos das chamadas democracias liberais, que tanto tempo levou a colocar à frente dos países europeus. Aos poucos caía a democracia liberal e foi preciso uma guerra mundial para resolver o desnorte dos ditadores. Agora, passados quase setenta anos, não queira a Europa viver de novo as agruras de uma guerra suicida, somente porque 70% da população se alheou de uma decisão que os restantes 30% aproveitaram para marcar pontos.

Diz-se frequentemente que o tempo é bom conselheiro, mas parece que não foi o caso que se verificou nestas eleições. Se o conselho chegasse a tempo de o tempo influenciar alguém, a abstenção teria sido de 30% e não o inverso.

Desta feita, o povo talvez não dissesse o que deveria, porque a maioria não se expressou devidamente. O que ficou por dizer é que assusta. Ficamos sempre na dúvida se o que faltou dizer foi que não se quer mais uma Europa unida, se o que se quer é não enviar para o Parlamento deputados que só vão encher os bolsos e não representar ninguém a não ser a si próprios ou se quer acabar com este sistema de representação parlamentar. Afinal o que quer a Europa?

A Europa não existe sem países e se queremos uma união, os países têm de comungar na maioria das decisões e estas têm de agradar à maioria e não a 30%. Alguma coisa está mal. É preciso coragem para o afirmar, mas para decidir é preciso votar. Todos têm de votar. A democracia é isso mesmo. Todos podem votar, mas devem obrigatoriamente expressar o seu sentido de voto e não deixar em mãos alheias o que a eles cabe por direito. A Europa não pode ficar refém de uma Marine Le Pen. E já há muitas Le Pen na Europa! Porquê?

Pois muito foi o que o povo não disse, mas o que ficou por dizer deve assustar-nos. Qual seria o resultado destas eleições se a maioria da população tivesse votado? Qual seria o sentido político dos votos? A extrema-direita teria este resultado? Era bom que o povo europeu se tivesse expressado condignamente para tirar as dúvidas dos que ainda pensam como os britânicos do Brexit. Afinal, o que terá ficado por dizer?

Vendavais - Bom leite, bom rebanho

As crias bem alimentadas suportam muito melhor as agressividades do crescimento de que os vírus viajantes, são causa principal, interferindo constantemente e deitando por terra toda a esperança de sobrevivência dos novos reixelos. Esta constatação, nada tem de novo.

Sabemos bem que em tempos de magros recursos em que as colheitas estavam sujeitas às intempéries de um clima inconstante e a um fraco desenvolvimento agrícola, a fome sobrevinha e os mais atingidos eram os mais indefesos. As mães, mal alimentadas e mal nutridas, pouco podiam dar aos filhos que apenas tinham o leite materno para se manterem vivos. Contudo, se esse leite era fraco e não lhes dava os nutrientes e vitaminas necessárias para debelarem os males que andavam pela Europa, adivinhamos facilmente qual o desfecho destas criaturas. Foi preciso melhorar todas as técnicas agrícolas e introduzir novos desenvolvimentos para que a qualidade da alimentação fosse substancialmente melhor e proporcionasse às crianças condições para enfrentar as maleitas que atacam quando se tem uma idade bem tenra. Nessa altura, a demografia europeia sofreu uma autêntica revolução. Houve um crescimento fantástico, ao ponto de alguns analistas dizerem que a Europa tinha atingido “um Mundo pleno”. Estavamos então no século XVIII. Já lá vai muito tempo!

Hoje a Europa continua aos sobressaltos e passa por problemas demasiado sérios em termos demográficos e económicos. Em 1951, em Paris, tentou-se criar algumas defesas, mais económicas que sociais e juntaram alguns países à volta do interesse que tinha o carvão e o aço. A partir de 1957, alargou-se a comunidade de países com interesses mais diversificados, o que chamou mais nações para essa comunhão. Daí até à União Europeia, foi um salto fantástico. Faltava simplesmente limar arestas e dar a quem fosse eleito para representar cada país e decidir em nome da União o que lhe interessava, condições de sustentabilidade. O leite de que necessitam os que fazem parte deste imenso rebanho, para poderem sobreviver. Sobreviver bem, claro, que isto dá muito trabalho e é preciso ser bem alimentado.

Pois é verdade, parece que o leite não é mau já que todo o rebanho não desiste e quer continuar a fazer o seu trabalho e a alimentar-se com o melhor leite que lhes é distribuído.

Dentro de dias temos aí as eleições para decidir quais os elementos do rebanho que permanecem ou os que, não conseguindo sobreviver às intempéries, têm de abandonar os companheiros. Não porque o leite seja mau. Nada disso. Somente porque sendo demasiado bom, é preciso alimentar os que dão mais garantias de sobrevivência. Só assim se consegue manter o rebanho em crescimento e muito forte.

Metáforas à parte, é bem verdade que os eleitos, são bem remunerados e têm regalias que, numa Europa em que existem carências de toda a ordem, não se compreendem. Não se trabalha por amor à camisola, que é como quem diz, em defesa do país que os elegeu, mas somente em defesa dos interesses de cada um. É uma constatação. É caso para se questionar se o leite que os alimenta fosse mau, se eles iriam para longe das famílias e se dariam a “tanto trabalho”!?

Claro que nem todos os deputados europeus estão no mesmo patamar de avaliação. Os que passam neste crivo, são poucos e estou a lembra-me, por exemplo, dos deputados dos países nórdicos, onde as mordomias, são menores e até escassas, e eles sobrevivem. O leite é muito forte! Não necessitam de tanto para enfrentar as intempéries! Mas não desistem.

A campanha está na rua. Campanha para as eleições europeias. Portugal, este ano, tem de se expressar duas vezes nas urnas e dizer o que realmente quer e quem quer colocar nos lugares disponíveis. Quase parece haver só uma eleição já que todos falam de tudo, e de todos e deixam a Europa um pouco de lado. Porque será? Afinal ela é a mãe de todo o rebanho!

Perante tais factos, corre-se o risco de haver cada vez mais desinteresse pela Europa e entrarmos num túnel demasiado escuro e sem conseguirmos ver a tal luz ao fundo que traga novamente a esperança que tinham os que pensaram numa Europa unida há quarenta anos atrás.

Agora não é uma questão de haver muito ou pouco leite. É uma questão diferente. Há leite a mais para um rebanho que tem interesses muito específicos e que vai esquecendo o país que lhes deu o ser. Encontraram uma mãe com melhor leite. Uma madrasta que os pode castigar quando menos esperarem.

Cuidado com as intempéries. Elas vêm aí. Andam por aí. O bom leite, faz o bom rebanho, mas é só enquanto se vai crescendo! Depois o leite acaba-se.

Vendavais - A palhaçada

Embora todos gostemos de nos rir com boas anedotas e piadas jocosas, não é nada fácil ser palhaço. Contudo, algumas pessoas sem qualquer propensão para serem palhaços, comportam-se como tais e não fazem rir ninguém. E desta feita, o ser palhaço é sinónimo de ser tonto e não saber bem o que anda a fazer. Autênticas baratas tontas. Correm de um lado para o outro afirmando aqui uma coisa e ali outra, numa incoerência absurda.

Quando há alguns meses atrás o governo concordou em descongelar as carreiras dos professores e retribuir todo o tempo de serviço que lhes tinha sido congelado, tudo parecia claro. Os sindicatos acalmaram, os professores também e tudo parecia caminhar na direção certa. Os professores iriam recuperar o tempo que lhes tinha sido roubado. Quase dez anos!

Depois de uma série de reuniões com os sindicatos completamente falhadas, começou a ficar cada vez mais distante a concretização de tudo o que se acordara. Os sindicatos movimentaram-se e deu-se início a uma série de manifestações e greves tendentes a levar o governo a retomar o diálogo e a ceder no que tinha acordado. O Ministro da Educação parecia um palhaço, pois dava o dito por não dito, adiantava promessas e recusava entendimentos, marcava reuniões e não aparecia. Uma palhaçada sem sentido algum.

Estava na hora de comprometer os partidos políticos e levá-los a pronunciarem-se sobre o assunto. E foi o que fizeram, com a dignidade que o assunto merecia, diga-se. Analisada a situação, concordaram em obrigar o governo a cumprir o que estava aprovado e orçamentado. Mas o governo recuou e secundado pelo Ministro das Finanças, veio a terreiro dizer que era impossível despender tantos milhões, mesmo sabendo que essa verba estava aprovada em sede de orçamento.

Se conseguíssemos todos saber as voltas que o dinheiro dá nas mãos dos ministérios e dos ministros, veríamos que ele anda numa roda-viva, e vai parar sempre onde menos se espera e para tapar os buracos que nós desconhecemos. Mas ninguém referiu que os milhões que foram roubados aos professores durante quase dez anos, foram para tapar os buracos dos bancos que foram à falência. Isto para não falar em muitos outros milhões que o governo enterrou nos bancos e que todos estamos a pagar. Outra palhaçada enorme.

Perante toda esta sarabanda, os sindicatos resolveram apoiar-se na Assembleia da República e nos partidos que apoiavam, não só o descongelamento das carreiras, como também a contagem imediata do tempo de serviço e o natural posicionamento nos escalões respetivos. E aqui enfrentaram, de algum modo, outra palhaçada, já que alguns partidos começaram a titubear na sua posição, entre eles o PSD. Rui Rio não se conseguiu assumir como um defensor e apoiante do que estava aprovado anteriormente. Colocou-se praticamente ao lado do Ministro das Finanças ao dizer que era necessário avaliar a possibilidade do cumprimento do orçamento, já que eram muitos milhões que o governo teria de pagar e causava problemas de solvência, entre outras desculpas. Não se queria comprometer. O líder do maior partido da oposição não se quis comprometer! Mas deve querer votos nas eleições ou será que os portugueses também não se vão querer comprometer?

De louvar a posição do BE e do PCP, que não tendo nada a perder, se afirmaram peremptoriamente pela positiva, encurralando o governo e a Assembleia. E a Assembleia da República aprovou, com os votos de todos os partidos, menos o PS, sobre a recuperação de todo o tempo de serviço dos professores e não só dos quase três anos que estavam já aprovados.

Perante tal situação, Costa resolveu lançar uma bomba atómica e, depois de reunir com Marcelo, veio dizer que se fosse definitivamente aprovado este processo, o governo se demitiria. Chantagem? Desistência? Só os cobardes é que desistem. Que palhaçada é esta?

Apesar de tudo, parece que não contava com a posição firme dos parceiros de coligação e ficou sozinho e pendurado com a bomba na mão. Mas atenção. O Rui Rio ainda não se pronunciou depois de lançada a bomba de Costa. Vai recuar novamente? Terá medo de se assumir uma vez mais? Outra palhaçada. Que tristeza! Como é possível assistirmos a toda esta encenação, repleta de falsidades, pensando que enganam o povo português? Agora jogam-se os votos das eleições legislativas. A campanha já começou e Rui Rio está a tentar contabilizar as perdas e os ganhos da sua posição face a este problema. É bom que tome uma posição séria sobre o assunto e não fuja com o rabo à seringa. Seja digno como os restantes partidos se quer que o levem em conta no futuro. E Costa também. É tempo de acabarem com as palhaçadas.

 

Vendavais - Sob um mesmo Deus

Nesta viagem interplanetária em que a Terra serve de base a todos quantos aqui habitam, todos ou quase todos, acreditam que um ser superior administra a relação do cosmos e dos homens e, de algum modo, criou tudo o que nos rodeia.

Desde as civilizações mais antigas que se tem isso como certo e por isso mesmo, foram todos levados a acreditar em vários deuses, porque um deveria ser pouco, ou num ser supremo que tivesse em si mesmo concentrados todos os poderes para governar todo o universo. Aos deuses deram nomes variados de acordo com os seus receios e os poderes que deles esperavam para governar as suas vidas. Desde o vento ao Sol e à Lua, passando pelo mar profundo, todos foram protagonistas de uma governação poderosa em que todos acreditavam. Séculos passados, os deuses foram ultrapassados por um só Deus, omnisciente e omnipresente, sem ter um nome específico ligado aos seus poderes. Simplesmente Deus. Muito embora acabe por ter um nome que identifica o povo que n’Ele acredita como Jeová, Alá ou até Buda, certo é que o Deus é o mesmo. Um ser superior que tudo e todos governa, não só na Terra como no Universo. E certamente haverá outros planetas e outros povos e raças que habitam neste imenso Universo. Não teremos certamente o privilégio de sermos únicos. Por que razão o seríamos?

Deste modo e pensando que este acreditar em algo pressupõe um modo de estar na vida, um modo de comportamento, um modo de interacção e um modo de convivência onde devem existir regras, é natural que essas mesmas regras sejam ensinadas aos mais novos para que, enquanto crescem as conheçam, as saibam aplicar e desenvolver corretamente. São normas de moral e ética, além de qualquer religiosidade a que se possam ligar, mas também. Afinal somos todos dirigidos por algo superior.

Deste modo, nas escolas há uma disciplina de Moral e Religião que é ministrada aos alunos para que eles tomem nota das regras de moral, de ética e também de uma certa religiosidade de que não se podem desprender. O que não se entende é a razão ou razões que levam os alunos a partir de uma idade mais madura, não quererem ter aulas de Moral e Religião. Antigamente havia esta disciplina até ao 12.º. Ano. Hoje muitos dos nossos alunos deixam de querer ter esta disciplina a partir do oitavo e nono ano e, as razões poderão ser várias. O furo das aulas que lhes dá a liberdade de privarem com outros colegas ou até saírem do espaço escolar, o desinteresse pela disciplina e pelos temas que se abordam, pela importância da Religião e o peso dela na disciplina ou até simplesmente por não quererem aulas, sejam elas quais forem. Caberá aqui à Escola e até ao Ministério, decidirem o que querem fazer para interessar os alunos por estas matérias. E quando resolvem incluir a disciplina de Cidadania para supostamente, formar alunos incutindo-lhes regras de moral e ética comportamental, ficamos sem saber realmente o que representa a disciplina de Moral e Religião! Porquê? Afinal o que se pretende não é a mesma coisa? Religiões à parte, o modo como todos se devem comportar pode e deve ser administrado por quem ensina a Moral e as suas regras. Isto é cidadania. Ser cidadão é ter moral comportamental e ética para poder desempenhar os papéis sociais a que tem direito e ocupar com dignidade os lugares que a sociedade dispõe. Ser cidadão é ser correto, honesto, é ser digno e fiel a um compromisso. Na antiga Grécia, os que eram considerados persona non grata, eram votados ao ostracismo por dez anos. Expulsos da cidade onde moravam. Fazia parte da moral e ética democrática, muito embora esta não fosse perfeita. Mas isto também se ensina hoje. Isto é Moral. São regras que a todos obrigam.

Se a disciplina de Moral e Religião Católica foi durante anos e anos a disciplina da Igreja Católica com o fundamento de que a sociedade portuguesa era essencialmente católica e esta a religião oficial do Estado Novo e assim permaneceu, não significa que deixou de ter importância a religião, porque é uma forma de crer, mas a moral, que é cada vez menos na nossa sociedade, deverá ser ministrada cada vez com maior rigor e obrigatoriedade. Não será esta Cidadania que o Ministério vem agora apregoar, que resolverá a questão dos desmandos sociais e humanos que estamos a viver presentemente. Que moralidade tem o filho que mata o pai? Que moralidade tem o marido que castiga e maltrata a esposa? Que moralidade tem o namorado que assassina a namorada por despeito ou ciúme? Que moralidade terá o governante que rouba o erário público ou que usa a corrupção para servir os seus interesses? São estes os cidadãos que queremos para o nosso país? Não. Decididamente, não.

Vivemos todos sob o mesmo céu, mas nem todos temos os mesmos horizontes. É verdade. Mas vivemos todos sob um mesmo Deus, tenha Ele o nome que tiver. E a isso obriga termos todos uma elevada Moral e uma Ética irrepreensível se queremos ser verdadeiros cidadãos. E isto, meus amigos, aprende-se desde pequenos. Até a celebração da Páscoa.

Vendavais: Quando se depenam frangos

As eleições europeias são já em Maio e, embora não pareça, mexem já e muito com os partidos políticos em Portugal. Uns querem ver nelas um teste, outros vêem somente um encargo e uma necessidade, porque se está na Europa. Para a Inglaterra, elas eram descartáveis, mas agora parece já não serem. Coisas do destino ou da má sorte. Lá como cá, também os partidos não se entendem muito bem.
Este ano, vive-se em toda a Europa, eleições para o Parlamento Europeu e preencher os lugares que cabem a cada país e a cada partido, com os deputados respetivos. É uma tentação, uma ambição e uma compensação. Os partidos tentam compensar os seus mais fiéis seguidores dando-lhes a oportunidade de não só representarem condignamente o seu partido e o seu país, mas também de ganhar uns cobres a mais do que ganhariam se por cá se mantivessem. Claro que estamos a falar de Portugal, porque em outros países isto não acontece, como é o caso dos países nórdicos onde certas mordomias como as que os deputados portugueses esperam, não existem. O trabalho é igual para todos, mas as ajudas, em todos os aspetos, praticamente não lhe são disponibilizadas. Eles que se desenrasquem. 
Tal como por cá, os deputados que para lá forem querem as mesmas condições de alojamento, de assistência e de ajudas às despesas, sejam elas quais forem. Ora assim é que é. Se assim não fosse, as tentações e ambições de pisar as alcatifas dos corredores do Parlamento, seriam muito menores. Mas estas eleições, independentemente disto tudo, servem também os interesses dos partidos, quanto mais não seja, para tirarem ilações do peso que têm, antes das legislativas que mais lá para o fim do ano, terão lugar cá dentro. Catarina Martins do Bloco já se adianta neste aspeto, dizendo que as europeias testam condições do próximo governo. Na realidade, ela ameaça o governo ao dizer que vai está lá longe o cheque da pensão, o recibo do salário, as condições da saúde, vai estar na sala de aula, nos transportes e nas condições ambientais e em todo o lado da nossa vida quotidiana. E continua afirmando, que estas eleições vão decidir as condições do próximo governo de Portugal e decidir se ele terá ou não, condições para investir, para defender quem trabalha e quem constrói este país. Pois é. A franga do Bloco, já canta de galo!
Por outro lado, Jerónimo de Sousa do PC, já se diz alvo de ataques, no meio de uma campanha para denegrir o seu apoio a uma solução governativa, bem como estar contra as medidas implementadas ao nível dos salários e dos impostos. Claro. É preciso ver de que lado deverá estar quando as legislativas ditarem quem vai governar. Será galo ou virará mais um frango?
E o PSD? Paulo Rangel que já está na Europa e vai continuar a estar, com todas as mordomias a que julga ter direito, vem afirmar que o PS está com medo e muito nervoso com tudo isto, especialmente o caso do preenchimento de lugares de governação com familiares. Na verdade, Costa mantém-se muito mais calado do que é habitual e com alguma razão. É desconfortável. Mas para Rui Rio, tudo isto se resolve com eleições. Dito desta forma, até parece que está muito seguro quanto ao resultado que o partido irá ter em outubro. Não cantes de galo Rui, porque podes muito bem ser depenado.
O mês de campanha que decorre até 26 de maio, poderá, portanto, ser muito do que disse, mas pouco do que se espera. Estas eleições não medirão muito do peso dos partidos, tanto cá dentro como lá fora, mas para os líderes serão um barómetro da sua ambição e da sua liderança. Claro que isto pode dar-lhes a força necessária para melhor enfrentarem as legislativas de outubro, mas não pensem que tudo é assim tão linear. Julga-se mais depressa o que se passa cá dentro do que o que se passa na Europa. Os portugueses deixam um pouco à margem dos seus interesses, o que se passa em Bruxelas. A comunicação trata de os informar e relevar os interesses do que é mais apetecível. E, neste aspeto, se for preciso depenar os deputados que por lá se pavoneiam, não pensa duas vezes. É tudo uma questão de informação. Por cá interessa a geringonça e o modo como se vai comportar até outubro. Costa, sem adiantar as certezas que parece por vezes ter, vai tentando ler nas entrelinhas dos parceiros, os interesses que querem ver resolvidos para poder apoiar soluções que a todos interessem. Mas sente-se ameaçado e muito, apesar de, no Parlamento, se erguer confiante e determinado nas opções que toma em nome do governo.
Pois é senhor primeiro-ministro. Pode ser, mas não pense que é por querer ser galo que também não pode virar frango e ser depenado quando menos espera.

 

Vendavais - A manifestação das vontades

As vontades são sempre de quem as tem e nunca de quem as quer resolver. É o que aconteceu com a manifestação dos professores neste fim-de-semana em Lisboa.

O Terreiro do Paço quase encheu com cerca de oitenta mil professores de todo o país que se juntaram para exigir ao governo o cumprimento do que está legislado. É uma luta de vontades. A que têm os professores e a que tem o governo. Uns querem, outros nem por isso. É só uma questão economicista, o que não é de somenos convenhamos. Mas isso não justifica a atitude de irreverência com que o governo se apresenta nas supostas negociações, onde nada se negoceia.

Muitos meses depois do início destas negociações entre o governo e a plataforma sindical, tudo permanece na mesma, o que equivale a dizer que nem o governo adiantou qualquer solução, nem a plataforma conseguiu algum acordo de princípio. Simplesmente nada.

Por mais vontade que a plataforma sindical tenha e por mais professores que consiga juntar e apresentar em manifestação, não consegue demover a vontade do governo que é só uma: não dar nenhum tempo de recuperação aos professores. As desculpas são sempre as mesmas e todos as conhecemos. Não adianta.

O Presidente da República perante a teimosia do governo, resolveu desatar o nó antes que fosse tarde e promulgar o decreto que recupera quase três anos dos quase dez perdidos. Nem todos ficaram contentes. Sindicatos e professores. Esta janela aberta por Marcelo, poderia ser uma lufada de ar para que as negociações adiantassem soluções num espaço de tempo aceitável, mas o governo nem isso quer aceitar. Não adianta qualquer possibilidade de resolução do problema. Vontade férrea de quem não tem soluções nem quer resolver coisa alguma.

A ex-secretária do PS Ana Benavente já avisou que o governo vai ter de pagar a fatura por esta falha enorme. Se nos lembrarmos bem, há onze anos, a greve dos professores desgastou o governo de Sócrates e contribuiu para o seu descalabro. O curioso de tudo isto é que passado tanto tempo ainda não se resolveu a questão dos professores. Como é possível?

As greves são armas de dois gumes. Cortam ou agradam em ambos os lados. Para o governo, podem ter interpretações variadas sendo uma delas, talvez agradável, que é o facto de poupar dinheiro já que não paga aos professores em greve os dias em que estas se realizam, com exceção dos fins-de-semana, claro. A outra, menos agradável, é que elas fazem mossa no governo e na opinião pública e pode ter um peso enorme em ano de eleição, como este. Que professor vai votar no governo que o está a prejudicar? Para os professores, as greves são um trunfo para mostrar o seu desagrado para com o governo, mas se este não paga os dias de greve, os professores saem sempre prejudicados. Fazer greve às avaliações, às aulas ou aos exames, não adianta. Perdem dinheiro e não conseguem nada. E não conseguem nada porque o governo pode decretar serviços mínimos e lá estão os professores obrigados a cumprir o que o governo pede. O que adiantam? Quase nada. O que fica é mera opinião pública e esta ferida de coerência já que muitos dos encarregados de educação não dão razão aos professores. Mas a questão é mais profunda do que isso. Eles não dão razão aos professores porque não podem ficar com os filhos em casa e não sabem o que fazer com eles. É que se estiverem na escola, estão arrumados e despreocupam-se durante o dia todo. Alguém trata deles! Quem? Os professores, claro. Vontades diferentes, mas relevantes. Presos por ter cão e presos por não ter.

Uma proposta da plataforma sindical apresentada no Terreiro do Paço para que o governo ouça bem, foi de greve ao arranque do ano letivo. É um momento crucial e pode ter um impacto enorme já que as eleições estão à porta e Costa vai ter de pensar muito bem se quer correr riscos desnecessários. Se conceder aos professores alguma recuperação de tempo de serviço e agendar a recuperação restante ao longo de mais dois ou três anos, ele ganha as eleições facilmente. Se não houver nenhum acordo, o risco é muito maior. Por um se ganha e por um se perde.

Outra proposta é greve geral a 23 de março. Será que vale a pena? Em tempo de Páscoa, as sensibilidades são outras e bem diferentes. Férias à porta e descanso à espreita, não são grandes motivações para quem agora acabou de se manifestar na capital sem aparente resultado. Mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Pode ser que o desgaste que sofreu Sócrates atinja agora Costa.

Pois perante tantas vontades antagónicas, não será fácil resolver o problema dos professores, mas mais do que isto é difícil resolver a questão da Educação em Portugal e isso é trabalho do governo, mas não de qualquer um. Terá de ser um governo com os pés assentes na terra e que saiba o que é ensinar para o futuro, com bases sustentáveis, com saber formado e adquirido, que permita aos jovens de hoje serem verdadeiros homens de amanhã. Não enganemos ninguém.

Vendavais … e nela mando eu

O Mundo acabou de homenagear a mulher num dia simbólico para o efeito. Ótimo. Quando existem dias para comemorar tantas coisas e algumas delas dispensáveis, seria péssimo que não se dedicasse um dia especial à mulher. E não me venham dizer que sem os homens as mulheres não existiam e vice-versa. Machistas e falsos moralistas não fazem História.

A mulher desempenhou sempre ao longo da História um papel importantíssimo. Esposa e mãe, rainha e governante, aliada e até moeda de troca para os grandes Tratados de Paz e harmonia entre Estados.

Desde os tempos pré-históricos que ela foi olhada com importância, porque fazia crescer o grupo e quanto mais elementos este tivesse melhor se podia defender dos outros grupos, pela cobiça, inveja e disputa entre os elementos do grupo, mas também com desdém quando era relegada para um segundo plano, cabendo-lhe tarefas consideradas próprias das mulheres. Mas na Grécia Antiga não era muito diferente num regime onde se apregoava a democracia e a igualdade. Aqui valia pouco na sociedade.

Foram precisos séculos para que a mulher tentasse conquistar um lugar digno na sociedade mundial. No início do século XX iniciou-se essa luta pela afirmação da mulher com Emmeline Pankhurst na Inglaterra. Nascia o movimento feminista que se iria alastrar por todo o mundo, embora de uma forma bastante irregular. A mulher era considerada somente como mãe e esposa, a cuidadora do lar, a progenitora.

A primeira Grande Guerra e a Segunda Guerra Mundial vieram dar-lhe um lugar merecido, quer no mundo do trabalho, quer na família. Desde então vemos a mulher a ocupar o lugar do homem em muitas empresas e a ter um papel de algum relevo até mesmo na política, onde os homens sempre pontuaram.

Mas ser mulher é muito mais do que tudo isto. Não é só mais uma peça de uma engrenagem enorme. A mulher tem de ser vista como mulher e não como uma peça sobresselente. E ao ser descortinada como um ser feminino com todos os atributos que lhe são devidos, descobrimos facilmente os problemas que muitos querem ignorar. A solidão atroz a que muitas são devotadas, não só pelos maridos, mas também porque estão verdadeiramente sós. Não têm família porque não conseguiram casar ou porque a família simplesmente não existe. Abandonadas, vêem-se num mundo de predadores e o esconderijo é uma das soluções para escapar. A infertilidade que atinge muitas mulheres que gostariam de ser mães, coloca-as numa zona desconfortável, porque os maridos as culpam da culpa que não têm. Daí até as agredirem por essa culpa ou porque essa será a desculpa para todas as agressões, é um passo muito pequeno.

Não será um problema somente atribuído à sociedade portuguesa, aquele com que nos deparamos hoje em dia, o da agressão gratuita. Quando nos informam que só este ano já foram assassinadas mais de uma dezena de mulheres sujeitas a violência doméstica, temos forçosamente de parar para pensar e pensar profundamente, pois algo está muito mal na nossa sociedade do século XXI.

Portugal sempre foi tido como um país pacífico, conservador e acolhedor. Pois toda a agressividade que está patente neste ranking, não abona nada em nosso favor e desvirtua completamente os adjectivos que nos têm sido atribuídos.

A mulher não pode ser um bombo de festa onde o homem descarrega todo o seu mal-estar. As razões que vêm a lume para justificar toda a série de violações e assassinatos de mulheres, são na sua grande parte, o justificativo do falhanço dos homens ao não saber lidar com os seus problemas familiares e mesmo profissionais. Isto é inadmissível.

Por outro lado a justiça pouco faz para resolver o problema. A legislação é muito dúbia e a sua aplicação divergente. Mas acima de tudo isto o que não existe é consideração. Todo o ser humano merece ser considerado e se a mulher é tida como mais fraca fisicamente, e só aqui, não é razão para o homem abusar da sua força e descarrega-la onde a fraqueza abunda para que possa vangloriar-se da sua ação. Fraqueza é o homem usar a sua força para castigar a mulher indefesa para justificar o seu próprio falhanço e incapacidade. Pior ainda é matar. Matar a esposa, a mão dos seus filhos e muitas vezes matar a sua própria mãe. Simplesmente inqualificável. O velho ditado sobre a mulher que dizia “Lá em casa manda ela e nela mando eu” tem de ser alterado urgentemente em nome do feminismo e de uma sociedade mais justa e igualitária. O homem que pense a sério qual o seu lugar nesta sociedade moderna, antes que não tenha lugar certo.

Vendavais - À deriva

Atravessamos tempos difíceis indubitavelmente. Por todo o canto e esquina deparamos com situações tão inusitadas e exasperantes como incríveis e aterradoras. Temos a impressão de que a humanidade corre sem rumo, fugindo do que não consegue solucionar e com medo de que algo terminal acabe efetivamente com a última réstia de esperança que lhe pode possibilitar a salvação.

Os acontecimentos que têm marcado este mundo nos últimos dias, tanto por cá como por lá, são tão exasperantes quanto aberrantes. Sabemos perfeitamente que os superiores interesses políticos e económicos, comandam desesperadamente os destinos das nações e dos governos, mas quando esses interesses se sobrepõem a um povo, a uma necessidade global de sobrevivência e colidem com uma ajuda humanitária que a comunidade internacional se dispõe a conceder, é simplesmente inqualificável. A máxima “antes quebrar que torcer” está aqui bem exemplificada. Não interessa a Maduro e ao seu governo se muitos venezuelanos morrem de fome e se nos hospitais há falta de medicamentos. Não interessa se não há dinheiro para comprar bens alimentares, até porque esses bens não estão à venda, também porque não há dinheiro para os adquirir. O que interessa é fazer frente a tudo e a todos em nome de uma democracia que não existe, em nome de um socialismo que nada mais é do que uma ditadura militar. O chamamento para uma realidade que lhe poderia render votos, não interessa. Rodeado de capangas militares, bem pagos e a quem nada falta, vai cantando vitória e ameaçando quem se lhe opuser. Até quando? Guaidó talvez tenha perdido uma batalha este fim-de-semana, mas certamente ganhará a guerra. Os venezuelanos ficaram a perder. Não tiveram acesso aos medicamentos importantes para tratar os doentes nos vários hospitais que anseiam por eles, adiando o sofrimento e a morte, nem aos bens alimentares para matar a fome que os atormenta diariamente. Impedir uma ajuda humanitária e destruir camiões de mantimentos é crime contra a humanidade. Que sanções vão ser aplicadas? Maduro é, neste momento um governante a prazo e ele deve saber que os ditadores têm os dias contados. Resta saber quantos mais lhe restam. Entretanto anda à deriva!

Também à deriva anda Costa cá por dentro e lá por fora. Com eleições à vista, accionam-se os motores para uma campanha diversificada. Para a Europa e para o Parlamento, o que conta é obter votos e quantos mais melhor. Espanha recebeu-o de braços abertos como a estrela salvadora para o PS espanhol e Costa discursou num arremedo de catalão, dizendo o que eles queriam ouvir, mas também para que os portugueses soubessem ao que ia e ao quer para cá. Campanha! A última remodelação ministerial dá bem conta disso mesmo. Foi uma promoção completa. Uns vão para a Europa onde se ganha bem e se passeia muito e outros de secretários vão a ministros sem ninguém saber quem são e o que fizeram. Não interessam perfis, talentos e percursos. O que é preciso é construir uma espécie de árvore genealógica, onde todos se relacionam e derivam uns dos outros e todos acabam por ter um mesmo interesse ou objetivo. A única diferença é que estes têm a cara desconhecida e isto acaba com a repetição dos ministros em pastas diferentes, mas acaba por ser quase uma oligarquia. Isto é muito mau. Vamos a ver o que tem a dizer a Catarina e o Jerónimo depois das eleições. Perante a inépcia dos outros partidos do espectro político nacional, parece-me cada vez mais certo que Costa ganhará este desafio. Resta saber a que custo. No entanto, parece-me que a Catarina anda à deriva também, empurrada pelos elementos mais conservadores. A vida custa!

No meio de toda esta confusão inusitada e complexa, faltava somente o absurdo. Como qualificar alguém que deixa uma fortuna de milhões a uma simples gata? Francamente! Sem dúvida inqualificável será a atitude deste senhor Lagarfeld que ao morrer deixa uma fortuna de 170 milhões à sua gata de quatro patas. Outra parece impensável! Aos olhos da justiça, não sei se isto é possível. Depende, obviamente, do país e das leis de cada um, mas um animal ser herdeiro de uma tal fortuna, parece simplesmente insano. Que deixasse alguém para cuidar da gata enquanto vivesse, seria o mínimo aceitável e para isso bastavam alguns milhares de euros, pois comer, lavar e asseio da bicha, custa dinheiro e pagar a quem o faça, igualmente. Até aqui é compreensível a deveras aceitável. Nada mais. Quando temos crianças a morrer à fome em países africanos e asiáticos, completamente desnutridas e sem medicamentos, ver um sujeito milionário a deixar a fortuna a uma gata, faz-me acreditar que a humanidade está a ficar louca. Exemplos destes são simplesmente incríveis e aterradores. O futuro é ao virar da esquina, mas parece-me que ainda andamos todos à deriva. O melhor mesmo é encontrar o rumo certo e rapidamente.

 

Vendavais - Aliança em terras improváveis

Há países onde proliferam os partidos políticos como se fossem cogumelos silvestres. Não entendo se acontece por vontade própria, por apetência política ou por sede de poder. Seja qual for a razão, é certo que ao acontecer esse alfobre político, todos se deparam com uma parafernália de escolhas que podem confundir o mais comum dos mortais que têm intensão de descarregar o seu voto no dia em que são chamados a fazer a escolha democrática a que os gregos nos ensinaram há muitos séculos.

Portugal não foge á regra. Habituados que estamos a referir somente os partidos que têm assento na Assembleia da República, quase nos esquecemos dos que não têm votos suficientes para eleger um único deputado. E por isso mesmo, perdem-se muitas centenas ou milhares de votos. Nós não somos muitos votantes e talvez por isso mesmo, não devêssemos desperdiçar os votos que pomos nas urnas com as melhores das intenções. Enfim.

Se o cenário que se apresenta cada vez que há eleições, em termos de partidos políticos, é já desconcertante, não se entende por que razão os partidos que mais votos conseguem, acabam por se fraccionar, dividindo os votos que seriam muito úteis no apuramento final, para os principais partidos. Exemplos desta atitude são vários se nos lembrarmos da cisão do PS há uns anos, do aparecimento do partido de Eanes, da cisão da ala esquerda do PS e do aparecimento do BE, enfim, uma série de divisões que em nada deram além do seu próprio desaparecimento.

Pois, agora, Santana resolveu desligar-se do PSD que ajudou a fundar, e formar um novo cujo nome é bem significativo: Aliança. Só e sem nada mais. Simplesmente Aliança. Tivemos neste fim-de-semana o seu primeiro Congresso. Aconteceu. Em Évora.

Évora! Não sei qual a razão subjacente à escolha desta cidade, mas seja qual for, o certo é que assistimos a um Congresso com muitos congressistas. Um plenário repleto de interessados em saber as linhas gerais com que têm de se governar daqui para a frente e saber o que é que o líder tinha para dizer neste arranque mais a sério para chegar às eleições legislativas deste ano.

Independentemente do peso político que queiramos dar às terras onde esperamos os votos, o certo é que em terras alentejanas, os votos são mais à esquerda do que ao centro ou à direita. Então por que razão Santana escolheu Évora? Pois se quer uma Aliança, terá de contar com todos e o que ele acabou por dizer no Congresso foi isso mesmo, ou quase, já excluiu qualquer aliança com Costa. Mas se com Costa não faz aliança, também não a fará com os comunistas ou com os bloquistas. Conta com quem? Com o antigo partido, cama dos seus votos, e com os centristas, a almofada dos seus interesses. De Évora e dos comunistas é muito improvável um resultado de tal modo satisfatório que agrade a Santana.

Vamos a ver o que daqui sai, mas de uma coisa eu tenho a certeza. Os votos que forem depositados nas urnas direccionados à Aliança, serão votos que irão fazer uma diferença imensa ao PSD no apuramento final. Não vejo vantagem nenhuma na criação de mais um partido, primogénito do social-democrata e cujo fim será o seu desaparecimento a curto prazo tal como aconteceu aos outros. Voltarão os filhos pródigos?

Neste Congresso duas coisas ressaltaram: uma foi a apresentação do programa e das linhas de atuação feita por dois jovens, uma advogada e um professor universitário, a quem falta ainda o traquejo destas andanças, mas que Santana quis afirmar como seus peões de brega e a outra foi a enorme quantidade de congressistas mais velhos, alguns com idade para se reformarem das lides políticas. Foi um Congresso às avessas! Mas como poderia ser de outra forma? A verdade é que Portugal é um país envelhecido e a juventude está desiludida com a política e com os políticos, para não dizer, mais drasticamente que já quase não há juventude neste país. É verdade, embora nos custe admitir isso. O interior está desertificado e as principais cidades viram muita da sua juventude sair à procura de melhores oportunidades pelos quatro cantos deste mundo global.

Claro que assim não poderia Santana ter um pavilhão cheio de juventude, aliás, juventude que não se identificaria nem com ele nem com a sua política que nada mais é do que um costilo bem armado à espera que o tralhão caia. Cairá? Penso que não, mas há sempre quem seja enganado ou se deixe enganar pela formiga de asa!

A verdade é que se deve dizer que foi preciso muita coragem para fazer um Congresso deste partido em terras comunistas, improváveis para uma Aliança, mas onde Santana espera certamente conseguir elos para reforçar a mesma Aliança. Não será fácil, mas afinal não isso que ele espera? Uma Aliança! Seja com quem for, mas que dure e magoe os que o fizeram afastar-se do tronco materno.

Vendavais - Os rios nascem no mar

palco redondo que gira e gira sem parar, parece que tudo está a girar ao contrário. Sem desprimor para a ordem natural que tudo comanda, por vezes temos a sensação de que realmente andamos ao contrário. Há qualquer coisa que nos leva a pensar que o que acontece não deveria acontecer deste ou daquele modo, o que nos leva a concluir que estará errado o que realmente se passa.

Desde há muitos séculos que falamos e admitimos que a democracia é o sistema que mais se aproxima da natural fluência de vida que aos humanos é atribuída. Claro que antes de os gregos terem experienciado e admitido a democracia como o regime que menos permitia aos governantes acessos à corrupção e à eternização do poder, outros regimes existiram e a humanidade não desapareceu e os governos não deixaram de exercer o seu poder executivo. Mas depois de tantos séculos e tantas lutas para conseguir afirmar a democracia como regime mais justo para governar em todos os sentidos e em todos os países, como é que ainda há governantes que não aprenderam nem o significado dessa palavra nem a necessidade da sua aplicação? Muito pior que isso é o facto de chamarem regime democrático a regimes puramente ditatoriais onde só um comanda, só um decide, só um governa.

O mundo está à beira de um conflito enorme se ninguém for capaz de explicar devidamente a Maduro o que significa democracia. Como é possível no século XXI um governante querer eternizar-se no poder e matar à fome os seus súbditos em nome do que chama democracia?

Também não se entende muito bem como é que tantos apoiam o regime, mesmo sabendo que não lhe darão o dinheiro para comprar o pão no dia seguinte. Será por medo ou convicção? Os que imbuídos de uma vontade férrea de mudança, se atrevem a mudar alguma coisa em nome da democracia, são considerados fascistas, capitalistas e imperialistas. Maduro estudou bem estas palavras, mas porque lhe interessava. Elas permitem-lhe ficar no poder e mudar as regras do jogo quando e sempre que quiser. Mas o peso da espada que pende sobre ele, pode cortar-lhe a cabeça de um momento para o outro e ele ainda não pensou nisso.

O movimento iniciado por Guaidó pretende para a Venezuela a mudança que todos esperam e a dignidade que todos os venezuelanos merecem. A transição é necessária e urgente, mas o que internamente é sentido de uma forma, para a comunidade internacional é diferente, principalmente para os países que ainda não aprenderam corretamente o significado da palavra democracia. Isto pode levar este mundo a girar de forma contrária, o que será desastroso.

Perante esta manifestação de oposição ao poder de Maduro que todos afirmam ser ilegítimo e fraudulento, logo se perfilaram países a defender o ditador e outros, mais politicamente cuidadosos, a exigir eleições antecipadas e sem cariz fraudulento. Aos poucos, por causa de um ditador, o mundo divide-se nas suas opiniões. E se formos a ver quem está de um lado e de outro da barricada, vemos que de um lado estão países como a Rússia e a China onde as ditaduras permanecem a seu bel-prazer, e do outro os países da União Europeia e os EUA. Afinal parece que nem todos os países sabem o significado real da democracia e como aplicar o regime que a ela subjaz. É verdade que da legislação internacional ressalta o facto de que nenhum país se pode ingerir no modo de governação de outro a não ser em casos muito específicos e urgentes. Será que este não é um desses casos? Não se entende de facto como é possível permitir que um país como a Venezuela que tanta riqueza tinha, tenha perdido tudo a favor da ganância e incoerência política de governantes como é o caso do atual.

O mundo está suspenso das movimentações que se irão seguir e esperemos que sejam tomadas com base na democracia, mas daquela que não conhece Maduro. Se ele anda ao contrário, o mundo terá de girar de outra forma. A verdade é que os rios não podem nascer no mar!